UOL Notícias Internacional
 

12/08/2008

Colonização judaica das Colinas de Golã continua apesar das negociações entre Israel e Síria

Le Monde
Benjamin Barthe
Enviado especial a Katsrin
Loiras e sorridentes, as duas jovens russas fazem poses, com os cotovelos apoiados num balcão de quitanda sobre o qual disputam espaços potes de tapenade* e garrafinhas de azeite. "Sorriam... Foto!" Elas estão participando de uma estadia "Taglit", um desses programas especiais que se destinam a promover Israel junto à diáspora judaica.

Atrás delas, os seus congêneres de short e sandálias se acotovelam em volta de outro balcão, reservado para a degustação. O entusiasmo dos comensais diante dos pratos repletos de cubinhos de pão torrado acompanhados por condimentos encobre as explanações do vendedor que está vangloriando a qualidade do seu azeite. "Produzido conforme as técnicas da época talmúdica", garante. Com os braços carregados de suvenires - sabonetes, garrafas de azeite ou de vinho, ou ainda frascos de cremes de beleza -, os visitantes fazem fila para passar no caixa, e então retornam ao seu ônibus, sob os olhares vigilantes de dois acompanhantes que exibem um fuzil a tiracolo.

Baz Ratner/Reuters - 30.jul.2008 
Cavalos pastam em campo de um kibbutz nas Colinas de Golã

Um grupo de jovens judeus estrangeiros, produtos vendidos com "embrulhos" histórico-religiosos, uma escolta armada: a cena poderia ser presenciada em qualquer excursão turística em Israel. Exceto que ela está ocorrendo numa fazenda oleícola de Katsrin, a capital judaica das Colinas de Golã. Uma região ocupada pelo Estado judeu desde a guerra dos Seis Dias, em 1967, e que foi anexada em 1981 após esta ser aprovada em votação pela Knesset, o Parlamento israelense. Este planalto que pertence à Síria é o principal objeto das negociações indiretas que foram iniciadas pelo primeiro-ministro israelense Ehoud Olmert com o regime do presidente sírio Bachar Al-Assad.

Será preciso devolver o Golã para fazer as pazes com este preocupante vizinho? As discussões que vêm sendo travadas a este respeito em Israel não têm nenhum impacto verdadeiro sobre os moradores do planalto. "Esta região é a fronteira natural de Israel com a Síria", martela Valentina Litinski, a guia do grupo "Taglit". "Ela constitui um trunfo estratégico que nós não podemos nos dar ao luxo de abandonar. Se um dia a Síria se democratizar, nós poderemos então considerar seriamente um acordo. Mas, por enquanto, está claro que este país não é um parceiro digno deste nome".

Os buldôzeres que seguem escavando em várias áreas do planalto corroboram esse discurso agressivo. Aos planos de retirada, os colonos do Golã respondem com uma orgia de canteiros de obras. Uma companhia de tecnologia avançada com sede em Herzliya, uma cidade do litoral, planejou instalar-se na zona industrial de Katsrin. Alguns quilômetros mais ao sul, no moshav (cooperativa agrícola) Bnei Yehuda, uma galeria comercial está em fase de acabamento num terreno de três mil metros quadrados. Irá se tratar do segundo complexo desse tipo depois do de Kessem Hagolan ("A Magia do Golã"), um vasto conjunto de construções composto por lojinhas de suvenires, por um circuito especial para os visitantes e uma cervejaria. Situado na entrada da capital, este foi inaugurado há um ano. Rumores alardeiam até mesmo a possível construção de um aeroporto.

Esses projetos recentes vêm se acrescentar à criação mais antiga de explorações vinícolas cujos melhores vinhos, como o Château Golan, gozam atualmente de uma reputação mundial. O objetivo deste desenvolvimento acelerado é fazer do Golã um destino turístico inevitável, um parque natural dedicado à glória do "bem viver" e, assim fazendo, enraizá-lo na paisagem mental israelense. "Nós queremos criar uma rotina, de tal modo que, na mente das pessoas, o Golã seja uma evidência, assim como Tel Aviv [a capital política]", resume Pini Ohayon, o gerente da cervejaria.

A aposta não é tão simples quanto parece. Diferentemente da Cisjordânia, próxima aos centros urbanos israelenses, as vertentes desoladas do Golã nunca chegaram a atrair os exaltados do "Grande Israel". Trinta anos mais tarde, a cidade de Katsrin, que foi fundada em 1977, não abriga mais do que 7.500 habitantes, ou seja, a metade da população judaica do Golã. Às famílias dos soldados que ocupam postos no planalto, acrescentou uma pequena minoria de ultra-ortodoxos, que foram seduzidos pelo ascetismo do local, e alguns milhares de novos imigrantes ucranianos, enviados para esses remotos rincões tão logo chegaram de avião.

"O que importa saber é que 70% da população de Israel se opõem à cessão do Golã em troca da paz", diz Sami Bar Lev, o prefeito da colônia-capital, referindo-se a uma recente pesquisa. "Um país tão pequeno quanto o nosso não pode renunciar a um lugar tão estratégico".

A saída programada de Ehoud Olmert do governo, que foi forçado a ceder seu lugar em conseqüência de acusações de corrupção, apaziguou sem demora suas preocupações. "A retirada de Israel não irá acontecer tão cedo. Estamos planejando aumentar a população de Katsrin em mil habitantes por ano no decorrer dos próximos dez anos".

Miran, um arquiteto paisagista de 37 anos, pretende ser um deles. Ele que reside atualmente num moshav da Alta Galiléia, decidiu mudar-se para Katsrin por causa "do sol, da paisagem e da proximidade do lago de Tiberíade", onde ele já está sonhando em divertir-se com a sua prancha a vela. Em pé num dos acostamentos, ele está discutindo a obra da sua futura casa de campo junto com um dos seus operários, Salah, um druso do Golã. Com a ajuda dos seus compatriotas sírios, este trintão atarracado já construiu dezenas de casas para os judeus de Katsrin e a sua agenda permanece repleta de encomendas. "Os israelenses vão negociando e construindo simultaneamente", diz. "Eles vivem nessa contradição permanente". Todas essas obras lhe proporcionaram um nível de vida inesperado. Mas ele não se ilude com essa situação. "Os israelenses tomaram o Golã por meio da guerra. Portanto, eles deverão devolvê-lo se quiserem a paz".

*Nota do tradutor - a tapenade é um patê típico da culinária provençal a base de azeitonas pretas, anchovas e alcaparras, geralmente servido em canapês como aperitivo. Jean-Yves de Neufville

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