UOL Notícias Internacional
 

23/08/2008

O berimbau de um argentino do Brasil

Le Monde
Patrick Labesse
Apaixonado por percussões desde a sua infância, o músico argentino Ramiro Musotto, que concluirá sua turnê pela França neste domingo, 24 de agosto, no parque de La Villette, em Paris, toca berimbau em companhia de estrelas brasileiras (Margareth Menezes, Daniela Mercury, Lenine. . .). Como será que um argentino conseguiu tornar-se um dos músicos mais em vista deste que é um instrumento emblemático do Brasil?

Depois de uma adolescência que ele passou em Bahia Blanca, na Patagônia, quando se iniciou à arte de surrar as peles dos tambores, integrando grupos de rock contestatórios, e ainda a orquestra sinfônica da sua cidade, Musotto, aos 18 anos, partiu para o Brasil. Sem passagem de volta. Movido pela vontade de aprender tudo dos ritmos brasileiros, e, mais ainda, pelo desejo de capturar e de dominar as infinitas sutilezas do rústico berimbau.

Este instrumento, que foi inventado no Brasil, é um arco musical fabricado a partir de um pau de 1,40 m sobre o qual são afixados um arame de aço e uma meia cabaça. Tocado geralmente com uma fina vareta que percute o arame metálico por toda a sua extensão, ele acompanha com os seus timbres sincopados a capoeira, aquela arte marcial inventada no Brasil pelos escravos originários de Angola.

O responsável por exercer esse fascínio maluco pelo instrumento dos capoeiristas sobre o músico argentino chama-se Nana Vasconcelos. Nascido em Recife, em 1944, ele é o grande mestre do berimbau, e o ídolo de Ramiro Musotto. "Nana despontou com um músico muito importante para o pessoal da minha geração, ao lado de Hermeto Pascoal e de Egberto Gismonti. Ele me fascinava". Esta fascinação o conduz até Salvador da Bahia, o berço da negritude no Brasil e da capoeira. Na Bahia, o berimbau ressoa por todos os cantos.

Tecelagem sonora
Este instrumento é o objeto que todo turista que visita o Brasil deve levar impreterivelmente para casa como recordação. "Quando eu era criança, a minha mãe me trouxe um exemplar de uma das suas viagens". Foi o instrumento da sua primeira aprendizagem, antes que ele se mudasse para São Paulo, e depois para Salvador da Bahia, onde ele optou por se instalar, "para estar o mais perto possível da tradição". Ramiro Musotto se diz cativado pelo lado primitivo deste objeto-instrumento, que ele elegeu como a ferramenta central do seu trabalho de tecelagem sonora, entre os sons naturais das percussões e as programações eletrônicas.

O berimbau é um instrumento masculino que Musotto, sem querer, "feminizou". "Na verdade, eu troquei a meia cabaça, um pouco por acaso. Um amigo tinha me dado uma diferente, de tamanho menor, que ele havia descolado numa tribo de índios da Amazônia. Eu a montei para ver como ficava..." O resultado é mágico! Por meio desta meia cabaça menor, que suaviza os timbres do berimbau, ele consegue produzir efeitos sonoros sincopados que até então ele não havia tirado de outros exemplares. "Para mim, em função das suas sonoridades mais suaves, é um berimbau mulher que estou utilizando".

Entre o masculino e o feminino, Ramiro Musotto fez definitivamente a sua escolha. Ele diz possuir cerca de duzentas meias cabaças pequenas da Amazônia em sua casa, que estão aguardando para ressoarem por efeito da vibração do arame de aço. Jean-Yves de Neufville

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