UOL Notícias Internacional
 

16/08/2008

A travessia do Atlântico a bordo de um navio cargueiro

Le Monde
Patrice Louis
Enviado especial, entre Fort-de-France (Martinica) e Dunquerque (Norte da França)
A bordo de um navio cargueiro, a vida é trepidante. Os raros privilegiados que acompanham o transporte de contêineres pelos mares do globo não demoram a perceber isso. Mas, de qual trepidação se trataria? Da mesma forma que os 33 outros navios de carga da CMA-CGM - abreviatura de Companhia Marítima de Fretamento-Companhia Geral Marítima; a maior firma francesa do setor, também uma armadora de navios - que admitem passageiros turistas, o Fort-Sainte-Marie, que está transportando bananas das Antilhas até Dunquerque, é inteiramente organizado em torno dos 2.260 contêineres - as "caixas" ou "latas" no jargão dos especialistas -, que ele embarcou.

Eles estão por todo lugar a bordo deste gigante, ocupando seis níveis dentro dos porões, seis outros no convés, alinhados e empilhados de modo que eles chegam a formar "torres" de mais de 30 metros de altura. Quer o visitante olhe através das vigias da cabine, das quais eles podem barrar a vista, quer da piscina, da sala de refeições ou da passarela, que é a única a pairar acima das "latas", por onde quer que a vista alcance, ele sempre esbarra nessas grandes caixas metálicas azuis, brancas, marrom ou cinza. E se elas não são vistas a partir da biblioteca, é porque esta última não tem abertura para o exterior.

Todos esses locais de convivência estão instalados dentro da superestrutura central, imprensada entre dois muros de contêineres cujo conteúdo inclui, numa proporção de 80%, bananas, mas também rum, caixões de mudanças, lixo industrial que será reciclado, recipientes vazios...

Chuck Stoody/AP - 24.jan.2000 
Navio cargueiro passa sob a ponte Lions Gate, em Vancouver, no Canadá

Aqui, fala-se em freqüência das travessias efetuadas, não em cruzeiro. Nos seis níveis da superestrutura, do convés A ao convés F, acima do qual está situada a passarela de comando, os passageiros convivem com a tripulação franco-romena, composta por cerca de vinte homens e duas mulheres, dirigidos pelo comandante Dominique Masson.

Mas, quem são esses passageiros, estranhos viajantes que preferem o navio cargueiro ao avião de linha, pouco preocupados com a velocidade? A literatura de divulgação e promoção da companhia refere-se a "escritores, artistas pintores, apaixonados pelo mar, aos quais se acrescentam antigos profissionais da marinha mercantil, e todos aqueles que querem evadir-se do mundo terrestre para escreverem uma tese ou em busca de momentos de paz em sua vida". De fato, é principalmente com eles próprios que eles irão conviver. Em sua maioria, são contemplativos militantes, ou ainda hiperativos que se submetem a uma terapia de desintoxicação.

Aqui, o tempo não tem mais a mesma dimensão. Entre Fort-de-France e Dunquerque, a rota escolhida é a da ortodromia, ou seja, o caminho mais curto: 6.952 quilômetros, de um cais para o outro. Os quais devem ser percorridos em oito dias. Sem qualquer ocupação premente, a principal tentação é de ficar contemplando o mar e o céu, de deixar seus pensamentos divagarem ao sabor das ondas, das nuvens e, depois do anoitecer, das estrelas. A bordo de um navio cargueiro, o viajante se isola facilmente, sem o misticismo dos retiros espirituais em abadias. Ele tem o mar como nave, o céu como abóbada. Portanto, o negócio é contemplar. Em silêncio ou com música? É mais sábio trazer consigo de preferência músicas que apaziguam, e evitar aquelas que trovejam.

O que mais se pode fazer? Ler. A biblioteca oferece, entre outros, "Os Trabalhadores do Mar", de Victor Hugo, "Un peu de soleil dans l'eau froide" (Um pouco de sol na água fria), de Françoise Sagan, e o policial "Larguez les amarres!" (Larguem as amarras!), de William Fuller. Mas qualquer um pode trazer o livro que quiser, principalmente aquele que ele nunca teve tempo para ler.

É interessante trocar idéias com membros da tripulação, na medida em que isso não venha perturbar suas tarefas, que são prioritárias. "Para desfrutar realmente da viagem", explica o comandante Masson, "é preciso ter uma mente aberta, enxergar as coisas com o olhar de uma criança, e curtir o instante presente. É preciso ser generoso e querer compreender os marinheiros - cujo universo permanece geralmente ignorado. As relações entre seres humanos continuam sendo essenciais".

É possível ainda caminhar - em vez de correr - no "under deck passage", o corredor de passagem sob o convés superior, o único circuito ao ar livre que permite dar a volta do navio, e que receberá o apelido brincalhão de "convés para passeios". Com dois lances de escadas para subir, com caixas e ferramentas espalhadas por todos os lados, uma caminhada de 3.000 metros representa cerca de sete voltas do convés, sabendo-se que o navio cargueiro tem 200 metros de comprimento por 30 metros de largura. É prudente avisar antes o comando na passarela deste projeto de passeio.
NAVIOS CARGUEIROS PARA DAR A VOLTA AO MUNDO
Cerca de 150 navios cargueiros, entre milhares, embarcam passageiros para viagens por todos os mares do globo. Um número muito reduzido de franceses utiliza este modo de transporte muito apreciado pelos ingleses e os alemães. Longe do caráter pitoresco das embarcações à Joseph Conrad, os navios cargueiros próprios para extensas travessias atualmente em serviço medem mais de 200 metros de comprimento.
A bordo, fala-se geralmente em inglês. Essas unidades aceitam alguns passageiros (nunca mais de doze) em função do número de cabines ou de suites de que eles dispõem. O candidato à viagem permanece no navio, dependendo da sua vontade, de uma escala para a outra, ou mais, só que nunca por menos de uma semana, conforme explica Catalina da Silva, da companhia Cargo Voyages, isso porque as formalidades administrativas são muito complicadas para o armador. A oferta de navios é muito ampla para quem quer viajar para a Ásia. Mas é limitada a um único navio cargueiro quando o destino é Cuba.
Entre as linhas mais atraentes, destacam-se as dos transportadores de veículos, que carregam automóveis com destino à América do Sul, o que permite partir com o seu próprio carro. Este périplo é muito procurado por famílias que embarcam com o seu trailer para fazer camping na Argentina. Ainda existem algumas unidades charmosas, os velhos navios ingleses cujas rotas incluem escalas demoradas nos portos do Pacífico Sul, nas ilhas Salomão, Vanuatu ou Fiji.


Há outras distrações, como banhar-se na pequena bacia que foi batizada de piscina, gastar energias na sala de esportes, assistir a filmes. É verdade, esse tipo de programa nada tem de muito arrebatador. Mas, e se o objetivo fosse justamente de dar um tempo, de saborear o tédio? Nada como ficar à toa um pouco mais, para bocejar um pouco mais. Aliás, o viajante vai reduzindo o ritmo aos poucos e acaba adquirindo o gosto por efetuar meticulosamente as tarefas cotidianas: dobrar e guardar seu guardanapo no estojo que leva o seu nome, reagrupar com os dedos as migalhas de pão espalhadas sobre a mesa, beber devagar, saboreando cada golinho...

Será possível viver mantendo-se alheio às informações a respeito dos sobressaltos do planeta, das declarações políticas, dos mexericos das colunas sociais, das façanhas dos atletas nacionais? Será possível sobreviver com um telefone celular inutilizável, com um cotidiano sem qualquer noticiário, sem imprensa, sem rádio nem televisão? E isso quando se sabe que a conexão com a Internet permanece reservada para as reais necessidades (ainda que a companhia ofereça um endereço de e-mail para os seus hóspedes). Será mesmo fácil ficar sem nenhum contato com os seus familiares e amigos, e sem poder exercer suas atividades habituais? Sentado numa cadeira especial na ponta do convés superior, na frente do navio, sozinho diante do oceano, dando de costas para os contêineres - oba! Nenhum deles para obstruir a vista! -, o passageiro responde pela afirmativa, encantado com a serenidade (re) encontrada.

No meio dos contêineres, ninguém faz cerimônia, não há qualquer ostentação. Há sim amanheceres e pores do sol de uma beleza de tirar o fôlego. No mais, nada do conforto e das festinhas dos paquetes de cruzeiro.

A bordo do Fort-Sainte-Marie, trabalho é o que não falta! Pelo menos para alguns. Os passageiros terão apenas uma remota percepção disso. A bordo, não há nada, a não ser ordem, calma e silêncio. Mas é preciso observar um imperativo categórico: quando o navio está se deslocando, o passageiro precisa ficar atento para onde ele põe os pés, e não considerar que os corrimãos das escadas só servem para a decoração - tudo isso para não ter que acabar lamentando a ausência de um médico a bordo.

No interior de cada um dos cômodos, começando pelas cabines, que oferecem bastante espaço, tudo é retangular, como se fosse necessário lembrar-se constantemente de que este é um universo de caixas. O cenário é austero. A cama é aconchegante, mas a estética é minimalista.

O repórter, que no caso é o único passageiro deste navio transatlântico, almoça sozinho, mas é o convidado para o jantar do comandante de uniforme. Sem que nada o obrigue a fazer isso, o traje da gravata lhe parece então uma observância óbvia. Mesmo que ela seja mercantil, a marinha apresenta um rosto formal, sem ser afetado. "Este é o único momento descontraído e próprio para o convívio", comenta Dominique Masson. "Tanto mais que se os navios cargueiros têm uma reputação, é a de que neles se come bem". Um chefe cozinheiro oferece pratos de qualidade, mas sem fanfarronice, servidos por um chefe de serviço atencioso, Niculae "Nicu" Ivan. Conforme manda a tradição na marinha mercantil, as refeições das quintas-feiras são melhoradas: um pãozinho de chocolate vem acrescentar-se às habituais fatias de pão com manteiga no café da manhã, e com isso, a jornada ficará ainda melhor...

Quando se juntam as águas, os ventos e a máquina, um motor de 33.760 cavalos, o Fort-Sainte-Marie torna-se um navio agitado por ligeiras chacoalhadas, ou por oscilações rápidas que se transmitem por meio de vibrações no corpo dos seus ocupantes. É o que o dicionário chama de trepidação... Jean-Yves de Neufville

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