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10/09/2008

Nicarágua: querela entre dois ícones da esquerda sandinista

Le Monde
Jean-Michel Caroit
Em Santo Domingo, República Dominicana
Com a sua eterna boina e sua barba tão abundante quanto eriçada, Ernesto Cardenal é um dos símbolos da revolução sandinista, que derrubou a ditadura dos Somoza na Nicarágua, em 1979.

Hoje com idade de 83 anos, este padre, considerado como um grande poeta latino-americano, tornou-se um dos críticos mais acerbos do presidente nicaragüense Daniel Ortega, que ele acusa de ter traído o ideal da esquerda sandinista. Condenado em 22 de agosto por um juiz de Manágua por insultos e calúnias, Ernesto Cardenal se diz vítima de uma "vingança política" de Daniel Ortega, que retornou ao poder em 2007, após ter governado de 1985 a 1990.

O caso surgiu a partir de um banal conflito pela propriedade de um hotel situado numa das ilhas Solentiname, no lago Nicarágua, onde Ernesto Cardenal fundou uma comunidade monástica durante os anos 1960. Um súdito alemão, Immanuel Zerger, havia dado queixa na polícia por insultos no quadro deste litígio. A acusação havia sido rejeitada pela justiça em 2005.

No mês de agosto deste ano, o juiz David Rojas, um antigo membro dos serviços de segurança sandinistas, amigo próximo de Daniel Ortega, reabriu o dossiê e condenou Ernesto Cardenal a uma multa de 20 mil córdobas (cerca de R$ 1.770).

O poeta rejeitou esta sentença, que ele qualificou de "injusta e ilegal", e disse preferir ser encarcerado a pagar aquela multa. O juiz condenou-o à prisão domiciliar, e as suas contas bancárias foram bloqueadas.

Na América Latina e na Europa, muitos foram os intelectuais que se mobilizaram em favor de Ernesto Cardenal. Uma figura emblemática da esquerda sul-americana, o uruguaio Eduardo Galeano, autor do ensaio "As veias abertas da América Latina", assegurou-o da sua solidariedade "diante de uma condenação infame, proferida por um juiz infame, a serviço de um governo infame".

O português José Saramago, Prêmio Nobel de literatura, dirigiu um apelo a Daniel Ortega, o qual ele qualificou de "indigno do seu próprio passado", conclamando-o a pedir perdão a Ernesto Cardenal, "um homem que um papa havia tentado em vão humilhar". Durante uma visita na Nicarágua em 1983, João Paulo 2º havia admoestado publicamente o autor do livro "Oração para Marylin Monroe", um dos representantes mais conhecidos da "teologia da libertação", que era então o ministro da cultura do governo sandinista.

A União dos Escritores e Artistas de Cuba (Uneac) solidarizou-se com Ernesto Cardenal. "Nós estamos assistindo com pesar a este enfrentamento, que ocorre numa hora decisiva para o futuro do nosso continente. Seria preciso se perguntar a quem beneficiam essas contradições", lamenta a Uneac, num comunicado. Esta instância oficial da cultura cubana saudou "a lealdade manifestada em toda e qualquer circunstância para com a nossa revolução" por Ernesto Cardenal.

Para o escritor Sergio Ramirez, que havia sido o vice-presidente do primeiro governo sandinista, Ernesto Cardenal foi punido por ter denunciado a perda de rumo autoritária de Daniel Ortega. Da mesma forma que ele, Ernesto Cardenal rompeu com o líder sandinista em meados dos anos 1990. Convidado para presenciar a posse, em 15 de agosto, do presidente paraguaio Fernando Lugo, o poeta havia qualificado naquela ocasião o presidente nicaragüense de "ladrão" e o havia acusado de ter celebrado uma aliança com antigos seguidores do ditador derrubado Anastásio Somoza (1925-1980). Jean-Yves de Neufville

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