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27/08/2008

Na Argentina, a manipulação dos números da inflação causa desconfiança entre os investidores estrangeiros

Le Monde
Christine Legrand
Em Buenos Aires
Apesar de desfrutar de um crescimento "à maneira chinesa" nos últimos cinco anos, a economia argentina mostra sinais de preocupação. Certos analistas se referem até mesmo a um possível "calote" no pagamento da dívida, sete anos depois daquele de 2001, que fora um dos mais importantes da história financeira contemporânea. No início de agosto, a Venezuela havia comprado o equivalente a US$ 1 bilhão (cerca de R$ 2,6 bilhões) em títulos da dívida argentina, a uma taxa de 15%, que foi considerada como elevada demais pelo mercado. Posteriormente, Caracas os revendeu, o que contribuiu para uma forte queda do valor dos bônus da dívida.

POPULAÇÃO
O país conta cerca de 40 milhões de habitantes. A taxa de desemprego foi calculada, em 2007, em 14,1% da população ativa.

MOEDA
O peso argentino vale cerca de um quarto de um euro (R$ 0,54).

RIQUEZA NACIONAL
Em 2005, o produto interno bruto (PIB) do país foi calculado em US$ 14.280 por habitante (na União Européia, no mesmo ano, ele era de US$ 28.165), para um crescimento de 9%.

COMÉRCIO INTERNACIONAL
O vizinho brasileiro é o principal parceiro comercial da Argentina (34% das importações, 17% das exportações). O Chile, os Estados Unidos e a China são os outros clientes importantes e/ou fornecedores do país.
NÚMEROS DA ARGENTINA
Em 19 de agosto, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, declarou que as turbulências do mercado da dívida haviam sido fomentadas por "interesses financeiros, econômicos e de setores da mídia, que querem fazer acreditar que o país se encontra à beira do precipício". Ela ainda criticou "o establishment internacional e as agências de notações financeiras". De fato, tomando exemplo na Standard & Poor's, a Moodys havia anunciado, alguns dias antes, ter rebaixado suas perspectivas em relação à dívida argentina de "positivas" para "estáveis". Diversos economistas locais julgam esses temores exagerados. Eles pensam que em caso de dificuldade de financiamento, Buenos Aires poderia recorrer às reservas do Banco Central (de US$ 40 bilhões - cerca de R$ 65 bilhões).

Para tranqüilizar os mercados, Cristina Kirchner apresentou como argumento um excedente fiscal de mais de 4 bilhões de pesos (R$ 2,15 bilhões) em julho, ou seja, um montante superior em 56% ao do excedente registrado no ano anterior. Ela também mencionou um crescimento do produto interno bruto (PIB) de 8,1% e comemorou a criação de 107.000 empregos no decorrer do primeiro semestre. Por sua vez, o ministro da economia, Carlos Fernandez, antecipou um importante aumento das exportações, que poderiam alcançar US$ 72 bilhões (R$ 117,12 bilhões) em 2008 contra um pouco mais de US$ 55 bilhões em 2007.

A crise agrícola: o outro desafio

A maioria dos economistas avalia que a queda dos empréstimos contraídos pelo Estado argentino reflete principalmente a preocupação dos investidores diante da falta de credibilidade dos números oficiais da inflação. O governo afirma que ela não supera os 10%, ao passo que ela é calculada em 25% pela maior parte dos economistas.

A manipulação dos números por parte do Instituto Nacional das Estatísticas (Indec), que tem sido criticada por diversos setores da sociedade argentina, contribui para manchar a imagem de Cristina Kirchner, até mesmo nas fileiras dos seus partidários no âmbito do partido peronista. Nesse contexto, o governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, admitiu que a inflação está prejudicando as municipalidades, que não conseguem mais equilibrar seus orçamentos mensais nem atender às demandas de aumentos de salários dos funcionários públicos.

Os caciques da principal província argentina, em sua maioria, peronistas, estão exigindo do governo federal que este efetue uma operação de salvamento financeiro. Alguns deles alegam que os alimentos de base aumentaram em 45% no decorrer dos últimos meses, uma alta que atinge duramente as camadas mais pobres da população. A classe média tampouco foi poupada. Segundo dados divulgados por institutos privados, os preços dos bens e dos serviços teriam aumentado em cerca de 23% de um ano para cá, principalmente os valores dos alugueis e dos planos de saúde das entidades médicas privadas, ou seja, três vezes mais do que informam as estatísticas oficiais. Quanto ao preço da gasolina, ele disparou em mais de 30% no espaço de um ano; no decorrer do mesmo período, o preço de um hambúrguer nas lanchonetes McDonald aumentou em 20%.

O outro desafio é a crise do mundo rural, num país onde as exportações agrícolas proporcionam a principal entrada de divisas. Ora, os agricultores mais uma vez estão mobilizados para a confrontação. Em julho, após quatro meses de greve, eles haviam conseguido fazer com que o projeto de lei sobre um aumento das taxas sobre as exportações de cereais fosse rejeitado pelo Senado. Agora, eles ameaçam promover uma nova greve, caso o governo não valorizar o preço do leite, que eles consideram baixo demais, e caso ele não suspender as restrições em relação às exportações de carne e de trigo. Jean-Yves de Neufville

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