UOL Notícias Internacional
 

13/08/2008

"Ainda resta uma pequena chance de concluir a Rodada Doha", diz Amorim

Le Monde
Annie Gasnier
Enviada especial a Brasília
Nem o presidente brasileiro Lula nem Celso Amorim, o seu ministro das relações exteriores, se conformaram com o fato de as negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) terem fracassado em 29 de julho em Genebra, na Suíça.

Em entrevista ao "Le Monde", o ministro Amorim confirma que neste momento o Brasil está fazendo de tudo para que sejam retomadas, já em setembro, essas discussões das quais o Brasil espera uma abertura dos mercados mundiais para os seus produtos agrícolas.

Le Monde - Será possível salvar as negociações na OMC, que fracassaram em Genebra?
Celso Amorim -
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem a intuição de que ainda existe uma pequena chance de se concluir essas negociações. Ele quer mobilizar os líderes mundiais, fazer com que eles meçam os benefícios que a humanidade tiraria de um acordo e convencê-los a se reunirem ou a darem uma ordem firme para os seus delegados de modo que se consiga alcançar um desfecho positivo para o ciclo de Doha. Tal conclusão não será obtida sem dor e todas as nações estão expostas a isso. Mas é preciso agir rápido, agendar este compromisso logo para meados de setembro, em Brasília ou qualquer outro lugar, antes que os fatores políticos que já estão se desenvolvendo - os compromissos eleitorais nos Estados Unidos e na Índia -, interfiram mais ainda.

ESFORÇOS BRASILEIROS PARA A VOLTA DA DISCUSSÃO
AMORIM VÊ PEQUENA CHANCE
LULA FALA COM PRESIDENTES
O presidente Lula já teve uma conversa com George W. Bush a esse respeito. Em Pequim, ele reuniu-se com o seu homólogo Hu Jintao. Ele ainda deve telefonar para o primeiro-ministro indiano. Nós estamos em contato com os australianos e os indonésios. Nós estivemos tão perto do objetivo que os dirigentes políticos têm condições para desbloquearem a situação. Com a autoridade de alguém que superou tantos obstáculos em sua vida, o presidente Lula pode convencê-los.

Le Monde - Por que as negociações de Genebra acabaram fracassando?
Celso Amorim
- O tempo nos dirá se foi mesmo um fracasso. Eu estava muito pessimista ao deixar Genebra, diante do fato de que depois de tantos esforços, concessões e sacrifícios, as negociações tivessem fracassado. Nós esbarramos num obstáculo político em relação ao qual nós não tínhamos trabalhado o suficiente, da mesma forma que havíamos feito para as cotas ou as subvenções agrícolas.

Nós havíamos conseguido nos entender em torno do "triângulo de Pascal" (Pascal Lamy, o diretor geral da OMC), ou seja, os três importantes dossiês que são o acesso dos produtos agrícolas ao mercado da União Européia, o acesso dos produtos industriais aos mercados dos países em desenvolvimento e as subvenções agrícolas americanas. E nós esbarramos em outra coisa totalmente diferente!

Aliás, é curioso constatar que a Índia tivesse discutido de maneira tão áspera, não para proteger uma vantagem adquirida, mas sim para impor um novo instrumento que não existia até então, aquelas cláusulas de salvaguarda especiais destinadas a proteger seu mercado agrícola. Com isso, todos nós perdemos.

Le Monde - Na qualidade de gigante agrícola, o Brasil não seria o maior perdedor dentre todos?
Celso Amorim
- O Brasil não estava brigando para beliscar um bilhão aqui ou ali. O Brasil é um país que tem a sua importância, apesar de não ser uma potência mundial. Contudo, a sua visão geopolítica é muito clara: nós estamos convencidos de que o sistema multilateral é essencial no mundo de hoje e que os acordos bilaterais não constituem uma boa solução. A OMC tem lá seus defeitos, mas vale reconhecer que ela funciona bem. A inexistência de um acordo prejudicará principalmente os países pobres, porque as subvenções e as barreiras alfandegárias têm um preço, que se paga com vidas humanas, com privações para um grande número de populações e com o atraso do desenvolvimento para certas nações.

É evidente que com este fracasso, o Brasil perde no curto prazo, mas nós temos solos ainda inexplorados, sol, água e tecnologia, e as nossas exportações agrícolas não param de aumentar. Nós já estamos praticando o multilateralismo e as nossas exportações estão bem distribuídas: 25% para a Europa, 25% para a América Latina, 15% para os Estados Unidos e 15% para a Ásia.

Le Monde - Será possível manter os avanços que já foram registrados durante a negociação?
Celso Amorim
- Se nós retomarmos as discussões o quanto antes, há uma boa probabilidade para que as prossigamos a partir do ponto em que elas foram interrompidas. Mas se a retomada ocorrer apenas dentro de dois a três anos, o meu temor é de que novos cálculos sejam feitos e que os reflexos protecionistas tenham tempo hábil para virem questionar os avanços que já foram obtidos. Eu tenho dúvidas enormes, por exemplo, em relação ao acordo que foi celebrado a respeito da banana. O etanol, por sua vez, ainda não passou do estágio das negociações - elas estão adiantadas com a Europa, mas nem tanto com os Estados Unidos.

Para o algodão, a frustração dos africanos é imensa. Nós cometemos um erro, já que nós deveríamos ter discutido mais, para fazer com que os países envolvidos entendessem melhor quais vantagens eles levariam se um acordo fosse fechado. Na falta de uma visão clara em relação a essas vantagens, eles acabaram se focando em detalhes.

Le Monde - O G-20, grupo de países em desenvolvimento, continua mesmo unido em volta do Brasil?
Celso Amorim
- O G-20 equivocou-se ao aceitar, sem dimensioná-lo com números, o conceito dos mecanismos especiais, como o da cláusula de salvaguarda. É preciso compreender as dificuldades que alguns deles, como a Argentina e a África do Sul, estão enfrentando, e imaginar para eles soluções específicas e temporárias. Jean-Yves de Neufville

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