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05/09/2008

Sem água nem eletricidade, Nova Orleans volta a ser ocupada pelos seus habitantes

Le Monde
Sylvain Cypel
Em Nova Orleans
Às 10h, na manhã da quarta-feira, 3 de setembro, nos arredores de Nova Orleans, o engarrafamento que havia tomado conta da auto-estrada proveniente do Texas já tinha 20 quilômetros de extensão. O prefeito da cidade, Ray Nagin, estava de prontidão: os habitantes estavam retornando. Ao meio-dia, ele suspendeu a ordem para evacuar que havia sido decretada antes da chegada do furacão Gustav. Às 18h, a fila de automóveis, em forma de acordeão, estendia-se até o lago Atchafalaya, a 120 quilômetros.

AP 
Carros fazem fila para fazer compras em supermercado, na volta dos moradores

David Paulison, o diretor da Federal Emergency Management Agency (FEMA - Agência Federal de Administração das Emergências), lançou um apelo para que os dois milhões de cidadãos da Louisiana que haviam sido evacuados seguissem aguardando e adiassem seu retorno, mas o pedido não obteve efeito: nem a eletricidade que ainda não fora religada; nem a água que permanecia cortada em inúmeras casas; nem o fechamento dos comércios que continuava a vigorar na quase totalidade da cidade; nem a carência de distribuição de combustíveis, nem a chuva que seguia caindo em forma de trombas de água, impediram que as famílias tomassem o caminho de volta rumo aos seus lares.

Essa corrida pode ser explicada pela angústia. Em qual estado cada um dos proprietários iria encontrar seus bens? Alguns observadores chegaram a apontar um começo de "crise humanitária". Além disso, para os evacuados menos afortunados, a conta da empreitada - quatro noites no hotel que não seriam reembolsadas pelos seguros - estava ficando pesada demais: Nova Orleans é uma cidade pobre.

A "alma cajun"

Existe ainda uma outra explicação, aquilo que Kean Ambrose, um veterano inspetor da FEMA, especialista na estimação dos prejuízos, que circula pelas estradas dos Estados Unidos há mais de trinta anos, chama de "a alma cajun*", englobando todos os habitantes da Louisiana nesta categoria de origem francófona, atualmente minoritária.

Segundo ele, esses habitantes são, em sua maioria, "pescadores caçadores, muito resistentes às dificuldades e festeiros. No passado, quando chegaram à região, esses acadianos se instalaram em manguezais infestados de crocodilos e lá permaneceram. Eles mantiveram uma mentalidade de pioneiros. Predomina entre eles uma concepção de vida ao mesmo tempo fatalista e otimista. Em relação às catástrofes naturais, eles as enfrentaram de modo corriqueiro ao longo da sua história. Tão logo as condições o permitem, eles retornam e reconstroem". Ainda assim, Kean Ambrose mostra ter uma visão idealista deste povo: nem todos eles nem sempre retornam. Um terço dos habitantes de Nova Orleans não voltou para casa depois da passagem do furacão Katrina, em agosto de 2005. Entretanto, a "alma cajun" existe efetivamente.

Steve Weaver é um habitante do Lake View, o bairro onde os diques desmoronaram em 2005. Na ocasião, ele havia sido evacuado de helicóptero. Desta vez, ele refugiou-se na casa de uma nora, no Tennessee. Ele foi um dos primeiros a retornar. "Eu poderia ter optado por me instalar em outro lugar. Mas, eu construí esta casa há trinta anos. Este é o meu bairro", explica. Hoje, Weaver tem 82 anos. O bairro, que foi o primeiro a seja atingido quando as águas invadiram a cidade, permaneceu quase-deserto desde a passagem do Katrina: 75% dos seus habitantes não retornaram.

A maior parte das habitações ficou abandonada. Mas, Steve Albert, 52 anos, um pequeno empreendedor da construção civil, pouco se importa com isso. Apesar da recordação do Katrina, ele não se sentiu nem um pouco amedrontado pelo furacão Gustav, e acabou ficando. "Nós vamos promover o renascimento desta comunidade. O que mais poderíamos fazer, a não ser tocarmos para frente? Dentro de seis anos, a metade das casas estará novamente ocupada", diz. Esta é a promessa que foi feita pela Lake View City Improvement Association, o organismo encarregado da reabilitação do bairro. E se um novo tornado desabar sobre a cidade? "Nós resistiremos. A prova de que isso é possível é que desta vez, os diques agüentaram. É preciso ter um pensamento positivo. Em breve, serão criados aqui mesmo milhares de empregos no setor das biotecnologias".

Como se ele temesse não ter conseguido mostrar-se convincente o bastante, ele acrescenta, enquanto se despede: "Tratem de falar bem de Nova Orleans. Com tudo o que nós estamos passando, nós merecemos isso". Num programa de uma rádio FM, um grupo batista conclama: "O espírito não está morto. Nós formos atingidos, mas não fomos vencidos. Temos de seguir em frente! As famílias retornarão, os negócios serão retomados!"

Três novos furacões - Hanna, Ike e Josephine - poderiam em breve atingir o litoral americano no golfo do México. Segundo um estudo que foi publicado na revista "Nature", na quinta-feira (4), a potência dos furacões e dos tufões teria aumentado no decorrer dos últimos 25 anos, um fenômeno que está vinculado ao aquecimento dos oceanos.

* Nota do tradutor: A palavra "cajun" é derivada de "acadiano", ou cadiano. Os cadianos integram um grupo étnico que inclui entre outros os descendentes dos acadianos da Acádia que foram deportados pela força rumo à região da Louisiana, durante a segunda metade do século 18, provenientes do que é hoje a Nova Escócia (hoje uma província do Canadá), em razão da sua recusa a se submeterem à Coroa britânica. Majoritariamente católicos, os cadianos trouxeram para a região uma cultura "cajun", na qual se destacam, entre outros, a música e a culinária. Jean-Yves de Neufville

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