UOL Notícias Internacional
 

26/08/2008

Gangrenada pelo tráfico de drogas, a criminalidade e a corrupção, a República Dominicana vive uma crise

Le Monde
Jean-Michel Caroit
Em Santo Domingo, República Dominicana
O medo e o silêncio. A população de Bani, uma cidade situada a 65 quilômetros a sudoeste de Santo Domingo, está calada. Em 5 de agosto, sete cadáveres crivados de balas foram encontrados à proximidade de um campo de cana-de-açúcar, não longe desta cidade reputada por suas mangas e suas massas de frutas cristalizadas. Entre as vítimas, algemadas e amarradas, estavam um venezuelano, vários colombianos e um dominicano. Apenas o nicaragüense Holi Gomez sobreviveu, fingindo que estava morto. Ferido por três balas, "ele agora finge ser deficiente mental para não responder às perguntas", diz um investigador. As autoridades qualificaram este massacre executado no estilo de Al Capone de "acerto de contas do narcotráfico internacional".

O único depoimento de uma testemunha que pôde ser registrado foi aquele da empregada doméstica da casa onde residiam as vítimas, em Ojo de Água, uma aldeia perto de Bani. Segundo esta empregada, Mercedes Carvajal, os assassinos, que carregavam armas pesadas, trajavam coletes à prova de balas da Direção Nacional do Controle das Drogas, a agência encarregada da luta contra o tráfico de entorpecentes. Eles carregaram diversos sacos a bordo de um caminhão. Segundo um investigador, esses sacos continham 1.200 quilos de cocaína, que acabavam de ser entregues por navio, e mais de US$ 200 mil.

Pouco após a macabra descoberta, o senador Wilton Guerrero, um representante da província de Peravia, da qual Bani é a capital, denunciou o envolvimento das autoridades policiais. "A polícia nacional está encobrindo, aqui em Bani, uma quadrilha de bandidos que explora e extorque os narcotraficantes", afirmou o senador Guerrero, um membro do partido presidencial, durante uma coletiva de imprensa. "Os chefes da polícia de Bani se reuniam com freqüência com os narcotraficantes que foram executados, e juntos eles tomavam uísque e comiam 'cabri' [uma receita regional]", acrescentou. Segundo o senador, um ponto de venda de drogas, vigiado por um homem armado, é mantido de modo permanente na rua, nos arredores da delegacia de polícia.

O caso adquiriu as proporções de uma polêmica nacional, no momento em que faltavam poucos dias para o início do novo mandato do presidente Leonel Fernandez, que havia sido reeleito em maio. O senador revelou que ele havia entregado, há dois anos, um volumoso dossiê para o ministro do Interior e para o conselheiro jurídico do presidente, com informações detalhadas sobre as cumplicidades das autoridades da sua província com os narcotraficantes. Mas essas providências do senador acabaram não dando em nada.

O deputado de Bani, Milciades Franjul, confirmou as acusações do senador, afirmando que o litoral da região de Bani em toda a sua extensão vinha sendo palco "de um bombardeio constante de drogas".

Diante desse escândalo, o presidente Fernandez constituiu às pressas uma comissão de alto nível para a qual entregou a missão de esclarecer as circunstâncias do massacre e apurar eventuais cumplicidades por parte das autoridades. Os seus membros apontaram o envolvimento de diversos magistrados, mas se limitaram a recomendar a transferência dos principais responsáveis da polícia e da agência antidrogas locais. O ministro da Defesa, o general Ramon Aquino Garcia, reconheceu que vários oficiais superiores participavam do tráfico de drogas na região. Um deles, o capitão de fragata Ricardo Rafael Guzman Pérez, foi preso de posse de oito quilos de cocaína.

A oposição insurgiu-se vivamente contra as conclusões da comissão de inquérito, as quais ela denunciou. "Os cartéis das drogas estão esfregando as mãos ao assistirem à posse de um governo que lhes permite agirem como bem entendem, não apenas em Bani como também pelo país afora", comentou com indignação Ramon Albuquerque, o presidente do Partido Revolucionário Dominicano (PRD, de esquerda), a principal agremiação da oposição. O antigo candidato à presidência Guillermo Moreno (de esquerda) acusou o presidente Fernandez de "carecer de estratégia e de determinação na tarefa de enfrentar as atividades do narcotráfico". "A permissividade do presidente da República e a rede de cumplicidades que age no âmbito do seu governo colocam em perigo a segurança da sociedade dominicana como um todo", acrescentou.

No discurso que ele pronunciou por ocasião da posse para o seu novo mandato, em 16 de agosto, o presidente Fernandez reconheceu a insuficiência dos progressos na luta contra "as forças transnacionais que dispõem de importantes recursos e de apoios locais". "Os recentes atos de violência provocaram uma grande consternação. Em caso algum, nós devemos recuar no combate contra as drogas e a criminalidade", prometeu. Ele também se comprometeu "a lutar contra a utilização do sistema econômico e financeiro para a lavagem de dinheiro", uma atividade que se desenvolveu de maneira avassaladora na República Dominicana ao longo dos últimos anos.

Em 1º de agosto, por ocasião de uma conferência regional em Cartagena, na Colômbia, o presidente Fernandez deplorou a insuficiência da cooperação dos Estados Unidos na luta contra o tráfico de drogas. No final de junho, o Congresso americano havia aprovado a liberação de uma verba orçamentária para a luta antidrogas no México, na América Central e no Caribe. "A República Dominicana está recebendo apenas US$ 2,5 milhões do montante total", lamentou Leonel Fernandez. Uma quantia irrisória se comparada com a quantia de US$ 162 bilhões que havia sido aprovada pelo Congresso naquele mesmo dia para as guerras no Iraque e no Afeganistão. Jean-Yves de Neufville

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