UOL Notícias Internacional
 

23/08/2008

Jogos Olímpicos tiram a paz de cidades vizinhas de Pequim

Le Monde
Brice Pedroletti
Enviado especial a Yinyueling
Após passar pela sexta auto-estrada periférica de Pequim, o viajante já se encontra no descampado e depara-se então com Yinyueling, uma aldeia limpinha de 1.600 habitantes para onde o conduz uma bela estrada asfaltada. O vilarejo está espalhado pelo fundo de um vale verdejante, a 80 km a nordeste da capital. No que vem a ser um sinal de que estamos mesmo numa temporada olímpica, uma sentinela trajando uma braçadeira vermelha puxa uma soneca debaixo de um guarda-sol, na entrada da aldeia.

Aqui, em cada uma das famílias ou quase, alguém "trabalha na cidade": em Miyun, que fica muito perto, ou em Pequim. E pelo menos duas casas foram vendidas para pequineses, que nelas passam seus fins de semana. Jiang Shi-sheng, um camponês de cerca de 60 anos, está conduzindo seu rebanho de cabras para fora do pátio da sua fazendinha. Os Jogos Olímpicos? O seu aparelho de TV está quebrado. Ele assistiu à cerimônia de abertura no pátio de um dos seus vizinhos. Mas ele sentia dores nos rins naquela noite, e acabou se recolhendo cedo.

Somos convidados para sentar sobre a kang, a cama de tijolos que é aquecida por baixo no inverno, instalada num quarto de dormir de paredes de cimento. Somos recebidos por Jiang, pela sua mulher e por um homem mais idoso. "Eles são jornalistas?", indaga este último. Os dois filhos de Jiang trabalham como guardas municipais em Pequim. Ele sabe que estão de plantão durante a noite, por causa das Olimpíadas. Mas eles nada mais contaram para o seu pai. A verdade é que Jiang, que está nos oferecendo cigarros, quer falar de outra coisa: "Houve muitos conflitos, por aqui. O chefe da aldeia fez negócios com as nossas terras sem o conhecimento ou contra a vontade de muita gente", sussurra.

Ficamos sabendo que ele mesmo foi espoliado, em 1999. Ele explorava junto com o seu irmão cerca de três hectares de árvores fruteiras, a 4 km dali. As terras foram atribuídas para uma usina de produção de carne, a Huadu. Jiang então protestou. Ele ficou preso por nove dias - o tempo necessário para derrubarem o pomar. Aconteceu num dia 26 de agosto, martela. Desde então, ele vem lutando. A companhia intentou um processo contra ele. Ele foi obrigado a negociar e recebeu uma magra compensação. Ele encaminhou petições para as autoridades da capital do condado, e exigiu seus direitos até mesmo perante a Corte suprema, em Pequim, no ano passado. Mas os policiais lhe confiscaram seus documentos.

Medidas arbitrárias e ilusionismo
Atualmente, o seu filho o incentiva a persistir, argumentando que ele tem as leis em seu favor. Então, dos Jogos Olímpicos, Jiang pensou a respeito nos seguintes termos: "Ninguém me deu a ordem de manter-me tranqüilo durante as Olimpíadas. Por conta disso, refleti longamente sobre a possibilidade de ir a Pequim. O que está acontecendo comigo é importante para os meus familiares. Mas os Jogos constituem um evento para o país como um todo, e até mesmo para o mundo inteiro. Então, cheguei à conclusão de que eu não deveria atrapalhar, com a minha pequena história pessoal", diz.

Nós atravessamos a aldeia, passando por uma estrada estreita de cimento que serpenteia entre muros de tijolo, até a casa de Yang, 38 anos, um homem baixinho e magro que exibe um dragão tatuado no antebraço direito e no ombro esquerdo. A sua mulher está grávida. Ele torce para que a criança seja uma menina, porque, segundo ele, "os meninos fazem besteiras demais".

Isso porque Yang passou uma temporada num laogai (campo de reeducação por meio do trabalho). Ele havia organizado uma linha de ônibus clandestina entre Miyun e Dongzhimen (no centro de Pequim). Na época, conta Yang, bancando o valente, ele havia conseguido "afastar a concorrência". Ele fora condenado a uma pena de seis anos, mas só cumprira quatro, pois fora recompensado por ter salvado uma criança que estava se afogando.

Atualmente, ele dirige um pequeno negócio na construção civil. De noite, ele costuma assistir às partidas de futebol dos Jogos Olímpicos na televisão. Ele não gostaria de ir a Pequim para presenciar os eventos? "Seria complicado demais, por causa de toda a família" (os pais, o irmão. . .). O seu irmão, aliás, trabalha como benévolo no posto de controle da aldeia: ele "verifica os documentos de identidade dos motoristas", e inspeciona os veículos para ver "se não há explosivos".

Yang, por sua vez, também está irado. Ele conta que o chefe da aldeia, sempre o mesmo, decidiu derrubar a escola para construir no seu lugar a sede da administração. A empresa de Yang foi descartada da concorrência para a sua construção, enquanto o seu parceiro no negócio teve os joelhos quebrados por um bando de delinqüentes. Então, Yang e mais a metade dos habitantes da aldeia se rebelaram: vale acrescentar que o terrível chefe da aldeia havia efetuado uma retirada de 800.000 iuans (cerca de R$ 190.000) da conta do orçamento coletivo para financiar a obra.

No ano passado, 170 famílias participaram de um ato de protesto em Miyun. Yang, que parece não ter medo de nada, havia anunciado alto e bom som: "durante os Jogos Olímpicos, nós todos iremos para a Zhongnanhai [a residência dos dirigentes chineses perto de Tiananmen]". Então, ele acrescenta: "A ameaça deixou os dirigentes assustados. Em março, eles demitiram o chefe da aldeia. Desde então, é um dirigente do partido que nos governa a partir da capital do condado".

"Em setembro, tudo voltará como antes. Mas, nós precisamos nos preparar para outras manigâncias", prevê Yang, que está decidido a manter-se muito atento, com ou sem os Jogos Olímpicos. Jean-Yves de Neufville

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