UOL Notícias Internacional
 

10/08/2008

As profundas transformações por que passa a indústria do disco

Le Monde
Véronique Mortaigne
Talvez fique registrada na história da "chanson", a música popular francesa, a anedota que chamou a atenção nesta temporada: o lançamento, em 11 de julho, de "Comme si de rien n'était", o álbum de Carla Bruni, a mulher do presidente Nicolas Sarkozy, um título que pode ser traduzido por "Como quem não quer nada". Neste campo, a acumulação das funções é um caso bastante incomum. Para encontrar casos similares, vale tentar pesquisar no passado. Eva Perón fora uma atriz de filmes de série B até casar-se em 1945 com o futuro presidente argentino. Ou procurar no presente. Sonsoles Espinosa Zapatero, a mulher do atual presidente do governo espanhol, é cantora de ópera, uma soprano discretíssima. Mas, apesar das tentativas, a pesquisa não dá em nada. O episódio da Carla Bruni é mesmo inédito.

Ele é extraordinário, não apenas porque a cantora, uma ex-top-model experiente na prática de lidar com a mídia, utilizou a vitrine do show business para organizar a comunicação política do seu casal, mas também, mais ainda porque ele é significativo das profundas transformações que vêm sofrendo as indústrias culturais e seus modos de expressão. Vale ressaltar a precisão do plano de comunicação elaborado pela primeira-dama da França, que galga novos degraus na inventividade da promoção: a uma frase musical de Barbara (1930-1997, uma cultuada cantora, compositora intérprete francesa) acrescentada na calada da noite à música "Dérangez les pierres", cuja melodia foi originalmente composta por Julien Clerc, responde em 12 de julho uma foto de Peter Lindbergh para a revista "Elle". Nela, Carla Bruni posa com a mesma atitude da jovem Françoise Hardy (em meados dos anos 1960): cabelos compridos, pernas dobradas; no fundo do cenário, sobre um piano, a foto de Barbara. Ou seja, elementos suficientes para sugerir seu posicionamento no contexto histórico da música popular francesa. . .

Mas, a mulher do presidente não inovou neste terreno. E ela tampouco foi a precursora das excrescências de imagem: neste quesito, ela não tem nada a ensinar para Pete Doherthy, Amy Whinehouse, Britney Spears, embriagados e drogados. . . A mídia e os consumidores adoram as loucuras das stars. Mais recentemente, na França, a moda tem mostrado certa preferência pelos cantores populares filósofos (sic), tais como Julien Doré, ou ainda pelos "artistas do bem", que pretendem remediar às mazelas do mundo, inclusive do mundo do rock'n'roll, onde os abusos caracterizam a própria essência do gênero.

Este é o caso do Radiohead que, motivado por uma legitima preocupação, decidiu reduzir os gastos com energia gerados pelas suas apresentações. Para tanto, exigiu que os assentos reservados para a imprensa fossem atribuídos apenas aos cinqüenta primeiros jornalistas que chegassem de bicicleta à sede da Beggars França. Esta gravadora independente fora obrigada a ceder às exigências do grupo britânico.

Houve um tempo em que os artistas carentes de precisão no tocante aos seus feitos e à sua pessoa optavam por dirigir a mão do jornalista. Foi assim que o "publicist" (o encarregado da comunicação) de David Bowie se notabilizou ao distribuir um calhamaço de espessos envelopes intitulado "Todas as perguntas que você está querendo fazer a David Bowie", com as respostas, antes de entrevistas organizadas em Nova York para a imprensa mundial. Ao menos, o jornalista tinha a vantagem de encontrar-se então com o homem dos olhos de cores diferentes reservadamente.

Neste verão, o americano Tom Waits, fazendo jus à sua reputação de urso inspirado, alçou esta estratégia para um nível superior. Inspirando-se nos conselhos do seu círculo de apaixonados, ele excluiu os desprezadores, oferecendo para jornais auto-entrevistas e dando uma coletiva de imprensa provocadora na Internet (os flashes das câmeras e as perguntas feitas são na verdade uma montagem, uma vez que Waits responde para uma sala vazia). Ele também exigiu que fossem efetuadas verificações de identidade na entrada dos seus shows, com venda de ingressos nominativos - que custam na França entre 69 e 139 euros (entre R$ 167 e R$ 336 no câmbio atual) - de modo a evitar os cambistas, num derradeiro gesto de generosidade democrática.

Os empresários de artistas, em particular os anglo-saxões, vêm impondo mais e mais as suas estratégias. Em abril, o grupo belga d'EUS e a filial bruxelense da Universal Music haviam imposto aos jornais a assinatura de um "protocolo de embargo" acrescentado de uma multa de 25.000 euros (cerca de R$ 60.000) em caso de publicação dos artigos antes da data prevista de lançamento do álbum "Vantage Point". Os diários "Le Soir" e "De Morgen" romperam o acordo em nome da liberdade da imprensa.

As relações entre a indústria musical e os meios de comunicação foram ficando mais e mais tensas com o agravamento da crise do disco em 2007 e 2008. Algumas grandes companhias, tais como a prestigiosa britânica EMI, que foi comprada em 2007 por um fundo de investimentos americano, o Terra Firma, ou ainda a Sony-BMG, que é o produto de uma fusão destinada a reduzir o número de funcionários de ambas as companhias, vêm enfrentando planos de reestruturação sucessivos. As tradicionais assessorias de imprensa dos selos vêm derretendo como neve no sol.

Dentro deste contexto, os veículos de comunicação deixaram de ser vistos como meios de informação, mas sim como plataformas de comunicação. Cada vez mais, a campanha de "promoção" é iniciada muito mais cedo que de costume. As gravadoras lançam mão de convites para entrevistas "frente a frente", oferecidas com "exclusividade", podendo ser realizadas até mesmo na casa do artista; ou ainda de sugestões de visitas nos estúdios para se descobrir trechos de "work in progress", ou para ouvir falsas confidências.

A Internet também andou modificando as práticas. Assessores de imprensa se disfarçam de blogueiros para fomentarem o rumor; grupos de internautas considerados como estratégicos (blogueiras antenadas em culinária, jovens viciados em colunas sociais, sites de consumidores) são convidados para audições de lançamentos em primeira-mão, etc.

Recusa de toda promoção

No passado, as gravadoras garantiam o desenvolvimento das carreiras de artistas. Atualmente, os cofres estão vazios, e a lógica foi rompida. Os artistas precisam rever sua posição. A EMI acaba de perder os Rolling Stones em proveito da Universal Music. A Warner teve de se conformar a desistir de Madonna, que se bandeou de cuia e malas para o gigante do entretenimento americano Live Nation, enquanto Bob Dylan, depois de décadas na Columbia Records (Sony-BMG), se rendeu ao canto da sereia da cadeia de bares Starbucks Coffee.

Carla Bruni, por sua vez, investiu em todos os setores - a moda, a política, as artes. Com tudo isso, o acesso à informação acabou ficando enviesado.

No futuro, ficará sem dúvida registrado na história da música popular mundial que o verão de 2008 também foi o do retorno do cantor canadense Leonard Cohen, que estava ausente dos palcos mundiais havia treze anos. O lendário autor de "Suzanne" é um artista vinculado desde 1966 à Columbia Records, uma gravadora na qual ainda é possível cruzar com Bob Dylan, Bruce Springsteen, e, na França, Francis Cabrel, Céline Dion ou Jean-Jacques Goldman - um alérgico à crítica.

Cohen, 73 anos, que ostenta dezenas de milhões de discos vendidos pelo mundo afora, cantou, triunfalmente, em diversos festivais de verão. Para comemorar este evento, ninguém mexeu uma palha na Sony-BMG. Contudo, o catálogo de Leonard Cohen pertence mesmo à Columbia. Mas, infelizmente para ele, o cantor-compositor não está preparando nenhum disco por enquanto. Por que uma gravadora, no momento em que tudo vai mal, iria prestar ajuda a produtores de espetáculos cujos negócios são florescentes? Este deve ter sido o pensamento de mais de um na Sony-BMG. Quanto a Leonard Cohen, ele havia recusado toda promoção, sem que isso viesse prejudicar sua arte nem chegasse a atrapalhar os jornalistas, que relataram com muito afinco a sua performance. Jean-Yves de Neufville

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