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22/08/2008

Conflito entre muçulmanos e hindus contamina cidade pacífica na Índia

Le Monde
Julien Bouissou
Enviado especial a Kishtwar (Estado de Jammu e Caxemira), Índia
Na cidadezinha de Kishtwar, situada a oito horas de estrada de Srinagar, a capital da Caxemira indiana, no noroeste da Índia, hindus e muçulmanos se enfrentaram em violentos motins. Ocupando posições entre as bandeiras do Bharatya Janta Party (BJP), o partido nacionalista hindu, e uma alameda de árvores fruteiras, soldados permanecem apontando, dia e noite, sua arma automática na direção da entrada da propriedade. Rajinder Singh, o líder do partido no distrito de Kishtwar, vive aqui com a sua família, como num campo entrincheirado.

O homem idoso, trajando uma longa túnica branca, exibe uma marca de tilaka vermelha no meio da testa (uma pintura de inspiração religiosa, feita com uma argila especial proveniente dos rios sagrados da Índia). Ele recebe os visitantes, sentado no chão da sua sala de estar, de pernas dobradas, com um telefone e uma xícara de chá entre as pernas. "Eu não tenho medo de ninguém", diz, com uma voz calma, para tentar tranqüilizar seus interlocutores. "Mas, vejam vocês o que esta cidade acabou aprontando para um hindu, que tem orgulho de ser indiano". Por onde a vista alcança, na parte mais baixa do bairro, entre os templos e as mesquitas cobertos por tetos idênticos de alumínio, casas foram incendiadas e comércios foram saqueados.

"Ainda que eles fossem muçulmanos, nós vivíamos em harmonia com eles", comenta discretamente a filha de Rajinder Singh, caminhando do lado dos fios de arame-farpado que acabam de ser instalados em volta do jardim. "Eu os vi pulando por cima do portão; eles destruíram o carro a golpes de machado e puseram fogo na casa. Eu os escutei urrando: 'Eles vão morrer! Para todos eles, a morte!'", relata Faizullah Cheikh, cuja casa foi sitiada por manifestantes hindus. No espaço de três horas, dois muçulmanos foram mortos. Cinco casas e 36 lojas que pertenciam a ambas as comunidades foram incendiadas.

Mir Imran/AFP - 20.ago.2008 
Hindu indiano atira pedras contra a polícia durante protesto em Jamnu, na Caxemira

Bandeiras paquistanesas
Esta pequena cidade de 15 mil habitantes, isolada em meio às montanhas da Caxemira, comporta o mesmo número de hindus e de muçulmanos. Ela nunca havia sido o palco de motins tão violentos, ao menos nos últimos vinte anos. As tensões entre comunidades, que vêm tomando conta do Estado de Jammu e Caxemira há alguns meses, explodiram e acabaram brutalmente com a sua tranqüilidade.

Foi uma disputa a respeito de um terreno de 40 hectares, numa região de maioria muçulmana, que desencadeou as hostilidades. Após ter atribuído as terras em questão para peregrinos hindus, o governador do Estado voltou finalmente atrás em sua decisão, cedendo ao descontentamento dos muçulmanos. Por sua vez, manifestantes hindus reunidos em torno da bandeira do Shri Amarnath Sangarsh Samiti bloquearam a única estrada que conduz à Caxemira. Enquanto em Jammu e em Srinagar, os atos de protesto dos dois campos são realizados a 200 quilômetros de distância entre si, em Kishtwar as duas comunidades são separadas apenas por uma rua ou um jardim.

"No início da noite de 11 de agosto, nós ouvimos as mesquitas da cidade convocando seus fiéis para uma manifestação marcada para o dia seguinte, depois de um líder muçulmano ter sido morto pelas forças da ordem, em Srinagar. O confronto era inevitável", recorda-se Haseeb Mughal, um delegado de polícia do distrito. Às 5h da manhã, a polícia anuncia a instauração de um toque de recolher por meio de alto-falantes. Algumas horas mais tarde, 120 militares desembarcam de cinco helicópteros para reforçar o contingente. Apesar da chegada desses homens, a cidade é sacudida pelos motins. As bandeiras paquistanesas são agitadas na frente das bandeiras indianas.

Aldeias armadas
Após três dias de toque de recolher e de destruições, tudo foi mantido no mesmo estado. As lojas saqueadas permanecem repletas de destroços. "Os indianos querem nos colonizar, ao passo que o artigo 370 os proíbe de adquirirem terras em nosso solo", comenta, indignado, Khalil Basoor, um muçulmano que participou dos motins.

Ao longo de décadas, a calma havia sido mantida por efeito de um artigo da Constituição. Esta emenda fora promulgada em 1950. Ou seja, três anos depois que o marajá que reinava sobre o Jammu e Caxemira tivesse retrocedido seu território para a Índia, em troca da sua proteção contra as invasões das tribos pathanes (espalhado por 40 tribos, o povo pathane representa 53% da população do Afeganistão, que faz fronteira com a Caxemira), prevê uma ampla autonomia em relação ao poder central. Entre outros, esta lei proíbe que os não-residentes da Caxemira se tornem proprietários.

Entre os hindus, que são amplamente majoritários na região do Jammu, essa proibição é vivenciada como uma injustiça. "As autoridades proporcionaram de tudo para os muçulmanos da Caxemira. Eles têm todos os privilégios. Mesmo assim, eles continuam erguendo a bandeira paquistanesa. Nós, os hindus do Jammu e Caxemira, somos os únicos que defendem nossa pátria", fulmina Rajinder Singh.

Por toda a região, as aldeias mais isoladas foram armadas pelo governo indiano no decorrer dos últimos dez anos, de maneira que elas pudessem se defender contra os ataques de militantes separatistas. Desde então, três mil armas, 98% das quais estão entre as mãos de hindus, circulam por todo o distrito de Kishtwar.

Perto de Kishtwar, o vilarejo de Bhatta faz parte desses "comitês de defesa de aldeões". Arvind Sharma, 22 anos, garante que ele retira a arma do seu esconderijo somente quando precisa participar dos treinamentos ministrados pelo exército. "Eles nos ensinam a tomar posição e a atirar naquele que está ameaçando a nossa segurança", explica o aldeão, orgulhoso. Então, ele acrescenta: "Os muçulmanos podem esquecer-se a qualquer momento de que eles são os nossos vizinhos e investirem contra nós".

Este jovem professor está se preparando para ir daqui a pouco para a escola muçulmana onde ele dá aulas de matemática. Ele teme as primeiras discussões com os seus alunos. Mas uma coisa é certa: "Quaisquer que sejam os seus comentários, eu não confio mais neles, os nossos corações não estão mais em harmonia". Jean-Yves de Neufville

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