UOL Notícias Internacional
 

08/08/2008

Raul Castro joga uma ducha fria sobre as esperanças de mudanças dos cubanos

Le Monde
Jean-Michel Caroit
Em Santo Domingo
Pisada no freio em relação às reformas, consolidação da defesa, "qualquer que seja o resultado das eleições nos Estados Unidos", retomada da cooperação com a Rússia: dois anos após ter assumido os comandos, Raul Castro já havia esfriado as esperanças de mudanças em Cuba. Por ocasião da festa nacional, em 26 de julho, o seu discurso "teve o efeito de uma ducha fria para a maior parte dos cubanos", segundo avaliação do economista Oscar Espinosa Chepe, um antigo prisioneiro político.

Ao ascender ao poder em conseqüência da doença do seu irmão primogênito Fidel, Raul Castro havia anunciado "mudanças estruturais e conceituais", e acenado com um ramo de oliveira na direção de Washington. Hoje, a sua posição é bem diferente: "Nós devemos nos acostumar a não receber apenas boas notícias", disparou o dirigente no discurso que pronunciou em 26 de julho. "Quaisquer que sejam os nossos desejos de solucionar todos os problemas, nós não podemos gastar mais do que aquilo que temos", acrescentou. Ele ainda insistiu na gravidade da crise mundial, "que não é apenas econômica, mas que está também associada à mudança climática e à utilização irracional da energia".

Falando de uma tribuna acima da qual pairava um imenso retrato do seu irmão, Raul Castro citou demoradamente o discurso que Fidel havia pronunciado por ocasião da festa nacional de 1973. Ele lançou mão de símbolos fortes, que foram interpretados como garantias oferecidas à ortodoxia "fidelista" depois das conjeturas a respeito da existência de possíveis divergências entre o "Líder Máximo" e seu caçula, que era apresentado como mais pragmático.

80% dos alimentos importados
O estado de saúde de Fidel Castro permanece um segredo de Estado. Segundo comentaram visitantes recentes, entre os quais o Prêmio Nobel de literatura colombiano Gabriel Garcia Márquez, ele aparenta ser mais robusto e manifesta uma grande lucidez. No momento em que ele está prestes a completar 82 anos, Fidel segue publicando, em média uma vez a cada dois dias, reflexões sobre os assuntos mais diversos, que são abundantemente repercutidas pelos meios de comunicação cubanos. Pondo fim ao silêncio que o regime vinha observando em relação às deserções de atletas, ele acusou os Estados Unidos de "roubarem os cérebros, os músculos e os ossos (...) com o seu dinheiro mercenário".

Mais do que uma mera mudança de rumo, o discurso de Raul Castro vem sendo interpretado por vários analistas como sintomático de uma variação de ritmo diante da resistência que vinha sendo apresentada pela burocracia ortodoxa e frente à deterioração da economia mundial. "Talvez ele tivesse se dado conta de que as suas declarações e seus atos haviam estimulado as expectativas da população em níveis altos demais em relação às reivindicações que podem de fato ser atendidas", arrisca Brian Latell, um antigo analista da CIA (a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos), autor do livro "Cuba sem Fidel" (publicado no Brasil).

"Uma das iniciativas mais importantes de Raul neste ano tem sido a de liberalizar a estrutura salarial cubana, para fazer com que os trabalhadores mais produtivos sejam mais bem pagos", observa Latell. Confrontado ao envelhecimento da população, Raul Castro também anunciou o adiamento gradativo em cinco anos da idade da aposentadoria, que passará para 65 anos para os homens, e 60 anos para as mulheres. Uma reforma em relação à qual ele reconheceu que ela merecia maiores explicações, "para dissipar todas as dúvidas". "Todas as opiniões serão ouvidas com atenção, quer elas coincidam ou não com aquelas da maioria. Nós não aspiramos à unanimidade", prometeu.

Nos dias que se seguiram à cerimônia que sacramentou oficialmente sua ascensão ao poder, em 24 de fevereiro, Raul Castro cancelou as proibições que impediam as compras de telefones celulares, de computadores e de aparelhos de DVD, e abriu os hotéis para os turistas cubanos. A melhora dos serviços de distribuição de eletricidade e dos transportes públicos, beneficiados pela aquisição de centenas de ônibus chineses, é notável.

A principal reforma a ser feita diz respeito à agricultura, que permanece incapaz de alimentar a população apesar das terras férteis que a ilha possui. Mais de 80% dos alimentos continuam sendo importados. Isso faz com que a fatura de compras de alimentos irá aumentar neste ano em mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 1,6 bilhão), e deverá alcançar no total US$ 2,6 bilhões (R$ 4,1 bilhões no câmbio atual). Para favorecer a produção agrícola, Raul Castro comprometeu-se a distribuir as terras cultiváveis para os camponeses em regime de usufruto, e a abrir linhas de crédito para eles.

"Cosméticas", segundo Washington, essas decisões foram recebidas favoravelmente pelos cubanos. Mas eles estavam aguardando outras medidas, tais como a que instaura a possibilidade de viajar para o exterior ou aquelas que permitiriam comprar um carro ou uma moradia própria. Raul Castro sabe que o tempo atua contra ele. "Desperdiçá-lo por causa de inércia ou de hesitação seria uma negligência imperdoável", admitiu. Jean-Yves de Neufville

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