UOL Notícias Internacional
 

16/08/2008

Uma história de propinas no mundo dos negócios na China

Le Monde
Olivier Montalba
Enviado especial a Pequim
É uma história de propinas de importância mediana, mas que projeta uma luz sobre os vínculos existentes entre os homens de negócios chineses e os dirigentes locais do Partido Comunista. Mao Shijian e Zhou Difan são dois antigos camponeses do pequeno condado de Lianyuan, no centro da China. No final de 2004, quando os dois amigos se associam para montarem um negócio de vendas por atacado de fogos de artifício, eles procedem da mesma maneira que as dezenas de milhões de formigas capitalistas que alimentam o crescimento chinês: eles organizam um almoço com a sua família ampliada para arrecadarem os fundos de que precisam, e outro almoço com burocratas locais, aos quais eles distribuem aquelas mesmas quantias.

O diário "China Industrial and Commercial Times", em sua edição de 6 de agosto comenta o caso do caderno de Mao e Zhou, afirmando que a corrupção representa um custo geralmente mortal para as pequenas e médias empresas.

O jornal afirma que a duração de vida média de uma empresa privada na China é de 3,7 anos; 60% delas vão à falência antes de cinco anos de existência, enquanto 85% desaparecem sem conseguirem alcançar os dez anos.
UM CUSTO MORTAL PARA AS PEQUENAS E MÉDIAS EMPRESAS
O que torna este caso original, é que ao longo de oito meses, Mao e Zhou anotaram num caderno todas as quantias que eles distribuíram, para quem e em quais circunstâncias. E que, quando a história acabou mal, eles decidiram tornar público o conteúdo desse caderno, que foi publicado na íntegra pela revista "Oriental Outlook", no outono de 2007.

O caso remonta a 2005, mas há poucos indícios de que tivesse ocorrido qualquer mudança notável neste campo no país: de vez em quando, o governo resolve fazer exemplo em certos contraventores (ver a condenação do chefe do Partido em Xangai), mas ninguém se ilude com isso. O caderno de Mao e Zhou, que constitui um verdadeiro manual do "como molhar a mão de funcionários", faz um levantamento de tudo aquilo que eles pagaram para os dirigentes de diferentes serviços da administração (os ex-camponeses, pouco à vontade na cidade, recorreram a um intermediário para lidar com o governo local).

Primeira entrada em 1º de fevereiro: "15.000 yuans [cerca de R$ 3.580 no cambio atual] repartidos em cinco envelopes vermelhos, um com 5.000, outro com 4.000 e outros três com 2.000. No restaurante Céu Azul, o envelope de 5.000 yuans é dado para o diretor W., de uma agência do governo local de Lianyuan, e o outro envelope com 4.000 yuans para X., um dirigente desta agência. Eu desconheço para quais dirigentes foram dados os três envelopes de 2.000 yuans".

Mais de R$ 120.000 de propinas em oito meses
Há 105 transações consignadas no caderno: várias vezes por semana, os candidatos a homens de negócios oferecem tofu (queijo de soja) seco, tijolos de chá, pacotes de cigarros, caixas de frutas, jantares, sessões na sauna e garotas no salão Beleza de Lenda, ou excursões de pesca... Ou até mesmo "45 yuans [cerca de R$ 11] na compra de molho de soja". Em 31 de maio, é preciso arrumar um trabalho para a filha de um diretor. A agenda completa do dia (convite para jantar, envelope vermelho) custa 25.000 yuans (aproximadamente R$ 6.000)! Entre os dias 20 e 31 de julho, eles molham a mão de um fumante inveterado: de dois a 14 pacotes por dia.

Quando a sociedade dos fogos de artifício Xianglian é finalmente registrada, mais de R$ 120.000 foram investidos em oito meses, quase que integralmente em propinas. A ciranda dos presentes poderia ter desembocado, como quase sempre acontece, numa história de sucesso empresarial à chinesa. Mas a Xianglian segue crescendo, novos associados entram no capital e, em breve, criam-se dissensões internas. Entre os dois fundadores e o seu intermediário, é a guerra. Os protagonistas acabam chegando às vias de fato por causa de uma sacola de plástico repleta de mandatos. As dependências da fábrica da empresa são fechadas e lacradas por ordem judicial. Por suspeitarem de que o intermediário tivesse ficado com uma parte das propinas, Mao e Zhou tornam público seu caderno.

O governo provincial começa a cuidar do caso em novembro de 2007. No momento em que, em Pequim, o Partido acaba de lançar uma nova campanha anticorrupção, a capital regional, Changsha, envia para o local 20 investigadores com a missão de debelar esse dossiê. Depois de um mês de inquérito, o caderno é considerado como autêntico, 36 dirigentes são intimados a escreverem uma autocrítica dentro do prazo de quatro dias. A maioria deles se executa e restitui uma parte dos valores (cerca de 10%). Em abril, seis dentre eles são demitidos e excluídos temporariamente do Partido. Mas, a comissão de inquérito só encontra provas do pagamento de 180.000 yuans a título de propinas, ou seja, pouco abaixo do limite que torna possíveis intentar processos judiciários por corrupção. E neste caso, não é a melhor situação do mundo ser o autor da revelação que desencadeou todo esse escândalo.

"Foi como se uma imensa rede tivesse caído sobre as nossas cabeças", declarou Zhou ao "Diário da Juventude", que acaba de publicar um inquérito. Os dois compadres foram expulsos dos escritórios do governo local. Um dirigente lhes disse friamente: "Hoje, é preciso oferecer presentes quando se quer alcançar algum objetivo". Jean-Yves de Neufville

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