UOL Notícias Internacional
 

10/09/2008

O ministro italiano da defesa presta uma homenagem aos soldados do ditador Benito Mussolini

Le Monde
Philippe Ridet
Em Roma
Será o caso de assumir o fascismo, ou de expurgar as páginas mais sombrias da história deste regime? Até hoje, a direita italiana ainda não conseguiu responder a esta indagação a respeito do "Ventennio fascista", o período de 1922 a 1943 durante o qual Benito Mussolini (1883-1945, também conhecido como "Il Duce" - o Chefe) exerceu um poder sem qualquer concessão.

Na segunda-feira, 8 de setembro, o ministro da defesa, Ignazio La Russa (do partido da Aliança Nacional), desencadeou uma nova polêmica. Ao prestar uma homenagem aos soldados italianos mortos em combate contra as tropas alemãs, em conseqüência do cancelamento da aliança anteriormente firmada entre os dois países, ocorrido em 1943, ele associou a esse dever de memória os combatentes da República Social Italiana (RSI, também conhecida como República de Salo). Fiéis a Mussolini, esses soldados permaneceram até o final dos combates ao lado dos nazistas.

"Eu estaria traindo a minha consciência se eu não lembrasse que outros homens de uniforme, do exército da República Social Italiana, também combateram movidos pela convicção de que eles estavam defendendo seu país", declarou La Russa.

Essas declarações do ministro tiveram como efeito de reforçar aquelas de Gianni Alemanno que haviam sido publicadas no diário "Corriere della Será", em 7 de setembro. Num artigo de opinião, o prefeito de Roma havia estabelecido uma distinção entre as leis raciais anti-judaicas de 1938 e o regime fascista, o qual ele se recusou a condenar: "Eu não considero, e nunca considerei o fascismo como o mal absoluto. O fascismo foi um fenômeno mais complexo (...). Muitos foram aqueles que se filiaram ao fascismo, movidos pela sinceridade e a boa-fé (...). Em contrapartida, as leis raciais que foram promulgadas pelo regime fascista e que contribuíram para o seu fim político e cultural, eram, por sua vez, o mal absoluto".

Diante disso, lideranças do centro-esquerda denunciaram uma vontade de "reabilitação" do período mussoliniano. Como forma de protestar contra essa visão da História, Walter Veltroni, um antigo prefeito de Roma e líder do Partido Democrata, pediu demissão do conselho de administração do futuro Museu da Shoah.

Entretanto, essas distinções que visam a expurgar as páginas mais sombrias da história do fascismo italiano entram em rota de colisão com a verdade histórica: as primeiras medidas anti-judaicas foram tomadas na Itália logo em 1938, mesmo se o regime de Mussolini nunca tivera adotado o anti-semitismo como base ideológica. Em setembro de 2003, Silvio Berlusconi, por sua vez, também havia provocado vivos protestos ao declarar, fazendo alusão às famigeradas "desclassificações": "Mussolini nunca matou ninguém. Ele apenas oferecia às pessoas períodos de férias".

Oportunismo político

O partido de Ignazio La Russa e Gianni Alemanno, a Aliança Nacional, dirigido por Gianfranco Fini, o presidente da Câmara dos Deputados, é o herdeiro direto do Movimento Social Italiano (MSI), um partido neofascista fundado por Giorgio Almirante, no qual atuaram como militantes o ministro da defesa e o prefeito de Roma. Em 2003, Fini havia viajado para Jerusalém, onde ele afirmara que "o fascismo era o mal absoluto". Então à procura de uma imagem política que pudesse atrair um maior número de seguidores, ele havia sacramentado naquele dia sua ruptura com o MSI.

Essas tentativas de reabilitar certos aspectos do regime de Mussolini, seriam elas frutos de um revisionismo, ou de um oportunismo político? Esta vontade manifestada por uma parte da direita italiana de pintar novamente o fascismo com cores mais amenas é também característica da sua vontade de se desfazer da acusação recorrente - proferida principalmente por uma parte do centro-esquerda, pela esquerda radical e por certos meios católicos - de estar querendo instaurar um novo fascismo na Itália.

Assim, a lei que considera como um crime a imigração clandestina e permite colher as impressões digitais das crianças oriundas da comunidade cigana - uma lei que foi avalizada pela Comissão Européia - havia sido tachada de potencialmente "fascista" pela revista semanal "Famiglia Cristiana". Mais recentemente, os projetos de reforma da Justiça e de recomposição do Sindicato da magistratura têm sido objetos das mesmas críticas.

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