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31/08/2008

Nomes que nos definem

Le Monde
Pascale Krémer
Uma jovem competente, gentil e além disso muito bonita. Mesmo assim, ela não consegue ser contratada como recepcionista. Seu defeito? Chamar-se Glaçon [gelo, em francês].

Tudo começa com essa anedota verídica contada por um recrutador. Nicolas Guéguen começa então a se indagar. Nosso nome e sobrenome têm uma influência em nossos comportamentos, no modo como nos percebemos e os outros nos percebem? Em suma, em nossa vida?

A influência é o campo de especialidade desse jovem quarentão que gosta de verificar todas as coisas que nos conduzem, e que não parecem nada.

Doutor em psicologia social (a psicologia aplicada às interações sociais), professor na Universidade Bretagne-Sud, diretor de um laboratório de pesquisa, Guéguen estuda há anos os processos de influência do comportamento de compra. Isso quer dizer que seu laboratório nada em ouro, as empresas brigam para formar parcerias com ele.

Mas voltemos à nossa personagem Glaçon. Cético, ele vai se informar. E descobre que nos EUA a influência dos nomes e sobrenomes é um verdadeiro tema de pesquisa desde o século 20. Pesquisas realizadas por psicólogos de renome, publicadas em revistas científicas sérias.

Na França, nada ou quase do lado da psicologia. Somente alguns sociólogos e demógrafos se dedicaram aos nomes. O tema é considerado banal demais, quase ligado à astrologia, analisa o pesquisador.

A partir de 4 meses

"Nos EUA, não são os temas que são considerados sérios ou não. É a metodologia de pesquisa", afirma Nicolas Guéguen, que decide mergulhar na abundante literatura americana, amplamente ignorada na França. Esta semana ele publica um livro, '100 Petites Expériences de Psychologie des Prénoms Pour Mieux Comprendre Comment Ils Affectent Votre Vie" [100 Pequenas Experiências de Psicologia dos Nomes Para Compreender Melhor Como Eles Afetam sua Vida; editora Dunod]. Uma resenha da pesquisa americana e das experiências que ele mesmo realizou nos últimos dois anos com estudantes, e cujos resultados são às vezes surpreendentes.
Hoje ele está convencido de que os nomes e sobrenomes "são os elementos mais intimamente, mais precocemente e mais duradouramente ligados à nossa pessoa. Eles participam da construção de nossa identidade", disse.

É a primeira informação que memorizamos quando crianças, que aprendemos a associar a nós mesmos, que transmitimos depois sobre nós mesmos, que nos diferencia. Palavras entre as que pronunciamos com maior freqüência ao longo da vida.

Os nomes e sobrenomes, ele diz, "grudam na pele". Os americanos demonstraram que um bebê de 4 ou 5 meses sabe diferenciar seu nome de outro parecido. E que reagimos à menção de nosso nome mesmo quando estamos adormecidos ou inconscientes.

O que aprendemos com esse livro? Que nossas reações diante dos nomes variam em função de um dado fundamental, a "desejabilidade social": nem todos são igualmente apreciados. Tudo depende dos estereótipos ligados a eles e de sua freqüência de utilização. Evidentemente, o nome é um marcador social. Ele permite supor o grupo social a que alguém pertence e assim ativa os estereótipos que associamos, conscientemente ou não, a esse meio.

"Segundo nossa classe social, atribuímos diferentes registros de nomes a nossos filhos", resume o psicólogo. "Por exemplo, nos anos 1970 e 1980, a elite usava nomes compostos para se distinguir. Hoje ela prefere os que mergulham nas raízes históricas (Balduíno, Teófilo, Filomena). Mas o que é notável é a eficácia dessa estratégia: as pessoas, qualquer que seja seu meio, estão totalmente em condições de associar esses nomes a um meio social de origem. Elas são clarividentes", afirma.

Os estudantes aos quais pedimos que analisem avisos de nascimento no jornal "Libération" ou no concorrente "Le Figaro" quase não cometem erros. Outra experiência: os jovens cuja missão será telefonar para Apolline de la Roche Beaulieu prestarão atenção ao seu vocabulário e estarão um pouco tensos. Pois as representações influem no comportamento.

A "desejabilidade social" de um nome também varia em função de sua freqüência. Na medida em que aumentamos seu emprego, que eles adquirem um caráter estável, reconfortante, e se tornam clássicos, os nomes são mais apreciados. "E aí chegamos à teoria da familiaridade em psicologia", explica Nicolas Guéguen.

"Os estímulos aos quais somos expostos freqüentemente nos agradam mais. O que nos é familiar é mais simpático. Uma simples variação ortográfica do nome provoca uma percepção menos positiva."

Seremos então mais tentados a ajudar as pessoas que têm nomes comuns, agregadores (Antoine, Jeanne), ou mais próximos do nosso ou dos de nosso entorno.

A prova disso? Quando pedimos por e-mail aos estudantes de uma universidade que eles respondam a um questionário, 72% aceitam o pedido se o nome do solicitante for igual ao deles, contra 44% se o nome for totalmente diferente. A porcentagem sobe para 96% em caso de semelhança do sobrenome.

"Daqui a alguns anos essas pesquisas certamente serão exploradas por teleoperadoras", prevê Guéguen. "Elas se adaptarão em função do nome e sobrenome do interlocutor."

Aliás, ele nos diz incidentalmente, a influência desse sentimento de familiaridade não pára nos nomes. Os vendedores de certas grandes lojas são treinados para imitar os clientes, pois seguimos com maior disposição as recomendações de quem emprega as mesmas palavras e gestos que nós.

Vantagem psicológica

Esse grau de apreciação do nome e sobrenome, que geralmente causa consenso na sociedade, tem um impacto direto sobre o nível de auto-estima, comenta o pesquisador, assim como nos comportamentos e julgamentos do outro. "O caráter melodioso ou musical da pronúncia de um nome ou sobrenome poderia constituir uma vantagem para seu portador. A beleza do prenome afeta a avaliação da atração física de uma pessoa."

Segundo a experiência feita, os mesmos rostos fotografados são julgados mais ou menos bonitos conforme o nome indicado embaixo da foto. Em uma eleição, como constataram pesquisadores americanos, um nome simples e claro, que permite uma articulação fluida, pode dar vantagem a um candidato.

As pessoas cujos nomes são apreciados "recebem mais reforços sociais positivos, têm mais interações sociais com seus pares, são mais populares", garante o psicólogo. Tome uma criança de 3 ou 4 anos. Lhe perguntamos como se chama. Se ela tiver um nome comum, as pessoas vão interagir com ela, chamá-la de bonita, acariciar seus cabelos, ajoelhar-se ao seu lado para falar com ela. Se for uma garota chamada Filomena, haverá um certo distanciamento físico. Em longo prazo, esses reforços de estima têm um impacto na natureza e na intensidade das relações sociais."

Essa é uma lição constante de mais de 30 anos de pesquisa nos EUA: um nome muito singular pode ser uma desvantagem. Principalmente no caso de meninos (que normalmente recebem nomes mais convencionais que as meninas), a menos que pertençam à elite social ou possam usar um apelido agregador.

Estatisticamente, um nome raro, pouco apreciado por seu portador, revela com maior freqüência que um nome comum ter ligações com disfunções comportamentais e distúrbios psicológicos.

"Nomes e sobrenomes são elementos de caracterização da pessoa, seja em particular (o que pensamos de nós mesmos) ou em público (o que pensamos que os outros pensam de nós). Mas essa percepção pode facilitar ou não nossa adaptação social e nosso equilíbrio psicológico", decifra Guéguen. Ele não esconde uma outra leitura possível da correlação estatística revelada: a atribuição de um nome incomum ou ridículo é muitas vezes um ato de pais neuróticos, que levaria ao surgimento dessa tendência na criança sob o peso da educação?

O grau de apreciação do nome também tem um valor preventivo em termos de sucesso escolar, demonstram os pesquisadores americanos. Os nomes mais freqüentes são estatisticamente os dos jovens que conseguem os melhores diplomas. A auto-estima influi, é claro, mas o nome também ativa outras expectativas entre os professores, em função dos estereótipos que ele veicula. E portanto modifica a percepção do rendimento do aluno, a maneira de interagir com ele. Estigmatizamos mais os comportamentos indesejáveis das crianças cujos nomes são pouco apreciados.

Interesse dos industriais

Nicolas Guéguen, que conhece bem o mundo do recrutamento por dirigir um escritório profissional de recursos humanos, também constatou que certos nomes ou sobrenomes induzem mais ou menos respostas a uma oferta de emprego.

As discriminações ligadas à origem étnica do sobrenome, ou simplesmente do nome, são incontestáveis. Mas fora isso certos nomes tornam um currículo mais atraente no inconsciente do recrutador.

Charles-Edouard vale mais que Charles, por exemplo. Jordan, Brendan, de conotações muito populares, são difíceis quando se busca um emprego graduado na França. E para um cargo de comunicação Mathieu Pocard de Cosquer de Kerviler terá mais vantagem que Mathieu Pocard. Para um cargo de funcionário do departamento de esgoto a preferência se inverte. "Parece que na cabeça dos avaliadores certos sobrenomes se relacionam mais ou menos bem com certas funções."

Mais surpreendente ainda, os sobrenomes parecidos com um adjetivo qualificativo (Briant [brioso], Lachance [sorte]) ou portadores de uma conotação simbólica afetam nosso julgamento. "Nós colocamos classificados em um jornal, de professores de matemática oferecendo reforço escolar", conta Guéguen. "Ora, o sr. Py foi de longe o mais solicitado! Aparentemente, as pessoas agem como se o nome tivesse uma propriedade um pouco divinatória das aptidões de seu dono." Você é dentista e quer aumentar sua clientela? Mude seu nome para Ladouceur [suavidade].

As letras do alfabeto que preferimos são as de nossos nomes e sobrenomes. "Egoísmo implícito", diz o pesquisador. "O que se refere a nós mesmos é preferido em nossas opções. Essas letras estão tão profundamente associadas à percepção de nós mesmos que orientam automaticamente nossas atividades de julgamento."

Acreditávamos ter boas razões para escolher este ou aquele produto, mas somos simplesmente influenciados pelas primeiras letras de seu nome, ou suas características alfabéticas, próximas das nossas. Os industriais não vão demorar a se interessar de perto pelos nomes mais comuns. Um fabricante de carros já perguntou a Guéguen como devia batizar seu novo veículo.

Tendência para nomes curtos e raros

Em 2007, os nomes masculinos mais escolhidos na França foram Enzo, Mathias, Lucas, Hugo. Para meninas, Emma, Léa, Manon, Camille. Os nomes perdem letras com o tempo, ficam cada vez mais curtos: uma palavra de duas sílabas torna-se a referência, em sintonia com uma época em que a informação deve ser rápida e sonora. O uso de nomes compostos caiu drasticamente.

O calendário dos santos está ultrapassado: o leque de nomes é cada vez maior. Em 1970, Nathalie representava quase 5% das opções, enquanto em 2000 Léa foi escolhido apenas em 2,5% das vezes. Essa diversificação resulta da individualização crescente de nossa sociedade, segundo os sociólogos.

Os pais querem singularizar seu filho, o que permitiu o abrandamento da legislação ocorrido em 1991. Daí o crescimento de nomes muito raros.
Geralmente os pais atribuem nomes mais convencionais aos meninos que às meninas, aos mais velhos que aos caçulas.

Como todos os ciclos de moda, o ciclo de vida dos nomes está encolhendo.
Duas tendências aparentemente contraditórias convivem, também notadas nas práticas de consumo: os nomes se globalizam, os pais cada vez mais encontram inspiração nas línguas estrangeiras, mas os nomes regionais reencontram o sucesso. Última prática na moda: personalizar o nome da criança usando variações ortográficas. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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