UOL Notícias Internacional
 

16/09/2008

Estados Unidos e Paquistão disputam "jogo perigoso"

Le Monde
Frédéric Bobin
Em Nova Déli (Índia)
Os ataques tiveram valor de advertência. Poucos dias após a eleição, em 6 de setembro, do novo chefe do Estado paquistanês, Asif Ali Zardari, o viúvo de Benazir Bhutto - assassinada em 27 de dezembro de 2007 -, as tropas americanas que operam no Afeganistão efetuaram uma série de incursões que avançaram no interior do território do Paquistão. Esses ataques, que alvejavam chefes talebans ou ainda esconderijos da Al Qaeda construídos nessas áreas tribais isoladas que, para os militantes islâmicos, são verdadeiros santuários, provocaram pesadas perdas entre os civis e inflamaram o nacionalismo paquistanês.

A mensagem de reprimenda que os Estados Unidos transmitiram por meio desta advertência é explícita: se Islamabad não "limpar" suas zonas tribais dos focos islâmicos que alimentam a insurreição no Afeganistão, Washington se encarregará da tarefa sozinho. Assim, mal o novo presidente Zardari tomou posse que ele já se vê obrigado não só a enfrentar o desafio que representam os talebans em seu próprio país, como ele está também confrontado à tentação da escalada incentivada pelos americanos, que atribuem à passividade do Paquistão, e até mesmo à sua ambivalência, o recrudescimento da rebelião no Afeganistão. No momento em que os Estados Unidos se preparam para transferirem tropas do Iraque para o Afeganistão - será este um retorno para onde tudo começou? -, este dedo acusador apontado para Islamabad adquire todo o seu significado.

Ora, trata-se de um jogo perigoso. Da mesma forma que no Afeganistão, as vítimas civis "colaterais" de ataques indiscriminados só fazem atiçar o ódio contra as forças ocidentais, por parte de populações pachtunes conhecidas pelo seu orgulho desconfiado, e que nenhum conquistador nunca conseguiu domar ao longo da sua história. Além disso, essas incursões minam os esforços que os próprios paquistaneses estavam empenhando na tentativa de conter o ativismo dos talebans nesta área fronteiriça. Nos últimos dois ou três meses, ofensivas de grande vulto foram realizadas na zona tribal de Bajaur e também no vale de Swat. Essas operações obtiveram bons resultados. Agora, as unidades paquistanesas nelas envolvidas correm riscos de perderem todo crédito aos olhos das comunidades locais, pois elas passam a serem vistas como meros executantes às ordens de invasores que violam a "soberania" do Paquistão.

Por fim, os abalos gerados pelos ataques americanos fragilizam Asif Ali Zardari, que encarna o retorno dos civis ao poder no Paquistão após o reinado militar de nove anos do general Pervez Musharraf. Neste momento de transição, o novo chefe de Estado, um herdeiro da dinastia Bhutto, cuja base de sustentação ainda é muito precária, certamente não precisava estrear seu mandato presidencial tendo de enfrentar incidentes tão sérios. O anti-americanismo que está tomando conta do Paquistão como uma febre, o atinge por ricochete, pois diante dos fatos, ele evitou cuidadosamente protestar com veemência, amarrado por uma estreita dependência militar e financeira em relação aos Estados Unidos.

O ex-presidente Musharraf devia uma grande parte da sua impopularidade ao fato de ter colocado o seu país - ainda que dando mostras de certa duplicidade nas suas iniciativas - a serviço da "guerra contra o terror" declarada por George W. Bush nos dias que seguiram aos ataques de 11 de setembro de 2001. Daqui para frente, o mesmo descrédito ameaça o presidente Zardari. Um laico e um liberal, ele já está na linha de mira dos militantes islâmicos radicais. Por ele ser oriundo da minoria xiita, o seu caso torna-se ainda mais grave, sobretudo aos olhos dos grupos sunitas sectários. Se porventura ele mostrasse uma proximidade grande demais em relação aos americanos "invasores", isso acabaria o transformando de uma vez por todas num homem a ser eliminado.

A obsessão de se ver cercado

Vale reconhecer que os Estados Unidos têm muitos motivos para perderem a paciência. Por mais que elas não sejam, de fato, uma fonte da crise afegã, as zonas tribais paquistanesas não deixam de ser um dos seus alimentos. Islamabad não soube, ou não quis erradicar os grupos talebans e os núcleos da Al Qaeda que neles encontraram refúgio. Uma complicada equação geopolítica explica essa impotência, ou essa má-vontade. Em primeiro lugar, a fronteira que separa o Afeganistão do Paquistão (conhecida como a "linha Durand", traçada pelos britânicos em 1893) atravessa artificialmente populações pachunes que nunca a reconheceram verdadeiramente. A sua porosidade é um desafio permanente: os americanos vêm padecendo disso assim como aconteceu no passado com os soviéticos.

Em segundo lugar, o estatuto administrativo dessas áreas tribais no âmbito do Estado paquistanês faz delas entidades quase independentes, que são regidas por leis baseadas nos costumes. Nelas, a Constituição e a legislação paquistanesas não se aplicam. As autoridades de Islamabad acabaram se decidindo a outorgar-lhes essa generosa devolução dos poderes para melhor desativarem um nacionalismo pachun que, de maneira constante, vem ameaçando desestabilizar sua fronteira ocidental. Esta preocupação em não se alienar dos pachtunes é tanto mais forte que a construção nacional paquistanesa é frágil: o Islã compartilhado - que fora a razão de ser da fundação do país em 1947, sobre os escombros do Império britânico das Índias - não foi suficiente para transcender identidades étnicas (das regiões do Pendjab, do Sindh, do Baluchistão, e das tribos muhadjires e pachtunes) que sempre se mostraram inclinadas em cultivar suas diferenças e sua autonomia.

Contudo, esta geopolítica das zonas tribais só pode ser compreendida a valer à luz do conflito com a Índia, o inimigo histórico. Desde o seu nascimento (em 14 de agosto de 1947), o Paquistão vive na obsessão de se ver cercado: a leste, a ameaça da Índia; a oeste, o perigo que representa um Afeganistão propenso a atiçar o irredentismo pachtun (que reivindica a afirmação de uma nação soberana, a qual teria por nome o "Pachtunistão"). Para os paquistaneses, isso é inaceitável. Aos seus olhos, o Afeganistão deve ser imperativamente avassalado, "finlandizado", de modo a abrir uma perspectiva estratégica vital em caso de guerra com a Índia. A doutrina estratégica de Islamabad como um todo se resume a esta obsessão.

Para tanto, aos olhos dos dirigentes paquistaneses, o perfil ideal dos que deveriam governar o Afeganistão precisa apresentar uma tríplice característica: eles devem ser pachunes (uma vez donos da situação em Cabul, eles se esquecerão do seu projeto de fundar um "Pachunistão"), adeptos do islamismo (que por sua vez é alérgico ao nacionalismo) e serem instalados no poder pelo Paquistão. Nos dias que antecederam o desmoronamento do regime comunista afegão, em 1992, os dirigentes do Inter Services Intelligence (ISI), os todo-poderosos serviços secretos do exército paquistanês, haviam apostado num homem, Gulbuddine Hekmatyar. Mas o projeto resultou num fracasso retumbante. Durante os anos 1994-1995, a solução alternativa veio dos talebans, que na época foram assessorados e incentivados por Benazir Bhutto, com a cumplicidade dos americanos e dos sauditas.

Desde os ataques de 11 de setembro, Washington vem pedindo às autoridades de Islamabad para perseguirem suas antigas criaturas. Mas esta tarefa é forçosamente complicada, sobretudo num momento em que o papel desempenhado pela Índia no Afeganistão voltou a atiçar a paranóia dos paquistaneses de serem cercados. O reaquecimento estratégico das relações entre a Índia e os Estados Unidos, que é ilustrado por um recente acordo de cooperação nuclear civil, aviva este sentimento de insegurança.

Nessas condições, o ISI - uma entidade de inteligência militar que escapa amplamente de todo controle do poder civil - está firmemente decidido a conservar seus trunfos, os quais se encontram atualmente nos focos talebans das zonas tribais. Os americanos precisam compreender a complexidade desta equação e atuarem com muita argúcia e sutileza caso eles quiserem alcançar seus objetivos na fronteira afegã. Ou seja, duas qualidades que decididamente não caracterizaram os recentes ataques por eles perpetrados. Jean-Yves de Neufville

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