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07/08/2008

McCain e Obama mostram as novas fronteiras da política norte-americana

Le Monde
Daniel Vernet
Em Washington
Para os democratas, não há dúvida alguma quanto a isso. Uma vitória de John McCain na eleição presidencial de novembro equivaleria a oferecer um terceiro mandato para George W. Bush. Não deixa de haver nesta afirmação um quê de má-fé, atitude essa que confere seu charme a toda campanha eleitoral, mas ela não é de todo equivocada. Mesmo que McCain possa ajudar o Partido Republicano a "se reinventar", conforme andaram garantindo inúmeros comentaristas, após oito anos de "bushismo", a eventual chegada de Barack Obama à Casa Branca transformaria por completo a paisagem política americana. E isso, não apenas porque ele seria o primeiro presidente negro dos Estados Unidos, virando com isso uma página da história que começou a ser escrita em meados do século 19 com Abraham Lincoln e a abolição da escravidão.

Muitos foram os historiadores americanos que propuseram uma teoria dos ciclos para explicar a história dos Estados Unidos. O antigo candidato derrotado à investidura democrata em 1984 e 1988, Gary Hart, lembrou recentemente num artigo publicado no "Herald Tribune" que o historiador Arthur Schlesinger nela enxergava uma oscilação entre a opção pela memória e a preferência pela esperança, entre a opção pelo conservadorismo e a preferência pela inovação. Ou seja, uma distinção que não é muito distante daquela que os franceses fazem entre a opção pela conservação e a preferência dada à movimentação, para distinguir a direita da esquerda. Contudo, neste campo, as comparações são tanto mais aleatórias que, ao menos desde a revolução instaurada pela era Thatcher (a do liberalismo econômico, a partir de 1980), essas diferenças acabaram se confundindo na Europa, e que a divisão entre direita e esquerda, se ela ainda tiver algum sentido, está disseminada, nos Estados Unidos, no interior dos dois principais partidos.

Segundo Arthur Schlesinger, os Estados Unidos costumam passar por períodos de reformas e períodos de consolidação que duram geralmente entre uma e três décadas. Assim, a "coalizão do New Deal", que se formou em volta de Franklin Delano Roosevelt a partir da eleição presidencial de 1932, foi mantida até o final dos anos 1960. E foi preciso esperar até a debacle no Vietnã para vê-la explodir e desaparecer. Um outro tipo de coalizão constituiu-se posteriormente, que pode ser chamado de "coalizão Reagan", mesmo se o homem que a simbolizou só foi eleito em 1980. Ela acabou ressurgindo nas forças que votaram em favor de George W. Bush (o 43º presidente, desde 2001) em 2000 e, sobretudo, em 2004.

Os dois mandatos do democrata Bill Clinton (o 42º presidente dos Estados Unidos, que governou de 1992-2000) constituiriam um parêntese ou será que eles caracterizam uma forma de continuidade? Os observadores se mostram divididos em relação a esta questão. Em todo caso, a "triangulação" encampada pela administração Clinton, ou seja, a orientação centrista da sua política interna, que se baseava em três elementos que haviam sido tomados emprestados do programa do Partido Republicano - a reforma do Estado de Bem-Estar Social; as reduções de impostos para a classe média e o retorno ao equilíbrio orçamentário -, não criou as condições para que a "coalizão Roosevelt" fosse reconstituída. A rejeição, ao menos teórica, do "big government" (um Estado central forte e intervencionista) representava um retorno às origens do Partido Democrata, mas ela rompeu com a prática das administrações democratas desde o New Deal e operou uma maior aproximação em relação à ideologia republicana moderna.

As linhas divisórias que existem entre os dois grandes partidos políticos americanos, e, mais ainda, as suas divisões internas, desde sempre dizem respeito aos mesmos temas, com ligeiras diferenças sendo introduzidas dependendo das épocas - direitos dos Estados, papel do governo central, fiscalidade. Elas são geograficamente marcadas por uma discrepância entre o Norte e o Sul, a qual tanto os republicanos quanto os democratas sempre precisaram superar para conseguirem impor seu candidato à Casa Branca.

Na época do New Deal (1933-1945), Franklin Delano Roosevelt teve de enfrentar a oposição conjugada dos democratas brancos do Sul, que eram defensores dos direitos dos Estados federais e, portanto, hostis ao poder central, dos funcionários do partido, pelos quais ele não tinha qualquer consideração, e dos meios de negócios. Todos esses adversários acabaram sendo eleitos para cargos representativos no Congresso, onde se aliaram aos republicanos, formando uma coalizão conservadora bipartidária. Esta coalizão confirmou uma das grandes linhas de divisão oriundas da guerra civil.

As dissensões, que haviam sido deixadas na surdina durante a Segunda Guerra Mundial, voltaram a ficar exacerbadas no final dos anos 1940. A direita racista abandona então o Partido Democrata, e, mais tarde, conforme um esquema que se repetiu com freqüência ao longo da história política americana, na qual os pequenos partidos terceiros não têm perspectiva alguma de vencer, ela retorna para esta agremiação depois da derrota dos seus candidatos nas eleições presidenciais de 1948 e 1960.

Uma outra vertente no âmbito do Partido Democrata reúne os sindicalistas, os intelectuais liberais e os economistas reformistas tentados pela intervenção do Estado. Foi esta tendência que John F. Kennedy (1917-1963, 35º presidente dos Estados Unidos) quis fazer reviver no início dos anos 1960, reunindo seus expoentes em torno do slogan da "nova fronteira" (uma política que visava a evitar, entre outros, a segregação entre brancos e negros e acima de tudo, o isolacionismo). Nascida durante o New Deal, esta vertente foi se despedaçando aos poucos sob o efeito do choque da guerra do Vietnã, e praticamente desapareceu quando do advento dos neoliberais, entre os quais pode ser incluído Bill Clinton.

Posicionando-se contra a falta de agilidade burocrática do "big government", os neoliberais retomaram por sua conta as críticas contra o Estado de Bem-Estar Social que alguns democratas que haviam se bandeado para o lado dos neoconservadores tinham proposto a partir dos anos 1970. Eles também recuperaram e tentaram atualizar os valores americanos tradicionais. William Galston, mais conhecido como o "straussiano de Clinton" porque ele seguira seus estudos com Leo Strauss (1899-1973), o filósofo de Chicago que se tornaria o inspirador indireto dos neoconservadores, representava esta tendência na Casa Branca quando era o conselheiro do presidente para assuntos da educação.

A geografia partidária é tornada ainda mais complexa por causa da linha divisória que marca a política externa, e que se sobrepõe às outras. Numa simplificação destinada a clarificar esta questão, ela divide os partidários do isolacionismo e os internacionalistas. Os primeiros formam tradicionalmente uma minoria entre os democratas, mas eles cooperam com os republicanos, mais tentados pelo isolacionismo. A sua posição acabou sendo desacreditada pelo ataque japonês contra Pearl Harbor em 1941, assim como as veleidades de se manter afastado das confusões do mundo, manifestadas por George W. Bush no começo do seu mandato, foram destruídas pelos atentados de 11 de setembro de 2001.

Os cientistas políticos explicam a melhor coesão do Partido Republicano apontando uma maior homogeneidade social dos seus membros e do seu eleitorado. Antes da guerra, a direita e a esquerda se diferenciavam dentro deste partido em função da sua atitude para com o New Deal. Uma minoria, progressista dentro da tradição de Theodore Roosevelt, apoiava a política do seu "remoto" sobrinho. Ela era essencialmente composta por jovens que combatiam a velha guarda do partido. Algumas décadas mais tarde, os jovens republicanos se posicionarão antes como "radicais conservadores", tal como fez Richard Nixon (1913-1994, o 37º presidente) no início do seu mandato.

Depois do fiasco do Watergate, em 1974, os republicanos conseguem ainda assim formar uma ampla coalizão conservadora que conduzirá Ronald Reagan (1911-2004, o 40º presidente) ao poder. Ela agrupa da mesma forma, republicanos tradicionais, neoconservadores, entre os quais diversos democratas que se afastaram do seu partido por razões de política externa, além de democratas sulistas e de simpatizantes da nova direita cristã, fascinados pelos sermões televisivos dos pastores evangelistas. O próprio Reagan mostrou-se ideologicamente próximo aos tradicionalistas, mas o seu pragmatismo fez dele um "mainstream conservative" (integrante da principal corrente conservadora), uma expressão que nós tenderíamos a traduzir por "centrista".

Esta "coalizão Reagan" garantiu o duplo sucesso de George W. Bush. Ela se manteve viva por muito mais tempo do que o previsto por causa da Al Qaeda e da guerra no Iraque. O desafio que está à espera de John McCain é de prorrogar sua vida útil, no momento em que ela está ameaçada por forças centrífugas. Os republicanos tradicionais acusam os neoconservadores de serem os responsáveis pela falência relativa das forças armadas no Iraque; por sua vez, os fundamentalistas cristãos alimentam dúvidas em relação às posições morais de John McCain. Em contrapartida, os democratas sulistas não têm mais razão alguma para não votarem em favor do "partido de Lincoln", que eles execraram por tanto tempo, e que, por sua vez, não conseguiu reconquistar o eleitorado negro que ele perdera na época do New Deal.

Para Barack Obama, a equação apresenta-se de forma inversa. Será que os votos dos negros, que se inscreveram maciçamente nas listas eleitorais desde as primárias democratas, ao passo que até então eles respondiam pela parte mais importante dos contingentes de abstencionistas, conseguirão compensar a debandada previsível no eleitorado branco? As transferências de votos de um grande partido para o outro, que são costumeiras na vida política americana, voltarão certamente a ser observadas na eleição deste ano. Ao que tudo indica, a sua amplidão e a sua orientação arbitrarão a disputa entre Obama e McCain.

A reduzida ancoragem ideológica dos partidos, as flutuações dos seus princípios, o costume de tomar temas populares emprestados do adversário, todas essas características existem desde os primeiros tempos da União. Até a fundação do Partido Republicano, em meados do século 19, ocorria até mesmo que as agremiações políticas trocassem seus nomes entre si. Essas características do debate americano foram ainda mais acentuadas pelas técnicas modernas da política que se desenvolveram nos Estados Unidos a partir dos anos 1900.

Independentemente de ser vitorioso ou derrotado, John McCain obrigará os republicanos a operarem um retorno rumo aos seus valores mais básicos, depois dos dois mandatos de George W. Bush. O eventual sucesso de Barack Obama poderia dar início a uma nova fase na sucessão dos períodos de conservadorismo e de inovação. Mas, ninguém há de se iludir, imaginando que mudanças drásticas serão introduzidas: as alterações dentro da política americana se movem no interior de um espaço doutrinal bastante delimitado. Exceto se considerarmos que a crise dos subprimes e suas conseqüências resultarão em abalos de mesma natureza que aqueles gerados pelo New Deal de Franklin Delano Roosevelt. Jean-Yves de Neufville

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