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28/08/2008

Ivo Pitanguy, a beleza a qualquer custo

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
Esta é a sua pior recordação. A sua cor é vermelha como o fogo, e preta como a dor. Em 17 de dezembro de 1961, 2.500 espectadores, entre os quais uma maioria de crianças, estão sentados nas arquibancadas do Gran Circus Norte-Americano, que montou seu picadeiro em Niterói, na outra borda da baía do Rio de Janeiro. De repente, quando já anoiteceu, o capitel do circo pega fogo. No espaço de alguns minutos, é devorado pelas chamas. Um desastre absoluto. No total, serão recenseados 500 mortos e a mesma quantidade de vítimas de queimaduras graves.

Folha Imagem 
Ivo Pitanguy sempre recusou ser reduzido à imagem de "cirurgião da alta sociedade"

Na época, Ivo Pitanguy é um jovem médico formado em cirurgia plástica. Ele trabalha no serviço das urgências. Junto com alguns colegas, ele atravessa a baía de barco. Ao longo de três dias e três noites, eles operam, efetuam implantes, aliviam as dores, organizam as operações de resgate em meio ao caos. Não existe infra-estrutura nem material suficiente para tratar tantos corpos martirizados. A intensidade de certos olhares de crianças cujos rostos estão profundamente machucados ficará impressa em sua memória para sempre.

O drama de Niterói vem então legitimar as questões que assombram Ivo Pitanguy desde os primórdios de sua atividade profissional. Ele consolida suas convicções e acelera sua reflexão, humanista e pragmática, a respeito da beleza. Salvar vidas permanece prioritário, mas não pode ser o bastante. A cirurgia chamada de reparadora deve também aliviar o sofrimento mental daquele que se considera traído pela natureza, ou que uma desgraça acidental atingiu fundo em sua carne. Ela deve levar em conta a estética. É preciso conferir a essas práticas secundárias, recém desenvolvidas e então menosprezadas, da cirurgia tradicional suas letras de nobreza. Este será o longo combate do mais célebre cirurgião estético do mundo.

Ivo Pitanguy nasce em 1926 em Belo Horizonte, no Estado de Minas Gerais. O seu pai, um cirurgião, lhe transmite a sua vocação. Da sua mãe, ele herda o gosto pelas artes e as letras. Ele apaixona-se pelos poetas, e adquire uma tendência que ele conserva até hoje a recitar seus versos por conta do menor pretexto. Ele sempre evoca Goethe, Edgar Poe ou Baudelaire, a respeito do seu tema predileto: "Eu sou bela, ô mortais! Como um sonho de pedra". Quando desembarca, ainda moço, no Rio de Janeiro, que se tornará sua cidade do coração, ele descobre os cuidados obsessivos que os seus habitantes dedicam ao seu corpo.

Após escolher seu caminho profissional, ele parte com o objetivo de formar-se junto a alguns grandes pioneiros, em Cincinnati e em Baltimore (nos Estados Unidos), e na França, na Paris de Jean-Paul Sartre e de Juliette Gréco. De volta ao Rio, ele exerce sua profissão de interno, no serviço de atendimento médico de emergência daquele que era então o principal hospital da cidade. Ele opera em Santa Clara, numa das mais antigas clínicas do continente. Trabalha como plantonista em favelas, entre outras na Rocinha onde faz desaparecerem muitos lábios leporinos.

As pessoas que foram feridas por golpes com arma branca, além dos acidentados e dos mutilados constituem a sua clientela. Um dia, ele remenda com sucesso o dedo seccionado de um batedor de carteiras. Pitanguy lhe diz então: "Eu espero que daqui para frente, você não me assaltará, caso me encontrar na rua". "O senhor doutor vai me perdoar", responde o outro, sorrindo, "mas eu sou igual ao senhor, um profissional: eu não olho para o rosto daqueles que eu assalto".

Ivo Pitanguy nunca foi um profeta em seu próprio país. Por muito tempo, ele atraiu os comentários, um tanto marcados pelo desprezo e desabonadores, dos seus colegas de profissão que consideravam que ele estava perdendo seu tempo com essa "cirurgia do detalhe", pela qual, justamente, ele estava apaixonado, em vez de dedicar-se à única tarefa nobre aos seus olhos: a de combater a morte. "Os cirurgiões que me imitavam o faziam às escondidas", recorda-se.

Na época, ele enfrenta os preconceitos, a suspeição, o conservadorismo médico. Quando Juscelino Kubitschek (1902-1976), um amigo da sua família, torna-se o chefe do Estado, em 1956, ele lhe outorga uma subvenção para fundar o serviço de cirurgia plástica do qual o Brasil necessita. O projeto será prejudicado por atrasos constantes, vitimado pelo bloqueio armado por funcionários públicos: "Eu ignorava então que até mesmo um presidente da República poderia mostrar-se impotente frente à burocracia".

A partir dos anos 1960-1970, o culto do corpo triunfante, que se tornou um ideal universal, faz com que Ivo Pitanguy possa mostrar toda a extensão do seu talento. A habilidade sem igual com que ele manuseia o bisturi, daqui para frente promove a sua reputação e faz a sua fortuna. Ele redesenha os narizes, recola as orelhas e reabilita os seios, sendo procurado por príncipes, homens políticos e estrelas envelhecidas que passam temporadas discretas em sua clínica, situada no bairro de Botafogo.

É nesta clínica, em seu escritório, que ele gosta de receber suas visitas, sempre com música clássica como trilha sonora que ele toca em baixo volume, ao lado de uma sala repleta de diplomas, de medalhas e de troféus que ele recebeu nos quatro cantos do planeta. Sempre encantador, atencioso, e sem nunca dar mostras de qualquer espécie de vaidade. Ele gosta das pessoas, e isso se percebe logo no primeiro contato; e permanece, aos 82 anos, um homem que nutre uma grande curiosidade pela vida. Ele acredita mais do que nunca na sua profissão e não se cansa de argumentar a respeito.

Para ele, o que é a beleza? "Sentir-se bonito é estar em paz com a imagem que se tem de si mesmo. Por instinto, todo ser humano quer se parecer com os outros. Não existe, nesse campo, nenhum pequeno sofrimento. Toda e qualquer desgraça pode ser uma fonte de infelicidade. Seria cruel não tentar remediar ao problema". Contudo, nem por isso Ivo Pitanguy está à disposição para operar toda e qualquer pessoa que lhe fizer este pedido. O primeiro encontro com o paciente é decisivo: "Eu o observo, ouço o que ele tem a dizer, e o tranqüilizo. Caso a sua expectativa em relação ao que posso fazer por ele for excessiva, prefiro responder pela negativa. Caso o seu mal-estar for de ordem mental, eu o aconselho a ir ver Gisele, a minha filha, que é psicoterapeuta e dirige atualmente a clínica". Alguns deles chegaram a agradecê-lo por ele ter desaconselhado a realização de qualquer cirurgia.

Além disso, é claro, existe a multidão daqueles que "não sabem envelhecer". Ele tenta convencê-los de que "as rugas são indispensáveis para a dignidade do rosto". A correção do nariz é a sua operação predileta, a mais gratificante, tanto para o paciente quanto para o cirurgião. Contudo, por via de regra, ele não gosta muito de modificar o desenho geral do rosto. Em certos casos, ele acaba aceitando de bom grado, como no caso daquela senhora idosa que queria um lifting para ter "um semblante agradável" no dia da sua morte.

Ivo Pitanguy sempre recusou ser reduzido à imagem de "cirurgião da alta sociedade". Sempre às quartas-feiras, ele continua operando os pobres no hospital público, o que ele vem fazendo há meio-século. Este é "o meu lado Robin Hood", diz. Como todos os mestres, ele criou escola e transmitiu seu saber. De modo permanente, ele aceita a presença de uma dezena de estudantes em cirurgia, que assistem ao vivo às suas operações antes de praticarem por sua vez. Todos os anos, as suas centenas de antigos alunos se reúnem em congresso na sua clínica.

E ele mesmo? Será que ele não pensou, com a chegada da idade, em efetuar uma pequena "reforma", de leve, no seu semblante? "Sim, de vez em quando penso nisso", responde, abrindo um grande sorriso que ilumina até mesmo os amplos bolsos que tem sob os olhos, "mas, estou acostumado demais comigo mesmo". Jean-Yves de Neufville

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