UOL Notícias Internacional
 

11/09/2008

Argentinos e brasileiros estão preocupados com as suas importações de gás boliviano em razão das tensões existentes neste país

Le Monde
Paulo A. Paranaguá
As autoridades da Argentina e do Brasil mostram-se preocupadas com os atuais enfrentamentos entre o governo central de La Paz e os departamentos autonomistas do leste e do sul da Bolívia, conflito esse que pode ameaçar o abastecimento em gás dos dois países. Em Taiguati, no Chaco boliviano (no departamento de Tarija), um grupo de opositores do presidente Evo Morales assumiu o controle do gasoduto por meio do qual este combustível é escoado rumo ao Brasil. A imprensa brasileira e a imprensa argentina já andaram repercutindo essas ameaças.

Na terça-feira, 9 de setembro, um porta-voz da companhia de transporte de hidrocarbonetos Transierra, na qual estão associadas a empresa brasileira Petrobras e a francesa Total, garantiu que o gasoduto havia sofrido apenas estragos reduzidos, que não constituem uma ameaça para o escoamento da produção. "A Bolívia continua sendo um fornecedor excepcional de gás para o Brasil, apesar da sua instabilidade", confirmou a Petrobras.

A Bolívia exporta 30 milhões de metros cúbicos de gás por dia rumo ao Brasil. Entretanto, os 40 milhões de metros cúbicos que ela produz no total diariamente não são suficientes para atender ao mesmo tempo as necessidades do mercado boliviano e o compromisso firmado em contrato com a Argentina. Os bolivianos já enfrentam dificuldades para conseguir produzir 2 milhões de metros cúbicos por dia para a Argentina, e ainda estão muito distantes dos 7,7 milhões de metros cúbicos que foram prometidos a este país. No momento em que a economia argentina vem trabalhando no máximo da sua capacidade, sob a ameaça de uma crise energética, a Bolívia continua sendo um parceiro pouco confiável, enquanto o projeto de construção de um gasoduto que deverá encaminhar o recurso pela região norte da Argentina vem sofrendo atrasos constantes.

Em Santa Cruz (no leste da Bolívia), grupos de autonomistas também danificaram, na terça-feira, instalações de propriedade do governo de La Paz - um escritório da administração dos impostos, as dependências do Instituto da reforma agrária, além dos escritórios de uma companhia nacionalizada e de um canal de televisão. Também foi destruída a sede de uma organização não-governamental, o Centro de Estudos Jurídicos e de Pesquisas Sociais (Cejis).

Controvérsia em torno da Constituição

O ministro do Interior, Alfredo Rada, um antigo dirigente do Cejis, acusou o prefeito de Santa Cruz, Ruben Costas, e o presidente do "comitê cívico" do departamento, Branko Marinkovic, de estarem por trás dos "grupos fascistas, violentos e racistas" que provocaram os incidentes. O governo denunciou uma tentativa de "golpe de Estado cívico e prefeitoral", mas descartou a proclamação do estado de sítio. Segundo o ministro da defesa, Walker San Miguel, a população de Santa Cruz (um milhão e meio de habitantes) não deve ser confundida com os atos perpetrados por "500 vagabundos".

Os opositores vêm reclamando a devolução de uma parte da receita do imposto direto sobre os hidrocarbonetos, que até então vinha sendo repassada para os departamentos, mas que foi recuperada por La Paz para financiar uma alocação para as pessoas idosas. A oposição reivindica igualmente os estatutos de autonomia regional que foram aprovados por meio dos referendos, os quais foram organizados sem o aval de La Paz, em quatro departamentos (Santa Cruz, Beni, Tarija e Pando).

Por sua vez, o presidente Morales, prestigiado pelos 67,4% dos votos favoráveis que ele obteve no referendo de 10 de agosto, tentou tirar rapidamente proveito da sua vantagem para agilizar o processo de adoção da nova Constituição, que deve ser ratificada pelo sufrágio universal para entrar em vigor. Contudo, a Corte eleitoral nacional obrigou o chefe do Estado a renunciar à data que ele havia definido por decreto, a de 7 de dezembro, e a entregar para o Congresso a convocação do referendo sobre a Constituição. A Corte também acolheu favoravelmente um pedido de verificação das listas eleitorais, cuja confiabilidade foi questionada pela oposição.

"A direita não pretende derrubar Evo Morales; o que ela quer, é que o governo se deteriore e desmorone sozinho", avalia o analista político Alfonso Gumucio Dagron. "Os extremistas de direita e de esquerda vão perder a partida", assegura Alfredo Rada, o ministro do Interior, que foi confirmado no seu cargo na segunda-feira (8), por ocasião de um remanejamento governamental. Jean-Yves de Neufville

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    12h49

    1,49
    3,306
    Outras moedas
  • Bovespa

    12h53

    -2,26
    61.224,43
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host