UOL Notícias Internacional
 

04/09/2008

Um escândalo de escutas ilegais abala a cúpula do Estado brasileiro

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
No Rio de Janeiro
Um escândalo de escutas ilegais que envolvem membros da cúpula do Estado brasileiro conduziu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em nome da "transparência", a afastar Paulo Lacerda, o chefe da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). Este último foi substituído, na terça-feira, 2 de setembro, por um dos seus colaboradores.

O escândalo veio à tona no sábado (30/8), quando a revista semanal "Veja" revelou que funcionários da ABIN haviam grampeado o telefone de Gilmar Mendes, o presidente do Tribunal Supremo Federal (STF). Além deste último, ministros e parlamentares, entre os quais se inclui o presidente do Senado, também foram vítimas do excesso de zelo das "grandes orelhas" do serviço secreto do Palácio do Planalto. Segundo o deputado Marcelo Itagiba (PMDB/RJ), as escutas legais vêm passando por um processo continuado de "banalização" no Brasil - uma vez que mais de 400 mil "grampos" foram autorizados pela Justiça em 2007 - enquanto as ilegais "se multiplicaram".

De modo corriqueiro, as gravações costumam ser destruídas após terem sido aproveitadas. Aquela gravação que havia sido obtida pela "Veja" fora efetuada no quadro de um inquérito conduzido pela ABIN e pela Polícia Federal, que estavam investigando um caso de corrupção. O ministro Gilmar Mendes disse ser vítima de uma "total carência de controle do aparelho do Estado", e de procedimentos dignos de um "regime totalitário".

Essas revelações obrigaram o chefe do Estado a tomar uma atitude, uma vez que a ABIN depende diretamente da Presidência da República. Afirmando estar "indignado" e "preocupado", o presidente Lula deu ordem à polícia para desmascarar aqueles que foram os mandantes dessas escutas. Num primeiro momento, o general Jorge Felix, que dirige o serviço de segurança da Presidência, procurou inocentar a ABIN, que, "na sua qualidade de instituição, não costuma fazer nem nunca fez tais coisas". Mas, perante uma comissão do Parlamento, ele acabou admitindo que funcionários do serviço de inteligência pudessem ter interceptado conversas e tê-las transmitido para a imprensa.

Para o presidente Lula, o que mais importa é demonstrar que ele nada tem a ver com essas práticas ilegais. Caso ele alcançar rapidamente este objetivo, o escândalo perderá sua capacidade potencial de causar danos. No caso contrário, o caso poderia prejudicar o bom desempenho do seu Partido dos Trabalhadores (PT) por ocasião das eleições municipais de outubro. Qualquer que seja o desfecho, conforme comentou o editorialista Ricardo Noblat, cada um dos protagonistas da cúpula do Estado está agora obrigado a promover mudanças em seus procedimentos: o Executivo, controlando melhor as atividades dos seus serviços de segurança, o Legislativo, votando textos restritivos em relação às escutas, e o Judiciário, restringindo as suas autorizações. Jean-Yves de Neufville

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    12h20

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    12h26

    -0,07
    75.554,02
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host