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12/08/2008

Por que a gigante Índia é uma raridade nos pódios olímpicos?

Le Monde
Julien Bouissou
"Não esperem por nenhum milagre", avisou Suresh Kalmadi, o presidente do Comitê Olímpico indiano, antes mesmo do início dos Jogos Olímpicos de Pequim. Uma única medalha de bronze para um país de mais de 1 bilhão de habitantes: a mais recente performance olímpica da Índia, nos Jogos de Atenas, não é nenhum motivo para se manter otimista. Para as Olimpíadas de Pequim, a equipe masculina de hóquei na grama (a modalidade que, até então, proporcionara as oito únicas medalhas de ouro que o país já conquistou em toda a história dos Jogos), não conseguiu nem sequer a qualificação. Nessas condições, vale sublinhar que o título olímpico conquistado por Abhinav Bindra no tiro com carabina a 10 m, na segunda-feira (11 de agosto), já desponta como um ótimo resultado.

Com tão poucos motivos de esperança, os Jogos Olímpicos não suscitam praticamente nenhum entusiasmo em meio à população. Isso explica por que o canal de televisão público indiano, o Doodarshan, foi o único que aceitou comprar os direitos de transmissão, por US$ 3 milhões (cerca de R$ 4,8 milhões). Com um número reduzido de telespectadores, e, portanto, uma quantidade minguada de patrocinadores, a emissora tampouco está esperando por qualquer milagre. "Na certa, nós vamos perder dinheiro", assegura uma das responsáveis do canal.

Desmond Boylan/Reuters - 11.ago.2008 
Abhinav Bindra conquistou a primeira medalha de ouro individual da história da Índia

Por que a Índia, um gigante demográfico, estará ausente dos pódios olímpicos? Os jornais do país arriscam diferentes explicações. A cultura indiana careceria de agressividade, ou ainda, o seu sistema de castas privilegiaria o saber, consagrando no topo da sua pirâmide os "brâmanes" - os membros hereditários da casta sacerdotal -, cuja reputação não é exatamente a de serem excelentes atletas.

Em Bangalore, os campi de informática tomaram o lugar dos estádios
Outros comentaristas consideram que até mesmo o esporte é gangrenado pela burocracia na Índia. Para comprovar esta suspeita, basta consultar os números: 42 treinadores acompanharão os 56 atletas qualificados em Pequim. Contudo, muito mais do que isso, é a carência de infra-estrutura e de financiamentos que constitui um problema. "Metade das nossas escolas não dispõe nem sequer de um terreno para esportes, e a situação revela-se ainda pior para as nossas universidades", diz Suresh Kalmadi.

O esporte tem sido a principal vítima da expansão das novas tecnologias. Em Bangalore (no centro-sul), os campi de informática tomaram o lugar dos estádios. "As infra-estruturas da cidade diminuíram consideravelmente ao longo dos últimos anos", comenta Vimal Kumar, um antigo campeão de badminton. O críquete, que, para a grande frustração dos indianos, não está incluído entre as disciplinas olímpicas, é acusado de ofuscar todos os outros esportes. "O dinheiro de que nós tanto precisamos é todo ele sugado pelo críquete", explica Randhir Singh, o secretário-geral do Comitê Olímpico indiano. Na Índia, o críquete tem incontáveis adeptos, que o praticam em cada esquina. Para tanto, um bastão e uma bala são suficientes.

Para um país que pretende rivalizar com a China, a comparação, ao menos no campo desportivo, não é nem um pouco lisonjeira. Mas os comentaristas tentam minimizar a péssima impressão causada. "A China teria gastado mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 1,6 bilhão) para treinar seus atletas ao longo dos últimos sete anos. Este dinheiro deveria antes ser gasto, pelo menos na Índia, para a construção de escolas e de hospitais, assim como para a urbanização", analisa o editorialista Kanika Datta no diário "Business Standard". E ele conclui afirmando: "A China não é o destino preferido dos investidores estrangeiros, isso porque ela figura entre os cinco melhores países nos Jogos Olímpicos".

Os indianos terão constatado ao menos que os Jogos Olímpicos de Pequim não se limitam apenas a disputas por medalhas. Está havendo também uma grande afluência de turistas. Para tentar compensar a virtual ausência dos pódios do seu país, o ministério indiano do turismo vai deslanchar uma grande campanha de comunicação pelas ruas de Pequim. Longe dos clamores dos estádios, os outdoors publicitários exibirão o arrebatador slogan seguinte: "Incrível Índia!". Jean-Yves de Neufville

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