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09/09/2008

A "diplomacia do futebol" aproxima a Turquia e a Armênia

Le Monde
Guillaume Perrier
Em Erevan, Armênia
Um frisson, ao qual se sucederam algumas vaias, percorreu as arquibancadas do antigo estádio Hrazdan, em Erevan, no momento em que foi executado o hino nacional turco, pouco antes do início da partida. Quem olhasse para o alto podia avistar à distância, no topo de um morro perto dali, a flecha preta do memorial do genocídio armênio, apontada para o céu. No meio do público começaram a ser erguidas diversas faixas, cujos dizeres exigiam o "reconhecimento" e a "restituição". Um outro cartaz que apareceu no meio de um pequeno grupo de torcedores turcos, preconizava a "fraternidade sem fronteiras". O passado doloroso compartilhado pela Armênia e a Turquia transformou uma banal partida de futebol, vencida pelos turcos pelo placar de 2 a 0, num evento histórico, na noite de sábado, 6 de setembro, na capital armênia.

AFP 
Dentro do campo de futebol, a Turquia bateu a Armênia por 2 a 0

Na tribuna oficial, os presidentes armênio e turco, Serge Sarkissian e Abdullah Gül, acompanharam o jogo lado a lado, protegidos por um espesso vidro blindado. O chefe do Estado turco estava efetuando uma visita relâmpago, que não durou mais de seis horas. Ou seja, ou tempo necessário para assistir a uma partida e para um encontro de uma hora com o seu homólogo armênio. Aquela foi uma "primeira vez" promissora para esses dois países vizinhos que interromperam suas relações oficiais há mais de quinze anos.

Quando já estava retornando ao seu país, Abdullah Gul declarou estar "feliz" com esta escapada na Armênia. O avião presidencial sobrevoou a fronteira comum, fechada pela Turquia desde 1993, além dos contrafortes do monte Ararat, a montanha símbolo da Armênia, situada atualmente em território turco. Ele saudou "a coragem do presidente Sarkissian que me convidou", e avaliou ter "derrubado um obstáculo psicológico" ao aceitar o convite.

"Primeiro passo"

A crise georgiana contribuiu para convencer de vez os dois chefes de Estado da necessidade de "normalizarem as relações". A Turquia vem tentando conquistar o apoio dos seus vizinhos do Cáucaso, inclusive a Rússia, para o seu projeto de criar uma plataforma de estabilidade na região. O "conflito congelado" entre a Armênia, aliada da Rússia, e o Azerbaijão, apoiado por Washington e que reconstituiu um poderoso armamento por meio dos petrodólares que vêm sendo derramados no país nos últimos três anos, está sendo objeto de uma vigilância rigorosa. "Nós temos de dar mostras de realismo", resumiu o presidente Gül.

Tão logo a partida foi encerrada, os ministros das relações exteriores, Ali Babacan e Edouard Nalbandian, deram início a uma série de encontros destinados a desenvolver o diálogo. A segunda rodada de reuniões está prevista para ocorrer nas Nações Unidas, em Nova York, no final de setembro. Esta foi a maneira que as partes encontraram para oficializar contatos que foram iniciados informalmente há vários meses em Istambul.

Na Turquia, a imprensa já começou a tecer considerações a respeito de uma abertura rápida, enquanto a sociedade civil, com a exceção de uma minoria nacionalista, apóia a iniciativa. Os partidos políticos, por sua vez, se mostram mais tímidos. Na ocasião, Ufuk Uras foi o único deputado turco a viajar com a comitiva do seu país. Ele que é uma liderança de um pequeno partido de esquerda se diz "impressionado" e explica ter participado da visita como forma de expressar sua amizade para com Hrant Dink, o e jornalista armênio que fora assassinado em 2007 em Istambul. "Ele era um daqueles que lutavam pela normalização das relações entre os dois países. E já não era sem tempo que tal encontro acontecesse. Nós precisamos melhorar as relações econômicas, culturais e políticas, sem condições", afirma.

Oficialmente, a reabertura de embaixadas, e até mesmo da fronteira, ainda não estão na ordem do dia. "Sarkissian foi convidado para ir à Turquia para a partida de volta, dentro de um ano. Daqui até lá, é preciso que as discussões bilaterais tenham evoluído, assim como as negociações em torno da questão do Alto Karabakh", explicam assessores no gabinete do presidente Gül. O chefe do Estado turco deve fazer uma visita "o quanto antes" em Bakou, no decorrer das próximas semanas, de modo a tranqüilizar o Azerbaijão.

Já, em Erevan, as autoridades se mostram mais comedidas em seu entusiasmo. Dentro do estádio, Goriun, um torcedor envolto numa bandeira armênia, avaliou que "esta visita constitui um primeiro passo. Mas não há como se esquecer de que as relações entre os nossos países são marcadas por uma grande dor". A Federação Revolucionária da Armênia, um partido de oposição nacionalista, hostil à visita do presidente turco, manifestou pacificamente, porém de uma maneira que chamou as atenções. Cerca de uma centena de pessoas formaram uma corrente e proferiram ao longo do caminho do cortejo oficial, slogans em favor do reconhecimento, por parte da Turquia, do genocídio de 1915. Jean-Yves de Neufville

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