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10/09/2008

Tanja Privenau, uma arrependida do neonazismo

Le Monde
Cécile Calla
Ela casou-se num dia 20 de abril, a data do aniversário do Führer. Com uma voz suave, Tanja Privenau relembra com certo distanciamento seus vinte anos de militância no meio da extrema-direita alemã. Desde a sua adolescência até completar 33 anos, esta jovem mulher originária de um pequeno vilarejo da Baixa Saxônia (ex-Alemanha Ocidental) engajara-se com fervor em diversas organizações neonazistas.

Uma homeopata de profissão, ela experimentou os mais diversos aspectos do movimento, antes de romper, três anos atrás, com esse meio. De um dia para o outro, ela fez as malas, deixou seu marido e seus amigos, e, levando consigo seus cinco filhos, partiu de uma vez por todas para dar início a uma nova vida.

A sua decisão foi motivo de surpresa, tanto para os seus ex-colegas dos meios neonazistas quanto para as autoridades alemãs. Até Bernd Wagner, um antigo policial e o presidente da Exit, uma associação que ajuda os antigos militantes de extrema-direita a efetuarem sua reinserção na sociedade democrática, o reconhece: "Ela era uma figura carismática".

Foram recenseados em toda a Alemanha 38.600 militantes de extrema-direita, repartidos em cerca de 182 organizações. As duas principais agremiações políticas neonazistas, o Partido Nacional Democrata (NPD) e a União Popular Alemã (DVU), contam com a representação de deputados nos parlamentos de três regiões da antiga Alemanha Oriental (a ex-RDA).

Em abril, o Partido Social-Democrata alemão (SPD) havia retomado a idéia de dar continuidade ao processo de proibição do NPD. Entretanto, a maioria dos ministros do Interior dos Länder (Estados) se opôs a esta iniciativa, sublinhando que uma outra tentativa similar já havia fracassado em 2003, por decisão da Corte constitucional do país.

Tanja Privenau tinha sido uma dirigente regional da FAP, uma organização neonazista que fora proibida em 1995, além de membro da comunidade de crença germânica (Artgemeinschaft), e havia trabalhado a serviço do NPD. Na época, a sua vida era organizada conforme os preceitos do nacional-socialismo. Em seu domicílio, uma foto de Adolf Hitler estava dependurada na parede da sala de estar. Ela havia banido a televisão do seu cotidiano, e as suas crianças estavam proibidas de trajarem calças jeans e de usarem roupas nas quais eram impressos símbolos americanos.

No dia do nascimento do Führer, ela e o seu marido faziam questão de usar roupas de festa, acendiam as velas de um castiçal e liam trechos de "Mein Kampf". Da mesma forma que inúmeros outros jovens que cresceram neste meio, os seus filhos foram enviados para campos da "Juventude alemã fiel à sua pátria", cujos métodos relembram aqueles das Juventudes hitlerianas dos anos 1930. As crianças são ensinadas a desfilarem e a tocarem tambor, mas, reina também nesses campos uma disciplina extremamente rígida. "Eles querem transformar os jovens em máquinas de combate", denuncia agora a ex-neonazista. A lavagem cerebral começa até mesmo logo no nascimento. Quando jovem mãe, Tanja Privenau costumava reunir-se com outras mães, na companhia dos seus recém-nascidos, para cantarem textos guerreiros ou populares.

Muito cedo, esta filha única sentiu-se atraída pela extrema-direita. A influência do seu avô, que havia desempenhado o papel do pai depois do divórcio dos seus pais, quando ela tinha 10 anos, foi determinante. Este antigo soldado da Wehrmacht (como era chamado o conjunto do exército alemão) se dedicara a contar-lhe as glórias da propaganda guerreira do nacional-socialismo. Quando a sua filha começou a escrever textos de conteúdo revisionista na escola, os pais de Tanja foram convocados pelos professores. Contudo, já era tarde demais. Aos 13 anos, a menina já era uma anti-semita convicta: um dia, ela declarou à sua professora de religião que ela se recusava a "acompanhar as aulas de uma judia".

Ela efetuou os seus primeiros contatos com o NPD pelo intermédio do seu namorado "skinhead", e então começou a distribuir material de propaganda no pátio da escola. Ela foi expulsa então do estabelecimento. "Se alguém tivesse tentado conversar comigo, para confrontar os seus argumentos aos meus, isso talvez não me tivesse impedido de prosseguir nesse caminho, mas teria me obrigado a refletir", diz, relembrando aquela situação com a distância dos anos.

Naquela época, Tanja Privenau participava todos os fins de semana de manifestações da extrema-direita. Ela era regularmente interpelada pela polícia. O seu pai, então um militante da CDU (União Democrata-Cristã da Alemanha), fazia vistas grossas para as atividades da filha. A sua mãe, pouco comovida com as suas idéias, preocupava-se muito mais "com a sua reputação". Mais tarde, ela mesma acabaria se aproximando dos movimentos de extrema-direita. Tanja decidiu então aderir à FAP. Neste lar do neonazismo, ela chamava as atenções pela desenvoltura que ela mostrava ao discursar em público. A partir daquele momento, ela passou a galgar muito rapidamente os escalões dessa agremiação.

O seu status de mulher não parece ter sido um obstáculo. "Possivelmente porque eu nunca aparentei ser do tipo da mulherzinha pentelha", diz Tanja, às gargalhadas. Trajando um vestido verde pistácia com flores brancas desenhadas, além de calçados e brincos sortidos, ela gosta visivelmente de vestir-se de modo atraente.

No que vem a ser um paradoxo, foi a sua paixão pelas atividades da militância que a conduziu a vivenciar suas primeiras dúvidas. Ela acabou se dando conta de que um grande número das lideranças do movimento aplicava sem grande afinco o modo de vida nacional-socialista. "Por ocasião das nossas reuniões, aos fins de semana, eles trajavam seu vestuário folclórico. Mas, durante a semana, eram vistos trajando calças jeans ou indo almoçarem no McDonald's", conta. Mais tarde, quando ela começou a conscientizar-se de todos os tráficos que cercavam esse movimento, principalmente no que dizia respeito às armas, a distância foi aumentando de maneira constante. "Eu não queria ver os meus filhos crescerem neste meio mafioso", diz Tanja, sem mostrar qualquer hesitação.

A violência doméstica que ela era obrigada a aturar por parte do seu marido foi um outro motivo para a ruptura. Em 2002, ela viajou para Colônia com o objetivo de se apresentar aos funcionários do Verfassungschutz - o equivalente de um serviço nacional de inteligência -, aos quais ela pediu ajuda para se desvencilhar desse meio. Assustada com a perspectiva de cortar todos os vínculos com os seus familiares e amigos, ela renunciou num primeiro momento a este projeto. Mas, ela acabou se decidindo a dar o passo definitivo três anos mais tarde. Desde então, ela ainda não retomou o seu trabalho e vive da ajuda social. Por temer eventuais represálias por parte dos seus antigos camaradas, e para evitar que os seus filhos sejam estigmatizados na escola, ela é obrigada a manter em sigilo sua nova identidade e a dissimular-se por trás de grandes óculos escuros, além de usar um boné e um espesso jaleco quando ela aparece em público. Mas, ela faz questão de dar depoimentos sobre a sua história, para que outras mulheres e mães que pertencem a esse meio se conscientizem da verdadeira realidade da extrema-direita.

Espontaneamente, ela não menciona a ideologia nazista como sendo um dos motivos da sua ruptura. Quando indagada a esse respeito, ela responde que "refletiu muito sobre a questão do 3º Reich" e que ela tirou um traço sobre a ideologia que este regime desenvolveu. "Ela aceita o sistema democrático", garante Bernd Wagner, "mas ela permanece muito crítica a seu respeito, principalmente naquilo que se refere às questões de justiça social". Ela tampouco está interessada em se mostrar mais explícita em relação às idéias políticas que ela defende atualmente. Jean-Yves de Neufville

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