UOL Notícias Internacional
 

03/09/2008

Poder aquisitivo e violência, a perigosa volta de Gordon Brown

Le Monde
Marc Roche
Em Londres
O tempo urge para Gordon Brown, que nunca foi tão impopular. Apesar do desejo de conduzir seu programa de reformas, o primeiro-ministro trabalhista, que tomou posse em junho de 2007, é obrigado a avançar com precaução. Cinco casos urgentes o aguardam, e arriscam prejudicar a frágil coesão do New Labour.

A prioridade é a proteção do poder aquisitivo. No rastro da crise imobiliária, os riscos de recessão aumentam, com a inflação em seu mais alto nível em 16 anos e um desemprego que voltou a crescer. O ministro do Tesouro, Alistair Darling, não se mostra mais tranqüilizador. Ele estima que a desaceleração que afeta seu país, assim como o resto do mundo, é "a mais grave dos últimos 60 anos" e que será "mais longa do que se previa". Suas declarações provocaram uma nova crise de fraqueza da libra esterlina na última segunda-feira (1º).

Nesse contexto, o governo deve ajudar com prioridade as famílias mais vulneráveis. Ele quer oferecer uma ajuda para o aquecimento às que são mais afetadas pelo aumento das tarifas de eletricidade e gás. Seu projeto inicial era taxar os "superlucros" das companhias energéticas, mas teve de renunciar devido à hostilidade do patronato e da City. Gordon Brown deverá convencer essas empresas a oferecer tarifas vantajosas para os usuários menos favorecidos.

A recuperação do setor imobiliário, outra prioridade, poderá ser objeto de um plano especial a partir dos próximos dias. O Ministério das Finanças deveria optar por uma ajuda aos conselhos municipais a fim de socorrer as famílias incapazes de pagar seus empréstimos hipotecários.

Segunda urgência: a segurança do suprimento energético. No âmbito de sua estratégia de retomada do nuclear, o governo pretende relançar o projeto de aproximação entre a produtora de energia nuclear British Energy (BE) e a francesa Electricité de France (EDF). O Estado britânico poderia ceder à EDF 35,2% do capital que detém na BE, forçando a mão dos outros acionistas que discordam das condições financeiras. Aliás, Brown deve preparar o segundo capítulo da Conferência Mundial sobre Energia, prevista para se realizar em Londres.

"O Reino Unido não tem mais política externa real": segundo o jornal "Daily Telegraph", o Ministério das Relações Exteriores se preocupa com o pequeno interesse do primeiro-ministro pela política externa. Totalmente ausente da crise do Cáucaso, a diplomacia britânica se recuperou em 27 de agosto, advertindo a Rússia e prometendo seu apoio à Ucrânia.

Sobre a construção européia, Londres continua exibindo um perfil discreto. Consciente do euroceticismo crescente da opinião pública e do papel desempenhado pela imprensa Murdoch na vitória do "não" na Irlanda, Gordon Brown quer a todo preço evitar que a presidência francesa pressione Dublin a organizar uma nova consulta.

A eleição presidencial americana é outro campo minado para Brown, ideologicamente próximo do candidato democrata, Barack Obama, mas obrigado a demonstrar uma total neutralidade para preservar o futuro.

Quarto assunto delicado: as questões sociais. A oposição conservadora dá destaque à "broken society" (sociedade partida), ilustrada pela onda de assassinatos de jovens com armas brancas, o culto à bebedeira, a desintegração familiar e a marginalização dos aposentados pobres. O Ministério do Interior deveria reforçar os poderes da polícia e dos juízes, ao mesmo tempo facilitando a ação do movimento associativo. Os imperativos orçamentários, no entanto, diminuem o campo de ação das autoridades.

Um remanejamento ministerial deverá ocorrer. No plano político, uma mudança ministerial de alcance limitado é esperada para o outono, que será dominado pelo congresso do Partido Trabalhista em Manchester e a apresentação do pré-orçamento. Os adversários de Brown, que faziam de franco-atiradores depois das derrotas em série nas eleições parciais, parecem ter entrado na linha. Os candidatos a sua sucessão, que salientavam sua "diferença", deverão se mostrar leais e disciplinados até as eleições gerais esperadas para 2010 no máximo. Nesse mar agitado, todos são convidados a se manter tranqüilos. Por quanto tempo? Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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