UOL Notícias Internacional
 

07/08/2008

China contrata internautas profissionais para defender o governo na Web

Le Monde
Brice Pedroletti
Em Pequim
Conhecida por sua ciberpolícia, a China também recorre maciçamente aos serviços de internautas profissionais que defendem o ponto de vista do governo e do partido nos fóruns de discussão. Na rede, esses "comentaristas" um tanto especiais, meio guardas vermelhos e meio mercenários, são chamados de "wu mao dang", ou "bando dos 5 centavos" - porque originalmente eles receberiam 5 centavos por comentário.

Tudo começa em 2004. Uma recomendação do Ministério da Educação e da Liga da Juventude Comunista aconselha a "reforçar a educação ideológica dos estudantes" e "controlar melhor a utilização da Internet nos campus". Na época os serviços de BBS (Bulletin Board Service) das universidades eram o local de debates intensos sobre todos os assuntos. Alguns desses fóruns são conhecidos em todo o país, como o ytht.net da Universidade de Pequim, onde sopra um vento cada vez mais crítico. Os estudantes se conectam de manhã até de noite, assim como pessoas externas ao campus, a ponto de às vezes haver centenas de milhares de inscritos, enquanto os campus não têm mais que 10 mil a 20 mil estudantes.

Mas o que parece uma Tiananmen virtual em gestação causa preocupação, sobretudo quando um artigo publicado em um site influente, qianlong.com, faz muito barulho: americanos e japoneses empregariam "espiões da net" ("wangte", um termo que se torna onipresente) para manipular os BBS chineses. É verdade que a Internet é uma libertação para os chineses anestesiados por uma imprensa estreitamente vigiada: os rumores mais loucos circulam lá. Desde setembro de 2004, o ytht está fechado. Através do país os fóruns mais visitados nas universidades foram suspensos um a um para "manutenção" durante 2005. Os estudantes se queixam em vão. Rapidamente, novas regras proibiram o acesso aos fóruns de pessoas que não seguem cursos e obrigam os participantes a se registrar com seus verdadeiros nomes junto à administração. As equipes de censores foram reforçadas.

Foi durante esse expurgo que nasceu o projeto de lançar batalhões de "comentaristas da Internet" ("wangluo pinglun yuan" em chinês). Sua missão é influenciar as discussões "no bom sentido ideológico". Assim, o Instituto de Ciências e Tecnologias de Henan decidiu em 2004 "recrutar equipes de comentaristas dos sites da Internet das universidades para intervir no BBS do campus e em alguns sites fora do campus". É preciso "intervir nas discussões e orientar os comentários sobre os temas que mais preocupam os professores e estudantes", explica um documento encontrado online no site do instituto, na seção "propaganda"... "Diante dos acontecimentos repentinos, é preciso orientar a tempo as opiniões, defender as interpretações corretas e manter uma voz positiva... a fim de garantir ao máximo a estabilidade das universidades." Não poderia ser mais claro.

Encontram-se na Internet chinesa dezenas de circulares oficiais desse tipo, redigidas na linguagem típica da burocracia, cheias de expressões marciais e de exortações para manter a linha do partido: elas não são secretas e revelam a sinistra crônica de uma contra-ofensiva em regra, diante do desafio representado para o partido dos novos espaços de liberdade de expressão abertos pela Internet. Uma universidade de Hunan explica que cada "comentarista da Internet" deve, além de comentários regulares - "no mínimo 20 por mês" -, "produzir pelo menos um artigo de propaganda positiva por mês" nos fóruns de discussão, "ressaltando os grandes progressos realizados para tornarem-se universidades de renome mundial, abertas e polivalentes".

Os primeiros comentaristas da Internet são estudantes. Em 2006, um despacho da agência Xinhua descreveu assim a dedicação de uma estudante da universidade de Jiangnan em Wuxi, envolvida de maneira voluntária a favor da educação patriótica de seus camaradas nos BBS - ao lado, segundo se lê, de "outros mil 'honkers'", abreviação de "hacker vermelho", quer dizer, internauta patriótico.

Depois que as universidades contrataram equipes de estudantes zelosos, com freqüência membros da Juventude Comunista, a fórmula foi reproduzida em todas as escalas das administrações provinciais. Na escala nacional, recorrer a isto tornou-se uma obrigação ardente: em um discurso pronunciado em 2007, o presidente Hu Jintao pediu aos quadros do partido "que exerçam sua supremacia sobre a opinião pública na rede, para elevar o nível e o estudo da orientação online e explorar as novas tecnologias para disseminar uma propaganda positiva".

Desde então as diretrizes nacionais incitam a selecionar "camaradas de bom perfil ideológico... dotados de grandes capacidades e de uma grande familiaridade com a Web... para formar equipes de comentaristas de Internet". Espalha-se o rumor de que eles recebem 5 mao por comentário - na realidade muitos são funcionários públicos assalariados e recebem um bônus por artigo e por comentário.

Segundo David Bandurski, do Centro de Estudos de Jornalismo e da Mídia da Universidade de Hong Kong, essa propaganda política da era da Web ocuparia cerca de 280 mil pessoas - para mais de 250 milhões de internautas chineses. Em um dossiê sobre o assunto redigido no último número da "Far Eastern Economic Review", esse especialista estima que "existe uma convicção muito forte entre os dirigentes chineses de que a China deve se defender das forças exteriores hostis e que a Internet chinesa é um campo de batalha crítico".

Hoje haveria "wu mao dang" até nos grandes portais da rede, que lhes pagariam eles mesmos. Seus serviços se banalizaram: em um relato publicado no site Youth Week-end sobre as medidas tomadas pelas autoridades de Wengan para "canalizar" a imprensa e a opinião pública depois de rebeliões que ocorreram em junho, um repórter chinês descobriu que uma dúzia de professores e funcionários públicos foram selecionados pelas autoridades para desmentir os rumores na Internet através de comentários anônimos.

Os internautas chineses, no entanto, são cada vez menos enganados: nos fóruns de discussão o termo "wu mao dang" soa como um insulto diante de um comentário conforme demais com a linha oficial. E depois os transformam em zombaria: "Com a inflação, está na hora de passar para 6 mao!", prega um usuário. "Quando eu li esse termo, primeiro senti uma grande alegria, pois pensei que havia nascido um novo partido ("dang" em chinês). E além disso era um partido sem Mao (outro sentido de "wu mao")", zomba outro internauta, com o pseudônimo de "Lua que se põe na bruma". Uma espécie de "devolver ao remetente". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    11h59

    -0,23
    3,129
    Outras moedas
  • Bovespa

    12h07

    -0,28
    75.760,69
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host