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12/09/2008

Os mexicanos estão preocupados diante das evidências de um conluio entre policiais e criminosos

Le Monde
Joëlle Stolz
Cidade do México
No momento em que faltam dez meses para as eleições legislativas, a insegurança tornou-se um tema da maior importância para todas as forças políticas no México. Na perspectiva deste pleito, elas se mostram determinadas a conquistarem os votos de uma classe média fortemente preocupada com o crescimento da violência criminal e com o declínio da economia. A prisão de diversos membros da gangue que é tida como responsável pelo seqüestro, seguido pelo assassinato do jovem Fernando Marti, o filho de um conhecido empreendedor, foi creditada a funcionários da administração da Cidade do México, cujo prefeito, Marcelo Ebrard, desponta como o possível candidato da esquerda no pleito presidencial de 2012.

Na segunda-feira, 8 de setembro, o procurador-geral da capital, Miguel Angel Mancera, anunciou que a sua equipe havia identificado e colocado sob custódia o chefe da "Gangue da flor" - esta recebeu este apelido porque os seus membros tinham por hábito de colocar um crisântemo dentro da boca das suas vítimas. Trata-se de um antigo policial de 63 anos, Sergio Humberto Ortiz, que foi ferido gravemente por balas, em 22 de agosto, por três dos seus cúmplices.

As autoridades estão investigando para descobrir se eventuais divergências que teriam surgido no interior da gangue poderiam explicar a morte do adolescente, cujo cadáver em decomposição foi encontrado em 31 de julho, embora a sua família tivesse pagado o valor do resgate exigido.

A polícia da Cidade do México confirmou, na quarta-feira, 10 de setembro, que a mulher suspeita de ter coordenado o seqüestro do jovem rapaz, Lorena Gonzalez, ainda pertencia, no momento dos fatos, aos quadros da Agência Federal de Investigação (AFI), uma das entidades encarregadas de lutarem contra a grande criminalidade. O envolvimento de policiais ou de antigos policiais neste crime contribuiu para acentuar o descontentamento da população.

Na segunda-feira, em Torreon, no Estado de Coahuila (norte), uma fuzilada marcou um enfrentamento entre agentes federais e policiais municipais que foram surpreendidos quando protegiam a transferência de um carregamento de drogas. Em outras cidades industriais do Norte, principalmente em Tijuana, Ciudad Juarez e Monterrey, as famílias dos dirigentes de empresa se sentem ameaçadas e, na maioria dos casos, preferem colocar suas crianças a salvo, enviando-as para os Estados Unidos, do outro lado da fronteira.

A Câmara nacional da indústria de transformação divulgou uma estimativa segundo a qual o setor privado no México passou a ser obrigado a investir 120 bilhões de pesos por ano (cerca de R$ 20,55 bilhões) em despesas destinadas a garantir a segurança. Esses custos envolvem desde a contratação de guarda-costas até a compra de apólices de seguros, passando pela vigilância em torno das operações de transporte de mercadorias, monitoradas por satélite.

Esquadrões da morte

Segundo uma pesquisa que foi publicada na quarta-feira pelo diário "Reforma", 41% das pessoas entrevistadas "não confiam de maneira alguma na polícia" para ajudá-las caso um dos seus membros for seqüestrado, enquanto 26% nela "confiam apenas um pouco". Dois em cada três habitantes da região da Cidade do México temem serem vítimas de um seqüestro, enquanto 21% afirmam conhecer um parente ou um amigo que foi seqüestrado no decorrer dos últimos doze meses.

Este sentimento de insegurança atinge todas as camadas da sociedade, mas ele mobiliza particularmente as classes abastadas e a classe média, ou seja, o quarto da população do país. Foram elas que, às centenas de milhares, tomaram conta das ruas da capital, em 30 de agosto, para reclamarem uma intervenção mais enérgica dos poderes públicos. "Ao longo das três horas de duração de um desses atos de protesto na Cidade do México, eu não vi nenhum proletário sequer", conta a dramaturga e apresentadora de televisão Sabina Berman. "Havia apenas mestiços e brancos, e todos eles estavam bem alimentados, bem penteados e bem vestidos".

O governo do presidente Felipe Calderón, do Partido de Ação Nacional (PAN, de direita), tentou apaziguar a população, propondo um "pacto nacional" contra a insegurança. Contudo, nos últimos dias, foi o veterano Partido Revolucionário Institucional (PRI, do centro) que, valendo-se da sua experiência política, passou a abrir uma dianteira em relação ao PAN, em todas as pesquisas de opinião.

O pequeno Partido Verde também encontrou uma audiência favorável junto às classes média e alta, desde que as suas lideranças começaram a exigir o restabelecimento da pena de morte para os autores de seqüestros seguidos pelo assassinato ou a mutilação das vítimas. Já, para o governo, o país passou a correr sérios riscos de ver as suas elites financiarem "esquadrões da morte", integrados por profissionais que resolveriam de maneira expeditiva os problemas de criminalidade. Segundo uma fonte confiável, isso já estaria ocorrendo em Guadalajara, a segunda maior metrópole do país. Jean-Yves de Neufville

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