UOL Notícias Internacional
 

14/08/2008

Por trás dos atentados em Xinjiang, a ira de uma população "ultracontrolada"

Le Monde
Brice Pedroletti
Rémi Castets, especialista em Xinjiang no Centro de Estudos de Relações Internacionais (Sciences Po), analisa as origens do ressentimento uigur diante do poder de Pequim.

Le Monde - Três guardas foram mortos em Kashgar nesta terça-feira (12). É o terceiro atentado em uma semana em Xinjiang. Quem está por trás desses ataques?
Rémi Castets -
Para se lançar em ações como essa é preciso formar uma rede, estar radicalizado, é necessário um mínimo de preparação. Estamos diante de grupos que querem aproveitar a atenção da mídia ligada aos Jogos Olímpicos. Sempre houve redes operacionais ou grupos de jovens montados para falar dos problemas dos uigures. De todo modo, é chocante ver que houve uma ação muito sangrenta. Se ela é um ato de grupos nacionalistas, é um mau jogo, pois pode afastar deles o apoio ocidental. Também há grupos islâmicos: alguns não-violentos, mas outros mais estruturados, que visam conquistar o apoio das redes islâmicas internacionais e que zombam da opinião pública ocidental.

LM - Qual o motivo do ressentimento de alguns grupos da população uigur?
Castets -
Primeiro, a reivindicação de uma autonomia real. O Partido Comunista Chinês exerce um controle estrito da administração da região autônoma uigur, cuja autonomia é fictícia. Segundo: a colonização demográfica dos hans, que passou de 6% por volta de 1949 para cerca de 40% hoje. Há todo tipo de recriminação. Contra os órgãos de construção e de produção de Xinjiang, que, ao colonizar, captam as terras e entram em concorrência com os camponeses uigures. Terceiro problema muito mal vivido pelos uigures: a política de controle de nascimentos. Limitar o número de crianças nessas famílias vai contra suas tradições - as minorias étnicas têm direito a um filho a mais que os hans. Quarto fator, o principal: nos anos 1980 o controle do partido sobre a sociedade havia abrandado. Os uigures pensaram que poderiam negociar. Nos anos 1990 tudo endureceu: para erradicar as redes de oposição que se estruturavam, o partido implanta um aparelho de controle jurídico muito restritivo, principalmente em termos culturais e religiosos. As "meshrep", reuniões tradicionais que se politizam, são proibidas. Mas eram lugares de socialização. O mesmo vale para o islã: tornou-se ultracontrolado. Nos anos 1980 as madraças (escolas corânicas) subterrâneas haviam emergido. Quando essas escolas foram fechadas, é a partir das redes de estudantes que se estruturaram os movimentos islâmicos dos anos 1990. Hoje os imãs são extremamente vigiados. Tudo isso gera ressentimento.

LM - O governo chinês exagera a ameaça islâmica em Xinjiang?
Castets -
Desde 2001 o que prejudica a credibilidade do governo chinês é que assim que acontece alguma coisa em Xinjiang cada célula desmontada, cada ação violenta ou não, é atribuída ao Etim (Movimento de Libertação do Turquistão Oriental) - sob o pretexto de que os americanos haviam reconhecido esse movimento. Mas as células nacionalistas não têm nada a ver com o mundo do jihadismo internacional. Há acontecimentos que não são políticos na base: por exemplo, um pai de família uigur que ataca o representante do departamento de controle de nascimentos. Também há acertos de contas entre funcionários públicos que se beneficiam um pouco demais de suas prerrogativas. Vêem o Etim em toda parte, mas não é tão simples assim. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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