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23/08/2008

'Mata Hari' coreana é inocentada por documentos secretos dos EUA

Le Monde
Philippe Mesmer
Correspondente em Tóquio
Kim Soo-im, a "Mata Hari coreana", teria sido apenas uma vítima dos primeiros tempos da Guerra Fria. Em 25 de junho de 1950, a península coreana, dividida no nível do 38º Paralelo entre o regime comunista de Kim Il-sung e aquele, pró-americano, de Syngman Rhee, mergulha na guerra. Em 28 de junho, Kim Soo-im, 39 anos, é executada, por um crime de espionagem. Ela respondia à acusação de ter seduzido o coronel americano John E. Baird com o objetivo de obter informações - entre outros, o plano que detalhava a retirada da península das tropas dos Estados Unidos em 1949 - que ela teria repassado para o seu amante Lee Gang-kook, um alto dirigente norte-coreano.

AP
Kim Soo-im em foto de 1939
Kim Soo-im, uma órfã, é diplomada da prestigiosa universidade para moças Ehwa. Falando fluentemente o inglês, ela se destaca durante os anos 1930 como um modelo de jovem mulher moderna e livre. Ela freqüenta os meios intelectuais coreanos, e torna-se amiga da poetiza Moh Yoon-sook.

As suas competências em inglês interessam às forças americanas, que desembarcaram na península em setembro de 1945. Ela torna-se a assistente do coronel Baird, que dirige a polícia militar. Os dois têm um caso. Nasce uma criança.

Ela é presa em 1º de março de 1950; o seu processo e a sua execução ocupam as manchetes dos jornais em Seul. Na América maccarthista (onde uma maioria era seguidora das idéias do senador Joseph McCarthy, 1908-1957, um anticomunista ferrenho), ela torna-se "a sedutora coreana que traiu a América", "a Mata Hari coreana". As suas "artimanhas femininas" seriam "as armas mais mortais" que os comunistas possuiriam.

"Caça às bruxas"
Ora, a sua culpabilidade hoje está sendo questionada. Segundo a agência de notícias Associated Press, que cita documentos secretos da época, que acabam de perder sua classificação de sigilo, e que foram obtidos nos aquivos nacionais dos Estados Unidos, Kim Soo-im não poderia ter obtido quaisquer informações sensíveis junto ao coronel Baird, pela simples razão de que este último não tinha acesso a elas. Lee Gang-kook, por sua vez, teria atuado a serviço da CIA (Agência Central de Inteligência), um fato que foi confirmado pela sua execução como "espião americano", depois do encerramento dos combates, em 1953.

Segundo Jung Byung-joon, um professor na Universidade Mokpo, Kim Soo-im teria sido vítima de uma verdadeira "caça às bruxas". Na época, o regime de Syngman Rhee, apoiado por antigos colaboradores do ocupante japonês, os quais vinham sendo mantidos em seus cargos pelos americanos, teria mandado executar cerca de 100.000 militantes e simpatizantes de esquerda. "Ela era detestada por ter sido a amante de Lee Gang-kook e do coronel Baird", considera Jung. A demissão do coronel Baird - que foi forçada para "evitar novos problemas" - a deixa então sem proteção. A sua confissão, que, ao que tudo indica, foi obtida por meio da tortura, fará com que ela seja condenada à pena capital.

Essas recentes revelações estão chegando tarde demais, mas elas vêm prestigiar Kim Wonil. Com idade de 59 anos, este professor da universidade californiana de La Sierra é o filho de Kim Soo-im e do coronel Baird - que nunca aceitou reconhecê-lo como tal. Ele foi o primeiro a mergulhar nos documentos quando estes perderam a classificação de sigilo, conversou com um dos juizes que haviam condenado sua mãe, e continua à procura da verdade, antes que este episódio da Guerra Fria acabe caindo definitivamente no esquecimento. Jean-Yves de Neufville

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