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15/08/2008

Recordações de um diplomata do pingue-pongue

Le Monde
Pierre Jaxel-Truer
Enviado especial a Nova York
O encontro havia sido agendado para acontecer na estação de trens de Merrick, um conjunto habitacional de uma remota periferia de Nova York, na região de Long Island. O homem chegou ao volante de um discreto sedan e ergueu com um sorriso uma raquete de pingue-pongue como sinal de reconhecimento.

Tim Boggan, 77 anos, que aparenta uma ótima saúde, com os seus cabelos compridos e acinzentados, sua barba e seu brinco na orelha, descobriu um belo dia qual era a sua vocação: a de embaixador brincalhão do tênis de mesa. Ele abraçou este papel por acaso, quando o seu caminho, sua pequena história pessoal, cruzou a História, aquela que encontra seu lugar nas manchetes dos jornais, e, mais tarde, nos manuais escolares. "Isso mudou a minha vida", comenta, sempre com um sorriso.

Aconteceu há 37 anos. O episódio, conhecido pelo nome de "diplomacia do pingue-pongue", continua sendo até hoje o mais belo exemplo de utilização do esporte como uma ferramenta de relações internacionais. O evento é também considerado como o ponto de partida simbólico da "détente" nas relações entre a China de Mao Tsé-tung e os EUA de Richard Nixon, uma melhora que foi sacramentada em 1972 com a viagem do presidente americano a Pequim.

Tudo começa em março de 1971. Não na China nem nos Estados Unidos, mas sim em Nagoya, no Japão, onde está sendo organizado o 31º campeonato mundial de tênis de mesa. Tim Boggan, então com 40 anos de idade, é professor de inglês na Universidade de Long Island, em Brooklyn (Nova York). Ele mesmo um jogador cujos melhores dias já ficaram para trás, ele participou da viagem com a comitiva dos oficiais, na qualidade de delegado e de responsável da revista da Federação Americana de Tênis de Mesa.

Ao chegar a Nagoya, Tim Boggan não demora a deparar-se cara a cara com aqueles que todo mundo está esperando: os membros da delegação chinesa. Desde o começo da revolução cultural, Pequim sempre havia evitado enviar desportistas para fora das suas fronteiras. Então, uma vez que ninguém era autorizado naquela época a entrar na China, as únicas informações que emanavam do país eram alguns rumores de atrocidades perpetradas pelo regime.

Dentro dos ginásios, o charme opera. Não há dúvida de que o talento dos jogadores de pingue-pongue do "império do meio" não se esvaiu do lado de dentro das fronteiras fechadas do regime de Mao. Fora dos ginásios, contudo, as coisas são bem diferentes. No congresso da Federação Internacional, Tim Boggan não demora a compreender que a política também é parte integrante da viagem: "O delegado chinês, vermelho de raiva, urrou quando nós abordamos a questão de Taiwan. Se eles haviam investido nesta viagem, era também para impedir que este país fosse reconhecido na cena internacional... Eles estavam utilizando o tênis de mesa como uma arma".

O convite da China causa sensação
Desde então, este episódio foi esquecido. Varrido pela espetacular abertura em direção aos Estados Unidos, que seria formalizada alguns dias mais tarde: "Foi o mesmo oficial que havia urrado que apareceu para nos convidar a visitar seu país", recorda-se Tim Boggan. A oferta, um convite feito a alguns jogadores de pingue-pongue americanos para irem disputar torneios amistosos na China, causa então sensação. Já havia 22 anos que, com a exceção de alguns simpatizantes, os americanos eram considerados como cidadãos indesejáveis na China. "Naquele momento, nós não tínhamos consciência de que Pequim queria na verdade recuperar seu assento na ONU". E tomar o lugar de Taiwan...

Contudo, era uma iniciativa espontânea que estaria na origem deste convite muito diplomático. Ao relatar sua história, Tim Boggan gosta de lançar mão de anedotas. Assim, ele conta que, após ter se atrasado depois de um treinamento, o americano Glenn Cowan, reconhecível pelos seus cabelos compridos e pelo chapéu informe que o protegia do sol, não sabia, naquele princípio de torneio, como retornar ao hotel. Ele sobe a esmo num ônibus que revela ser o da delegação chinesa. Um "hippie oportunista", segundo as palavras de Tim Boggan, o jovem rapaz não perde o domínio da situação. "Eu sei que o meu chapéu, meus cabelos, meu estilo podem lhes parecer estranhos, mas nos Estados Unidos, muitas pessoas se vestem assim como eu", tenta explicar.

Do lado chinês, Zhuang Zedong, provavelmente o melhor jogador do mundo, aceita quebrar o silêncio. Graças a um intérprete, um contato começa a ser esboçado. Zhuang Zedong oferece então para Glenn Cowan um bordado de seda que representa as montanhas de Hangzhou.

Glenn Cowan, com o ímpeto dos seus 19 anos, está decidido a levar este contato mais adiante. "Ele queria aparecer nas manchetes da revista 'Life'", conta Tim Boggan. O jovem estudante do Santa Monica College, na Califórnia, procura então um presente para oferecer por sua vez. Ele escolhe uma camiseta na qual constam o emblema da paz e a frase "Let it be" ("Que assim seja", título de uma música dos Beatles), que ele compra numa galeria comercial do metrô de Nagoya. No ginásio, no dia seguinte, ele se reencontra com Zhuang Zedong, e, diante de dois repórteres, lhe oferece a roupa. Não sem ter tomado o cuidado de trazer com ele o bordado de seda, de maneira a imortalizar o evento sob a forma de uma troca. "Senhor Cowan, gostaria de visitar a China?", pergunta um dos jornalistas. "Eu gostaria de visitar todos os países que ainda não conheço", responde o hábil jovem rapaz.

Terá sido aquele gesto que conduziu as autoridades de Pequim a convidarem os americanos? Terá sido este um simples pretexto, aproveitado de modo improvisado? "O pingue-pongue era o único esporte no qual os chineses permaneceram investindo. Pouco antes, o presidente da Federação Internacional havia viajado para Pequim, onde ele se encontrara, entre outros, com o primeiro-ministro Zhou Enlai", conta Tim Boggan. Foi naquele momento que nasceu a idéia de convidar delegações estrangeiras. "Mas eu acredito que aquilo que aconteceu em Nagoya foi espontâneo", recorda-se Tim Boggan. Os Estados Unidos não estavam incluídos na lista inicial dos convidados, mesmo se discretos contatos, na ausência de relações diplomáticas com a China, haviam começado a serem empreendidos pouco tempo antes disso.

Crônicas para o "New York Times"
Alguns dias depois do mundial de tênis de mesa, após o período necessário para proceder-se às formalidades administrativas, uma delegação de 15 americanos parte para Pequim, com uma escala em Hong Kong. "Nós formávamos um grupo muito heterogêneo, conta Tim Boggan. "Havia uma jogadora muito religiosa, que temia os ateus; um esquerdista, que dizia querer ficar na China, até o momento em que ele ficou doente e nos suplicou para levá-lo de volta; uma jovem mulher que não suportava a comida local, para quem as autoridades foram obrigadas a preparar um hambúrguer. . . Havia prédios cinzentos, tão poucos automóveis, cartazes de Mao... Tudo aquilo era muito estranhos para nós".

A viagem foi prosseguindo de cidade em cidade, entrecortada por encontros de pingue-pongue, com partidas organizadas entre atletas americanos e chineses. "Eles eram muito melhores, mas nos deixavam vencer partidas, para não nos humilhar. Numa rodada de onze partidas, eles venciam seis delas". A viagem também foi entrecortada, para Tim Boggan, por envios de artigos para o "New York Times". "As minhas crônicas me deixavam obcecado, não me dava conta de que tudo o que eu precisava fazer era narrar verbalmente o que havia acontecido durante o dia por telefone, e que profissionais redigiriam tudo isso, muito melhor do que eu faria". De volta ao solo americano, a pequena equipe começou a entender a dimensão do acontecimento.

No sótão da sua casa em Merrick, em meio a um amontoado de livros e de caixas de papelão, Tim Boggan mostra um exemplar empoeirado da revista "Time", publicada em 26 de abril de 1971, com a foto da equipe em destaque, posando na Muralha da China, abaixo do seguinte título: "China: a whole new game" ("China: um jogo totalmente diferente"). Mais adiante, no meio da bagunça, ele encontra um número muito mais recente, de fevereiro de 2008, da versão chinesa da revista semanal americana "Sports Illustrated", na qual um extenso artigo lhe é dedicado.

Não estaria ele cansado dessas comemorações, 37 anos depois? "A minha universidade organizou até mesmo um 'Dia de Tim Boggan'", conta. "Mas, quem continua celebrando tudo isso até hoje são, sobretudo, os chineses..." Foi assim que Zhuang Zedong se tornou ministro dos esportes e da cultura no governo Mao. Até o dia em que ele foi encarcerado, em 1976, em conseqüência de um acerto de contas entre caciques, por ter, entre outras razões, "ostentado um relógio suíço". Atualmente, ele voltou a ser prestigiado.

Tim Boggan viajou recentemente a Pequim, para contar, mais uma vez, aquela experiência. Não teria ele, de vez em quando, a impressão de ser utilizado para fins sobre os quais ele não tem controle algum? "Sou apenas uma testemunha. De qualquer forma, o esporte sempre serviu os interesses da política". Só que no caso, a política também atendeu aos interesses do seu esporte, que com isso saiu do anonimato nos Estados Unidos.

Mais tarde, Tim Boggan tornou-se o presidente da Federação americana de tênis de mesa, e vice-presidente da Federação internacional. Autor de uma "História do tênis de mesa americano", da qual um volume é dedicado ao episódio da "diplomacia do pingue-pongue", ele conhece o seu assunto de cor e salteado. Quando ele relembra do fim de Glenn Cowan, contudo, Boggan dá a impressão de estar escolhendo cuidadosamente as palavras que emprega. "Ele tomou drogas e as drogas o tomaram". O herói de Nagoya havia se tornado um ícone. A rock star do grupo. Mas uma estrela frágil, paranóica, que fora diagnosticada como bipolar pouco depois do seu retorno aos Estados Unidos. Ele consumiu-se lentamente, até morrer, em 2004, no anonimato de um hospital, aos 52 anos, depois de um ataque cardíaco. Jean-Yves de Neufville

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