UOL Notícias Internacional
 

31/08/2008

O mistério de Durham: Amor, crime e vídeos

Le Monde
Raphaëlle Bacqué
Em Durham, Estados Unidos
Na sexta-feira, 22 de agosto, ela havia comparecido mais uma vez no locutório da prisão. A cada dois ou três meses, Sophie Brunet toma o vôo transatlântico Paris-Durham, atravessa a campanha americana da Carolina do Norte, caminha ao lado dos grandes rolos de arame-farpado que cercam o centro de detenção e se apresenta na entrada da prisão de Nash. Dezessete viagens em quatro anos para três sessões de duas horas de conversa, no melhor dos casos, sem nenhuma intimidade verdadeira, em companhia de outros detentos. Os guardas acabaram achando normal o fato de controlar seu passaporte francês: "É rotina. Visitantes do mundo inteiro andaram aparecendo para conversar com Michael Peterson", comentam os funcionários. "Isso não surpreende, ele é um pouco a nossa estrela..."

A história deste escritor, branco, rico e liberal, acusado do assassinato da sua mulher e condenado em 2003 à prisão perpétua - sem prova alguma, nem testemunha, e sem que se tivesse encontrado a arma do crime -, inspirou um episódio do seriado televisivo de sucesso "CSI - Crime Scene and Investigation"; além de cinco livros e de uma quantidade avassaladora de artigos na imprensa americana. Ela também forneceu material para um formidável documentário - "The Staircase" (exibido no Brasil em 2005 pelo canal GNT sob o título "Morte na Escadaria") -, realizado pelo jornalista francês Jean-Xavier de Lestrade, vendido para emissoras de mais de trinta países e regularmente reprisado no mundo inteiro.

Sophie Brunet trabalhou na montagem do filme. Até então, de Michael Peterson, ela nada conhecia. Lestrade, por sua vez, após meses de pesquisas, havia conseguido farejar a incrível história deste sexagenário dotado de muito humor, um intelectual burguês meio boêmio que negava ter assassinado sua mulher. "Qualquer um pode acabar mudando de opinião a seu respeito em cinco minutos, inclusive um jornalista, e considerá-lo como terrivelmente perigoso ou totalmente incapaz de matar sua mulher".

De antemão, o caso apresenta todos os elementos de um thriller. E um cenário de cinema perfeito: um vasto casarão branco, elegante, situado num loteamento residencial isolado, a algumas centenas de metros dos bairros negros e pobres de Durham. Foi lá, à beira da piscina, que Michael e Kathleen Peterson se instalaram naquela noite de 9 de dezembro de 2001 para terminarem a noite e uma segunda garrafa de vinho, em meio à suavidade do inverno neste Estado do sul dos Estados Unidos. Por volta das 2h da manhã, Michael Peterson ligou para um número de emergência, em pranto e tomado pelo pânico. Kathleen jazia ao pé da escada de serviço, em meio a uma poça de sangue. Ela tinha 0,7 grama de álcool no sangue. Algumas horas antes, ela havia tomado Flexidril, um banal analgésico. O médico que foi enviado para o local conclui que ela morreu das conseqüências de uma hemorragia, provocada por uma queda.

O casal que ela formava com Michael Peterson, um segundo casamento para ambos, tinha a reputação de estar muito unido. Contudo, a polícia encontrou nos arquivos do seu computador alguns e-mails explícitos, enviados por Michael Peterson para homens prostitutos. Por muito tempo, Peterson havia mantido no "Herald Sun", o jornal regional, uma crônica muito lida na qual ele fustigava as insuficiências da Justiça e da polícia. Em relação ao seu caso, estas últimas se mostram decididas a atuarem com celeridade. A autópsia chegou então à conclusão de que fora provavelmente um assassinato. E, apesar das negações enérgicas do escritor, este último foi indiciado.

Lestrade havia achado finalmente uma personagem para o seu filme. Peterson, acusado, porém livre, tomou a decisão de investir uma parte da sua fortuna na contratação de uma armada de advogados e aceitou que a equipe francesa filmasse a batalha judiciária que estava se travando. Diante da total inexistência de provas, ninguém duvidava de que o escritor seria absolvido. Do outro lado do Atlântico, na penumbra de uma pequena sala de montagem parisiense, o relato da instrução, e depois, do processo estrondoso, seria construído, de maneira quase que simultânea.

Assim como faz o fotógrafo no filme "Blow-Up - Depois Daquele Beijo" (1966), de Michelangelo Antonioni, quando descobre um assassinato através de um detalhe numa das suas fotos, Sophie Brunet analisa minuciosamente, portanto, dia após dia, os detalhes do inquérito. Nas fitas da filmagem que lhe são regularmente enviadas, ela reparou desde já a cena em que o procurador Jim Hardin e sua adjunta Freda Black comentam demoradamente uma bissexualidade que Peterson nunca negou. Isso não faz dele um assassino. Mas, está claro que a acusação acaba de encontrar uma das suas armas mais poderosas: a imagem do casal ideal está rachada.

Aliás, em Durham, cada dia traz um sem número de reviravoltas das quais se aproveita a pequena equipe que está filmando. Isso porque a polícia começou a vasculhar no passado do acusado. E nele encontrou o suficiente para estimular a tese da sua culpabilidade. Dezoito anos mais cedo, Liz Ratliff, a amiga íntima do casal que Michael formava então com a sua primeira mulher, Patty, fora encontrada morta no pé da escada do seu domicílio. A autópsia havia concluído que se tratava de um caso de morte natural em conseqüência de uma ruptura de aneurisma. Mas, Michael Peterson era a única pessoa a tê-la visto com vida na noite do dia anterior. Diante disso, alguns dias antes do processo, o corpo da amiga defunta é exumado na presença de um exército de jornalista. Procede-se então a uma nova autópsia.

Dezoito anos depois dos fatos, a morte de Liz Ratliff, cujas duas filhas haviam sido adotadas por Peterson, tornou-se suspeita. O que acabou delineando mais ainda o retrato de Peterson que, desta vez, se viu transformado num possível "serial killer das escadas".

Em Paris, no seu telão de montagem, Sophie Brunet escruta todo dia as imagens do escritor, filmado em sua casa. A tal ponto que ela tem a impressão, diz ela sorrindo, "de passar a maior parte da minha vida acordada dentro da cozinha de Michael". No começo, ela não tinha certeza alguma da sua inocência. Mas agora que ela o vê se debatendo em meio a esse furacão judiciário e chorando a morte da sua mulher, ela está certa de que ele não foi capaz de assassiná-la. Por trás dos seus lábios que se crispam, de um olhar que ele deixa escapar, ela tem o sentimento de adivinhar cada um dos seus pensamentos. Ao longo das 750 horas de filmagens às quais assistiu, ela viu um homem sucessivamente generoso, culto, movido por um amor profundo pelos seus filhos e até mesmo pela filha que Kathleen tivera de um primeiro casamento. Ela pôde apreciar o humor de Peterson, aquela maneira com que este homem, por ser um especialista da narrativa, acaba abordando com certo distanciamento sua própria aventura. "Tornou-se impossível imaginá-lo como sendo um assassino", confirma Isabelle Razavet, a chefa operadora do documentário. E isso, apesar das imagens aterradoras de Kathleen, banhando no seu próprio sangue. E ainda, apesar das sete marcas de laceração que foram constatadas sobre o seu crânio. Contudo, os especialistas da defesa sublinham a inexistência de fraturas. A sua demonstração parece ser implacável: não houve qualquer agressão por meio de um objeto contundente.

É um processo de grande vulto que se desenrola em Durham. Um processo sensacional por conta da personalidade e da notoriedade do acusado. Um processo excepcional porque ele envolve um branco, perante um júri majoritariamente negro, numa cidade corroída pela segregação. Toda noite, na Court TV, o canal de televisão local especializado nos casos judiciários, tem-se a impressão de se estar assistindo a uma segunda audiência no decorrer da qual as horas fastidiosas de debates entre peritos tornam-se de repente o cenário palpitante de um potencial crime conjugal. Mas, no recinto do fórum de Justiça, nem a acusação nem a defesa acreditam verdadeiramente que Peterson possa ser condenado sem prova.

Contudo, os doze membros do júri permanecem trancados durante cinco dias para deliberar. Lestrade e sua chefa operadora obtiveram a autorização para filmarem toda noite a sala que protege suas deliberações, tão logo eles se retiraram para refletir. O cineasta e sua assistente enxergam o resultado das suas votações, rabiscados numa lousa. Na primeira noite, eles contaram quatro "guilty" (culpado), três "not guilty" e cinco indecisos. Mas, dia após dia, a dúvida parece instaurar-se.

Em meio a um silêncio gélido, em 10 de outubro de 2003, o dia do veredicto, Michael Peterson é condenado à prisão perpétua. Os seus filhos estão devastados pela tristeza. O advogado, David Rudolf, está aturdido. Até mesmo o procurador Hardin e sua adjunta, Freda Black, parecem estar espantados. Atrás das suas câmeras, Lestrade e sua equipe estão transtornados.

Em Paris, avisada por telefone, Sophie Brunet está profundamente abalada. Quarenta e oito horas de lágrimas e de uma tristeza espetacular lhe revelam sentimentos que ela ainda não havia confessado para si mesma. O pequeno mundo do cinema, que pensava conhecê-la, a descobre sob um aspecto totalmente diferente. "Uma montadora que se apaixona pelo personagem principal de um filme, isso não é nem um pouco banal. . .", comenta o cineasta Bertrand Tavernier, que trabalhou com freqüência com ela. No meio cinematográfico, o caso vai alimentando as imaginações. Isso daria um roteiro tão incrível, se somente ela aceitasse... Ela responde pela negativa: Sophie recusa-se a tornar-se a heroína desta história que está muito acima da sua pessoa. Mas a sua aventura não demora a tornar-se o símbolo empolgante dos cineastas que acreditam na força da imagem.

Michael Peterson, por sua vez, ainda ignora totalmente a existência desta observadora à distância. Ele só vai descobri-la recebendo em sua cela, um mês depois da sua condenação, a edição em inglês de "Em Busca do Tempo Perdido", de Marcel Proust, acompanhada de uma carta. "Nela, eu lhe expliquei simplesmente", conta, "aquele fenômeno estranho próprio da minha profissão que faz com que a gente acabe se encontrando com um homem que desconhece a nossa existência e que nunca nos viu". A sua relação epistolar começa então.

No locutório da prisão, onde ele aparece trajando o uniforme cinza claro dos prisioneiros, Michael Peterson reconhece hoje sem rodeios a espanto que tomou conta dele ao receber o livro e a carta: "Primeiro, eu pensei que ela tivesse feito de mim uma espécie de Pigmalião [personagem lendário que esculpiu uma mulher, pela qual se apaixonou, até o dia em que a estátua que ele beijava se tornou uma mulher de verdade, graças à intervenção da deusa Afrodite], olhando para a minha pessoa por horas a fio no escuro. Então, eu acabei aceitando esse ímpeto, como se fosse um milagre. Era a prova de que eu ainda fazia parte da humanidade".

No centro de detenção de Nash, onde ele está concluindo seu quinto ano de reclusão, as paredes da sua cela estão cobertas por fotos de Kathleen e de Sophie. Ele não está autorizado a assistir a DVDs. Por conta disso, nunca assistiu ao documentário que foi realizado sobre a sua história. Mas ele recebe toda semana centenas de cartas de telespectadores do mundo inteiro, todos eles transtornados por este filme que argumenta senão em favor da sua inocência, ao menos contra a sua condenação sem prova. Ainda assim, Peterson dele conhece de cor e salteado cada uma das molas romanescas. Cada uma das reviravoltas que acabaram fazendo da narração da sua experiência judiciária um formidável romance policial. "Como escritor, eu já sabia que não é a verdade que os protagonistas procuram durante um processo", reconhece, "mas sim a vitória de uma ou da outra das partes".

O processo o deixou arruinado. A sua condenação deixou os seus filhos arrasados. A filha que Kathleen tivera de um primeiro casamento se voltou contra ele. O seu advogado, David Rudolf, foi vítima de uma depressão e converteu-se num advogado de negócios. Sucessivamente, os processos de apelação, e depois, um recurso perante a Corte Suprema da Carolina do Norte fracassaram. Além disso, uma grande parte da população de Durham acabou se convencendo da culpabilidade daquele que no passado era o seu escritor mais famoso. "As chances de fazer com que o caso seja reexaminado são muito limitadas, daqui para frente", reconhece Tomas Maher, um dos advogados que travaram a batalha em seu favor.

Mas, os amigos de Peterson não se deram por vencidos. Sophie Brunet, que desde então se divorciou, descobriu todos eles quando mergulhou no mundinho desta cidade desprovida de charme, que ela só tinha visto em imagens. E esse pequeno grupo heteróclito está escrevendo atualmente um curioso capítulo para uma história que todos achavam encerrada.

Desse grupo, Roey Hume é certamente a figura que mais chama a atenção. Esta australiana, uma mulher de diplomata, escrevia em Sydney roteiros para novelas policiais. Como todos aqueles que argumentam em favor da inocência de Peterson, ela assistiu ao documentário de Jean-Xavier de Lestrade. Determinada, ela dispõe de tempo livre e conta com uma pequena reserva de dinheiro. Com isso, ela tomou a decisão, seis meses atrás, de se instalar em Durham, uma cidade que ela não conhecia. Lá, em meio à total bagunça do seu pequeno apartamento, ela empreendeu reler cada uma das peças do dossiê, apontando os erros de instrução, o fato de a coleta de indícios ter sido efetuada de qualquer maneira e às pressas, a politização dos juízes.

"O procurador Jim Hardin", denuncia Hume, "realizou toda a sua campanha eleitoral para o cargo de district attorney (nos Estados Unidos, os juízes são eleitos) valendo-se do caso Peterson como de um exemplo de violência doméstica entre os ricos". Na Carolina do Norte, ela também não demorou a entrosar-se com as pessoas que apóiam Peterson. Foi assim que conheceu Larry Pollard. Ele era o vizinho de Michael e Kathleen. E ele representa sem dúvida a derradeira chance para Peterson recobrar sua liberdade.

Ao estudar, ainda e sempre, as fotos de laceração do crânio da vítima, Pollard, um advogado de negócios que tem como hobby a caça, elaborou uma nova hipótese, totalmente inesperada: "Kathleen poderia ter sido atacada do lado de fora da casa por uma ave de rapina, um pássaro noturno, uma coruja cujas garras lembram exatamente as lacerações em forma de tridente que foram constatadas. Existem muitas dessas aves por aqui", explica, apontando para os grupos de bordos e de bambus gigantescos que cercam a sua casa e aquela dos Peterson, que hoje já foi vendida. "Ferida e chocada, Kathleen teria entrado precipitadamente dentro da casa, teria tentado subir até o banheiro no andar de cima e teria caído na escada onde, desmaiada, ela teria pedido seu sangue".

Uma coruja que surge num caso como este? Inicialmente, a teoria de Pollard suscitou apenas certa ironia por parte da imprensa. Mas o pequeno grupo de defensores de Michael Peterson começou desesperadamente a coletar, ao longo de meses, tudo o que foi possível encontrar a respeito dos ataques de aves de rapina. Nos mais diversos lugares pelo mundo afora, eles encontraram casos, vídeos, testemunhos. Em Paris, os amigos cineastas de Sophie pensaram imediatamente no filme "Os Pássaros", o clássico de Hitchcock. . .

Como conseguir detectar uma prova plausível, cinco anos depois da condenação? Neste verão, eles recuperaram suas esperanças. Na quinta-feira, 21 de agosto, em Durham, por ocasião de uma coletiva de imprensa que eles organizaram, e diante de Jean-Xavier de Lestrade, que retornou especialmente para filmar a cena, eles revelaram aquilo que haviam descoberto ao relerem o dossiê por inteiro. Num dos relatórios do laboratório que procedeu à autópsia, no meio de uma lista de elementos que nunca foram analisados, eles finalmente encontraram o que eles tanto procuravam: na mão esquerda de Kathleen foi encontrada, apertada entre os dedos, uma minúscula pena que se misturava com os seus próprios cabelos ensangüentados...

Tradução: Jean-Yves de Neufville



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