UOL Notícias Internacional
 

14/08/2008

Yanbian, a "terceira Coréia", é mantida sob controle por Pequim

Le Monde
Lucien Simon*
Enviado especial a Yanji, região autônoma de Yanbian, China
No passado, adormecida e poeirenta, Yanji, com 400.000 habitantes, dos quais um terço é de origem coreana, tornou-se uma dessas cidades "sem caráter", atropeladas pela expansão. Mas, na essência, ela permanece pouco chinesa: nela, as inscrições são redigidas em duas línguas, no alfabeto coreano e com ideogramas.

Yanji é a capital da região autônoma de Yanbian. Por conta da sua população, que, em sua maioria, é de origem coreana, esta região ganhou o apelido de "terceira Coréia". Por mais que predomine um ambiente tranqüilo, isso não impede que as autoridades chinesas se mostrem nervosas: elas temem que os acontecimentos no Tibete acabem despertando um sentimento identitário por parte dos 2 milhões de coreanos da região e, sobretudo, que um afluxo de refugiados norte-coreanos, movidos pela fome, acabe abrindo um novo front de críticas internacionais por causa do tratamento que lhes inflige Pequim - repatriação forçada e riscos de serem condenados a penas por vezes severas.

"Em razão dos Jogos Olímpicos, muitos norte-coreanos poderiam pensar que Pequim não ousaria rechaçá-los", diz o responsável de uma organização humanitária local. Para prevenir toda e qualquer eventualidade, a China reforçou as barreiras ao longo dos 1.300 quilômetros da sua fronteira com a República Popular Democrática da Coréia (RPDC).

O irredentismo** motiva a rebelião de cidadãos sulistas nacionalistas, que invocam o território do antigo reino de Kokuryo (1º século a.C. -século 7 d.C.) para reivindicarem a sua soberania sobre uma parte das províncias chinesas limítrofes da península. Contudo, nem mesmo os atos de violência que foram cometidos contra coreanos por estudantes chineses por ocasião da passagem da tocha olímpica em Seul, em maio, tiveram qualquer repercussão por aqui: "Nós somos pragmáticos", explica um homem de negócios de origem coreana. "Nós não alimentamos nenhuma ambição separatista nem qualquer tipo de ressentimento para com os chineses. O nosso país não foi conquistado. Nós simplesmente migramos. É muito compreensível a simpatia suscitada pelos tibetanos, mas a nossa situação é diferente. No que nos diz respeito, nós temos uma pátria - e até mesmo duas: o Norte e o Sul!"

Mulheres e culinária
Em sua maioria, os coreanos do Yanbian falam as duas línguas. Eles têm as suas próprias escolas, suas universidades, seus jornais e seus incontáveis comércios e restaurantes. Por terem a possibilidade de captar os canais de televisão sul-coreanos, eles estão mais bem informados do que o restante da população.

Os coreanos de Yanbian, que chegaram por duas ondas de imigração, primeiro em meados do século 19 e depois no começo do século 20, nunca estiveram numa posição inferior na China. Eles apresentam um "currículo" que impõe respeito às autoridades de Pequim: é a única minoria a ter participado ativamente da revolução chinesa. Eles formaram os primeiros sovietes (conselhos de delegados de trabalhadores, camponeses e soldados que passaram a ter função de órgãos deliberativos), combateram os nacionalistas e os japoneses. Atualmente, eles convivem em boa harmonia com os han (a principal etnia chinesa). O seu "nacionalismo" limita-se aos debates infindáveis a respeito das qualidades dos homens e das mulheres das duas etnias e da sua respectiva culinária... Os jovens coreanos não falam mais tão bem em sua própria língua: a educação em mandarim oferece maiores perspectivas profissionais.

Recentemente, em determinados pontos da fronteira, câmeras de vigilância e cercas de segurança foram instaladas. Desde os eventos no Tibete, as patrulhas de polícia e os controles efetuados pelo exército nas estradas que conduzem até a fronteira foram reforçados. O fluxo dos coreanos que atravessam a fronteira para entrarem na China diminuiu consideravelmente. Muitos deles assumem esse risco em busca de alimentos e depois retornam ao seu país, enquanto uma minoria dentre eles é mesmo movida pela vontade de mudar de país. De 200.000 no final dos anos 1990, o número daqueles que tentam viver clandestinamente na China diminuiu hoje para 30.000. As igrejas coreanas, que são utilizadas como elo de ligação pelos refugiados que atravessam a fronteira, vêm sendo objetos de uma vigilância acirrada, reconhece um padre de Yanji.

* Colaborou Henry Chang
** Nota do tradutor - segundo o Dicionário Houaiss, é uma doutrina por meio da qual uma nação advoga a recuperação de terras que lhe foram tomadas pela força
Jean-Yves de Neufville

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