UOL Notícias Internacional
 

03/09/2008

Chipre do Norte, uma "mini-Turquia" militarizada, abriga uma zona de não direito dentro da União Européia

Le Monde
Guillaume Perrier
Em Nicósia, Chipre
Por toda a extensão da estrada litorânea que corre ao norte de Famagusta, a orla está dissimulada atrás de altos muros. Placas trazem a seguinte advertência: "Zona militar; é proibido fotografar". Algumas sentinelas estão sendo cozidas pelo calor no interior das suas guaritas. Quilômetros de praias deste litoral orientado para a região costeira libanesa foram confiscados. Incontáveis quartéis estão espalhados pelo pequeno território da República Turca de Chipre do Norte, que ocupa um terço da ilha em sua parte setentrional.

Este território permanece anexado pelos militares turcos desde 1974. Nenhum país, excetuando-se a própria Turquia, reconhece a sua existência. Os cipriotas gregos falam em "zona ocupada". Desde que eles desembarcaram, naquela época, para proteger os cipriotas turcos de exações que haviam sido cometidas pelas milícias gregas, cerca de 40 mil soldados permanecem até hoje estacionados em Chipre. A proporção é de um soldado para cada seis habitantes. Para um oficial turco, o fato de ser transferido para Chipre representa uma promoção invejável: o seu soldo é dobrado. O clima mediterrâneo e a calma que reinam na ilha dão a impressão de se estar num acampamento de férias.

Após 35 anos de ocupação, a República Turca de Chipre Norte tornou-se um anexo de Ancara. A bandeira local é um decalque em negativo da bandeira turca. O hino nacional, a moeda e o culto de Mustafa Kemal (1880-1938, o fundador da República da Turquia) são retomados de maneira idêntica. A economia permanece totalmente dependente de Ancara. O correio é encaminhado a partir do porto turco de Mersin.

Aos poucos, cerca de 50 mil colonos e milhares de trabalhadores imigrantes vindos da Anatólia foram transformando a estrutura da população. Os camponeses impuseram seu modo de vida, diferentemente daquele dos cipriotas, que se sentem reduzidos a uma minoria. A prática religiosa, que era quase inexistente antes de 1974, tornou-se ostensiva com a construção de mesquitas, com a implantação de cursos de ensino do Alcorão e a distribuição de alimentos para o ramada...

"Na área central da capital Nicósia, ainda vivem cerca de 15% de cipriotas turcos", constata o demógrafo Mete Hatay. "Os outros se mudaram para bairros periféricos. Aldeias inteiras de colonos foram construídas por todos os cantos da ilha". Com isso, as enormes diferenças que já existiam entre os cipriotas e os turcos foram aumentando de maneira irreversível.

Bancos "offshore"

Para os diplomatas turcos, os postos em Nicósia-Norte figuram entre os mais prestigiosos. Pela janela do seu escritório, onde dossiês estão amontoados e onde cinzas de cigarros estão espalhadas por todos os lados, o jornalista e dissidente Sener Levent aponta para o outro lado da rua. "O verdadeiro poder não está ali, no Parlamento cipriota turco, mas sim na embaixada da Turquia". Este intelectual rebelde, que já foi alvejado por duas tentativas de assassinato e chegou a ser encarcerado durante vários meses, não se cansa de despejar suas críticas contra o exército turco. A manchete do dia do "Afrika", o jornal em que trabalha, anuncia: "O governo é uma marionete dos militares".

Na segunda-feira, 1º de setembro, a República Turca de Chipre do Norte proibiu a passagem de um grupo de peregrinos que queriam atravessar a fronteira para assistirem a uma missa ortodoxa em Morfou. O incidente, do qual Sener Levent atribui a responsabilidade ao exército turco, provocou a cólera da população, e "está envenenando o clima" das negociações que terão início na quarta-feira (3), segundo declarou um porta-voz do governo cipriota grego. "Em 2004, os cipriotas turcos sonharam em fazer parte da Europa", constata um diplomata europeu. "Mas o que eles temem mesmo é um novo fechamento do país".

A República Turca de Chipre do Norte continua sendo uma zona de não direito, esquecida no contexto da União Européia. Os cerca de quarenta cassinos que ela abriga, mantidos por assessores do governo turco ou por oficiais do exército aposentados, os seus diversos bancos "offshore" (situados fora do território metropolitano), além dos seus prostíbulos e das suas agências de apostas desportivas, fazem dela um local privilegiado para a lavagem de dinheiro, abençoado por todas as máfias da região.

Milhares de casas de veraneio, de concreto, foram construídas em função de um mesmo modelo, como se fosse numa linha de montagem industrial, à beira da orla até então virgem do norte, na maioria dos casos em terrenos espoliados a cipriotas gregos e revendidos para aposentados britânicos à procura de exotismo barato. Os criminosos ingleses foragidos também fizeram da região seu refúgio, já que nela não correm riscos de serem extraditados. Foi assim que o paradeiro de Sean Lupton - o autor do mais importante assalto a banco já cometido na Grã-Bretanha, que fugiu levando consigo 32 milhões de libras (cerca de R$ 95 milhões) - acabou sendo descoberto em Chipre do Norte no início de 2008.

As negociações diretas são retomadas

Pela primeira vez desde 2004, quando fracassou o plano de paz proposto por Kofi Annan, o ex-secretário-geral da ONU, as negociações diretas entre as duas partes de Chipre vão ser retomadas, na quarta-feira, 3 de setembro, sob a coordenação das Nações Unidas. O presidente cipriota grego, Demetris Christofias, que foi eleito em fevereiro com a promessa de uma retomada das negociações, e o líder cipriota turco, Mehmet Ali Talat, reabrirão simbolicamente as negociações que terão por meta uma reunificação das duas metades da ilha, que permanecem separadas pela Linha Verde desde 1974.

Tão logo foi eleito, Demetris Christofias havia se reunido com Mehmet Talat, instaurando uma retomada do diálogo. Grupos de estudos integrados por representantes de ambas as comunidades foram criados. Deles participaram também colaboradores dos dois presidentes. Juntos, eles abordaram todas as questões sensíveis, tendo em vista um acordo de paz. As negociações agora vão prosseguir. Mehmet Talat disse prever que um acordo seja celebrado "daqui até o final do ano", embora nenhum cronograma tivesse sido adotado. Jean-Yves de Neufville

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