UOL Notícias Internacional
 

19/08/2008

Um ano após terremoto devastador, cidade do Peru ainda espera ser reconstruída

Le Monde
Chrystelle Barbier
Enviada especial a Pisco, Peru
Por muito tempo, a cidade permaneceu soterrada debaixo dos escombros. Atualmente, todo o entulho desapareceu de Pisco, deixando o lugar para grandes espaços vazios e fantasmagóricos. Aqui e lá, cruzes de madeira, nas quais um nome foi escrito com caneta grossa hidrográfica, relembram a amplidão do drama, que causou a morte de 595 pessoas. Em 15 de agosto de 2007, um terremoto de uma magnitude de 7,9 na escala Richter arrasou esta região costeira do sul do Peru, reduzindo a nada 52.200 casas e deixando cerca de 300.000 vítimas.

No centro de Pisco, oito edifícios em cada dez desmoronaram. "Com o terremoto, nós perdemos tudo o que tínhamos", deplora Reyna Macedo, 60 anos. Em menos de 2 minutos e 30 segundos, esta senhora, moradora do bairro de La Alameda perdeu seu restaurante, sua moradia e "entes queridos que para mim, eram como uma família". Atrás dela, há uma ampla barraca que foi remendada: é a sua "nova casa". Um sofá e alguns móveis são os únicos vestígios que ela conseguiu recuperar do seu antigo alojamento.

Mariana Bazo/Reuters - 4.ago.2008 
Homens trabalham em rua destruída por terremoto que atingiu Pisco, Peru, no ano passado

Na noite que se seguiu ao terremoto, Reyna e seus vizinhos se instalaram no terreno de futebol do bairro, um acampamento improvisado cuja ocupação seria apenas provisória. Contudo, uma centena de famílias segue vivendo até hoje neste mesmo terreno, abrigadas debaixo de lonas que foram doadas por organizações não-governamentais (ONGs). "Um ano se passou e nós continuamos sem nada", desabafa Reyna, que não consegue acalmar sua cólera. "Alguns tiveram direito a pequenas construções pré-fabricadas de 15 metros quadrados, mas estas são pequenas demais para abrigarem a maior parte dos casais, que não raro têm cinco ou seis filhos". Reyna cedeu o alojamento de madeira para os seus netos e optou por se virar com a barraca, dentro da qual ela vive lutando contra os buracos que deixam passar o vento, glacial nesta época invernal do ano.

Assim com ela, a maioria dos habitantes de Pisco até agora não viu nem a cor nem os efeitos da reconstrução que vem sendo prometida desde o dia da catástrofe pelas autoridades de todos os níveis. "Pisco até hoje permanece devastada", avalia Roberto, um motorista de táxi que construiu para si próprio uma habitação precária após ter perdido a sua casa.

"Os eleitos não servem para nada. Eles nem sequer aparecem para constatar as condições em que nós vivemos", condena Úrsula, uma moradora do bairro de Pisco Praia. "Eles nos forneceram pequenos pré-fabricados para dar uma impressão favorável quando as figuras importantes comparecem para conferir em que pé está a reconstrução, mas essas paredes estão ali apenas para salvarem as aparências", confirma a sua vizinha Letícia. Exasperada, ela denuncia a mais completa falta de eficiência das autoridades, que "nada fizeram" no decorrer deste primeiro ano.

"Para a população, não haverá reconstrução enquanto novas casas não forem construídas", explica Henry Flores, um dirigente em Pisco do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). "De fato, os programas de construção de alojamentos estão progredindo, mas de maneira muito mais lenta do que deveriam, uma vez que existem numerosos problemas relativos aos títulos de propriedade das terras", explica.

Em Pisco, oito casas em cada dez não teriam nenhum proprietário legal. A primeira tarefa das autoridades tem sido de distribuir, após verificação, títulos de propriedade, o que reduziu o ritmo do processo.

"Recomeçar tudo do zero"
"Entretanto, houve importantes avanços nos níveis do saneamento básico, do tratamento das águas, do planejamento habitacional, e da elaboração dos documentos administrativos, entre os quais se inclui o mapa dos solos que correm perigo", assegura o responsável do PNUD. Desde abril, 27 obras foram empreendidas para reconstruir os esgotos, que foram destruídos numa proporção de 95% pelo terremoto. Transformada num verdadeiro canteiro de obras, Pisco passou a viver no ritmo das pás dos buldôzeres. A maior parte das ruas está entrecortada por profundas trincheiras. No total, 80 projetos foram adotados e serão deslanchados em breve em Pisco, além de outros 600 em nível regional, com o objetivo prioritário de reconstruir as infra-estruturas e os centros de saúde.

Do lado das autoridades, não há espaço para dúvidas: as obras estão sendo realizadas, a reconstrução está progredindo. Segundo os números oficiais, mais de 280 milhões de euros (cerca de R$ 675 milhões) foram investidos desde o terremoto na totalidade da região afetada, dos quais 77% foram fornecidos por fundos públicos, e o restante pela cooperação internacional.

"O sistema de esgotos foi consertado numa proporção de 40%, enquanto as principais instituições educativas estão em fase de restauração", enumera o prefeito de Pisco, Juan Mendoza, 36 anos. Além disso, cerca de 8.000 famílias (30.000 no nível da região) receberam o "Bônus 6.000", que permite que uma parte dos afetados pelo terremoto receba uma ajuda de 6.000 novos soles peruanos (cerca de R$ 3.345) do governo, para comprarem materiais de modo a reconstruírem seu alojamento. "Isso não é suficiente", reconhece o prefeito. Ele não hesita a denunciar "a burocracia" dos ministérios, que se mostram lentos demais para desbloquearem os fundos.

"Há um grande número de etapas que devem ser respeitadas", confirma Luis Hernandez Huaranga, o diretor geral do Fundo de Reconstrução para o Sul (Forsur), uma antena criada pelo governo cuja tarefa é de validar e revisar os projetos propostos pelas prefeituras. "Esse processo começa com uma identificação dos problemas, que é seguida pela elaboração dos estudos", admite. Uma vez o projeto aprovado pelo Forsur, ele é encaminhado para o ministério competente.

É preciso aguardar entre quatro e cinco meses para que um projeto seja deslanchado. "Evidentemente, as pessoas não têm obrigação alguma de compreenderem todos esses mecanismos, e a administração não foi capaz de implementar um esquema de comunicação a respeito dessas questões", lamenta Luis Hernandez, que diz perceber o mal-estar da população. Depois deste começo laborioso, a reconstrução deveria ser acelerada. "Considerando-se a amplidão da destruição, ninguém poderia pensar que a cidade seria reconstruída no espaço de um ano", decreta Marco Cossio, no escritório do Forsur em Pisco. "As obras terão uma duração de pelo menos dois a três anos, e esta é a mensagem que deveria ser transmitida para a população".

Descontente, a população participou de passeatas, na sexta-feira (15/08), organizadas por toda parte na região atingida. Ela está decidida a ser ouvida pelo presidente Alan Garcia. Diante da situação de emergência, algumas das vítimas tomaram a decisão de não mais continuarem esperando por ajuda. Foi assim que pouco depois do terremoto, Carolina Gutierrez e seus familiares se instalaram num terreno baldio, na saída de Pisco, em companhia de outras famílias de vítimas.

"Nós tivemos que recomeçar tudo do zero", conta a jovem mulher. Ajudada por alguns dos seus vizinhos, ela partiu para a luta. Juntos, eles obtiveram a eletricidade. Eles ainda não dispõem de água, mas esperam encontrar uma solução. "Eu não tenho mais todas as facilidades das quais eu dispunha anteriormente, mas estou certa de voltarmos a tê-las um dia desses", comenta Carolina, com um sorriso. "Agora, a minha nova casa é aqui". E quando os seus filhos lhe perguntam por que eles passaram a viver dentro de uma favela, ela responde que o mais importante é que todos estejam com vida. Jean-Yves de Neufville

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host