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17/08/2008

Campeões olímpicos chineses são "fabricados" na Escola Esportiva de Shichahai

Le Monde
Olivier Montalba
enviado especial a Pequim
Embaixo de um cedro na entrada da Escola Esportiva de Shichahai, há uma grande lápide de mármore preto com colunas de nomes dourados. Ma Jung, a jovem assessora de comunicação que me acompanha na visita acelerada a essa escola modelo no centro de Pequim, pára diante dela por um minuto regulamentar (1). Os nomes são os dos campeões do mundo e dos medalhistas olímpicos que saíram dessa escola nos últimos 25 anos.

No capítulo "Atenas 2004" são quatro: Zhang Yining (duas medalhas no tênis de mesa), Teng Haibin (cavalo com alças), Luo Wei (tae kwon do) e Feng Kun (vôlei). "Desde então foi preciso começar a escrever nas laterais, não havia mais lugar para nossos cinco novos campeões do mundo." E para Pequim em 2008? "Gravar outros nomes seria nosso maior sonho." Antes a direção da escola era discreta sobre suas ambições. Há um ano o diretor foi categórico: haverá mais medalhas em Pequim do que em Atenas.

O projeto da Escola de Shichahai reflete a esperança de um país que tem pressa para ser reconhecido como nova superpotência no momento de "seus" Jogos Olímpicos. Afastada da família olímpica até o final dos anos 1970 por causa da disputa com Taiwan, a China participou de seus primeiros jogos em 1984 e desde então progrediu inexoravelmente: quarto lugar em Atlanta, terceiro em Sydney, segundo em Atenas com 32 medalhas de ouro, logo atrás dos EUA.

Em 2008 deve se tornar o primeiro país esportivo do mundo. "Senão o público ficará muito decepcionado, porque não daremos prova de um bom espírito nacional", disse o responsável pelo programa de treinamento do Ministério dos Esportes. A Escola de Shichahai está em sintonia com essa ambição. Ma Jung explica que ela produz "a maior porcentagem de campeões de toda a China" e resume o espírito da escola: "Trabalhar duro, não desprezar nenhum detalhe".

Os dois grandes edifícios novos são visitados através de balcões que dominam os ginásios. Pavarotti, Maradona, Jackie Chan e centenas de jornalistas já seguiram esse caminho. A atmosfera é de estudo; 600 alunos a partir de 6 anos, na maioria internos, se levantam às 7 da manhã para aulas de matemática e de chinês e depois treinos. Nas paredes, bandeiras vermelhas e slogans: "Daqui partirão os campeões de amanhã, à conquista do mundo". Os alunos não têm tempo livre.

Exercícios repetidos o dia inteiro

Tudo é limpo, iluminado com néon. Os equipamentos são de qualidade. Para os esportes de combate, os jovens atletas treinam com fundo musical de rap. "Pesquisas demonstraram que a música pode melhorar a reação do sistema nervoso", explica Ma, que em seguida se desculpa por ter falado demais. Nos corredores, cruzamos com grupos de adolescentes de aparência cansada - as doses de treinamento de cinco horas diárias para crianças de 8 anos seriam inaceitáveis na França, na opinião de um treinador francês. A direção da escola afirma que o número é exagerado.

De um ginásio ao outro, encontramos a mesma repetição de seqüências, aperfeiçoadas ao infinito. Vôlei: passe, corte. Pingue-pongue: diagonal, corte de direita. Badminton: golpe elevado, corte. A menina que faz o serviço não olha para a peteca, não se desloca um passo, repete até 50 vezes seguidas o mesmo gesto de precisão milimétrica, sem tentar esconder seu tédio. Não há qualquer dimensão lúdica: em chinês, nenhum esporte se conjuga com o verbo jogar.

Em matéria de "esporte", três milênios de civilização forjaram uma cultura que privilegia o objetivo, a arte do gesto e o bem-estar, como o tai-chi, uma atividade sem qualquer espírito de competição. Até meados do século passado a China foi "o doente da Ásia" e seus esportistas ficaram fora dos encontros internacionais. O espírito de competição surgiu no esporte chinês ao mesmo tempo que o nacionalismo.

Foi com a chegada dos comunistas ao poder que a China começou a construir sua máquina de campeões, baseada no modelo soviético: um sistema piramidal, controlado pelo Estado, que permite identificar as crianças muito jovens, muitas vezes por critérios morfológicos, selecionar e treinar as melhores até chegar às equipes nacionais. O tênis de mesa (importado do Japão) foi o pioneiro, porque Taiwan havia sido afastado da federação internacional.

Em 1959, quando o tenista de mesa Rong Guotuan se tornou o primeiro campeão do mundo chinês, Mao Tse-tung viu aí uma "arma nuclear espiritual". A competição tornou-se objeto de glória e de orgulho. A Escola de Shichahai foi criada naquele ano.

Meio século depois, em uma economia abalada pelo capitalismo, o esporte é um bastião de estabilidade nacional. Os futuros campeões são detectados, treinados, pagos, alimentados e hospedados por uma burocracia que controla sua vida pessoal e pode proibir que tenham contato direto com suas famílias durante vários anos. Até Liu Xiang, o astro dos 100 m com barreiras, foi chamado à ordem por ter passado tempo demais ao telefone com seus amigos.

Somente para alguns

Esse sistema, que há cerca de dez anos se abriu aos patrocínios, atingiu seu objetivo com uma eficácia temível, até a esperada consagração neste verão. Sustentado conforme as necessidades por treinadores estrangeiros recrutados por bons salários e a obrigação dos resultados, o regime investiu em esportes totalmente desconhecidos na China, mas com forte potencial de medalhas, como a esgrima ou o halterofilismo feminino. A equipe de tae kwon do foi formada em 1995 porque a concorrência era fraca, e a primeira medalha chegou cinco anos depois. O programa se chama "Ganhar honras nos Jogos Olímpicos".

Mas das 400 mil crianças e adolescentes treinados em 3 mil escolas esportivas, no máximo algumas centenas se tornarão campeãs de calibre internacional. Para todas as outras, o futuro é sombrio. A maioria fica à beira do caminho, sem formação universitária ou escolar, abandonada pelo Estado. Segundo o jornal "China Sports Daily", 80% dos atletas chineses estão desempregados ou vivem na pobreza, quando não sofrem problemas físicos ligados ao treinamento excessivo ou aos produtos ingeridos.

Mesmo entre os que conseguiram medalhas, vários exprimem seu arrependimento por ter sido privados de uma vida normal. A campeã do mundo de ginástica por equipes em 1998, Liu Fei, confiou alguns anos depois à agência Nova China: "Lamento profundamente ter adotado o caminho do esporte. As flores, os aplausos e a bandeira vermelha hoje estão bem distantes. Quando eu subi ao pódio do campeonato mundial, não poderia imaginar que o dia da aposentadoria seria o início de uma vida tão dura. Não tenho casa própria, nem trabalho, nem renda..." A jovem, que divide um apartamento minúsculo com sua mãe, inveja a sorte de sua irmã diplomada. E conclui: "Eu trabalhei duro. Para quê?"

Na mesma região nordeste, atingida pelo declínio da indústria pesada, Zou Chulan, uma ex-campeã de halterofilismo, abriu uma lavanderia automaticamente e precisa se barbear todas as manhãs - o estigma dos esteróides que ela ingeriu durante anos com total confiança. Assim como Liu Fei e Zou Chunlan, grande número de ex-atletas anônimos trabalha nas minas, como faxineiras ou vendedores de rua, e pedem ajuda. Em 2007 a ex-ginasta Mo Huilan, uma das raras que conseguiu se tornar apresentadora de um programa esportivo, propôs criar uma fundação para ajudar os antigos esportistas desempregados. Até hoje o projeto não teve seguimento.

Na sala de ginástica da Escola de Shichahai, o silêncio só é perturbado pelas vozes dos treinadores. As meninas têm de 9 a 11 anos, diz Ma, mas parecem dois ou três anos mais moças. Estão pálidas e têm expressões de fadiga. Uma menina sofre, de dentes cerrados, na barra fixa. O treinador a substitui com gestos cheios de censura, elevando um pouco a voz a cada vez, até que Ma o adverte sobre a presença do jornalista com uma única palavra: "Coach..."

(1) Visita sob condições estritas devido à proximidade dos Jogos Olímpicos: sem fotos, proibido entrar nas salas e falar com os jovens atletas. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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