UOL Notícias Internacional
 

19/09/2008

Lugo quer priorizar luta contra a corrupção para restabelecer a "credibilidade" do Paraguai

Le Monde
Christine Legrand
Em Assunção (Paraguai)
"A luta contra a pobreza passa pela luta contra a corrupção", afirma Fernando Lugo, que tomou posse no cargo de presidente do Paraguai em 15 de agosto. "Nós herdamos das administrações anteriores um país devastado, no qual o tecido institucional como um todo está gangrenado pela corrupção. O meu principal objetivo é de diminuir progressivamente o índice de corrupção, de modo a garantir a viabilidade das instituições da República, para fazer com que o Paraguai volte a ser um país crível no quadro da comunidade internacional e reúna condições para atrair os investidores", acrescentou o chefe do Estado numa entrevista que ele concedeu ao "Le Monde".

Nas dependências da luxuosa residência presidencial, o antigo "bispo dos pobres" instalou-se num pequeno escritório austero, que comporta uma mesa e algumas cadeiras. Trajando uma camisa branca e calçando sandálias, ele conservou as aparências de um padre. Ele não perde a sua serenidade quando abordamos a questão da existência de um plano de desestabilização do seu governo, que ele vem denunciando desde o início do seu mandato: "Existem muitas pessoas que não se conformam com a perspectiva de perderem os privilégios que elas adquiriram graças a administrações artificiais, e que vão tentar impedir a qualquer custo que este governo proceda às mudanças prometidas de maneira pacífica e transparente", afirma.

Na opinião do chefe do Estado, a luta contra a corrupção "é uma tarefa difícil, porém não impossível". "Os cidadãos que me elegeram em 20 de abril", prossegue, "se pronunciaram em favor da mudança. Eles estão fartos da hipocrisia e das mentiras. Eu quero mantê-los informados e poder contar com este apoio popular".

Fernando Lugo apresenta como exemplo a recente publicação de uma lista de centenas de pessoas que haviam adquirido 8 milhões de hectares de terras de maneira irregular durante a ditadura do general Alfredo Stroessner (1954-1989) e depois da restauração da democracia. Ele cita os escândalos do contrabando, relativos a um tráfico que movimentou vários milhões de dólares, e a práticas ilícitas que foram reveladas nos setores da alfândega e da administração dos portos, cuja descoberta resultou na prisão de vários funcionários e provocou uma comoção no âmbito da população.

Em Assunção, muitos são aqueles que se perguntam se o "modelo" do presidente paraguaio é mesmo o polêmico Hugo Chávez, o chefe do Estado venezuelano, ou o moderado Luiz Inácio Lula da Silva, o seu homólogo brasileiro. O influente diário "ABC", que fez campanha em favor de Fernando Lugo, o acusa agora de desenvolver relações estreitas demais como Caracas, e denuncia "um plano de infiltração de Chávez no Paraguai".

Diante dessas acusações, o antigo bispo opta por salientar sua independência: "Nós acabamos de assinar doze acordos com Caracas em matéria de energia, de educação e de saúde, os quais ratificam acordos que foram assinados em 2004", explica. Ele se diz "diferente de Chávez", que ele qualifica de "personalidade interessante, cuja imagem exerce um forte impacto na mídia". "Ele fala muito e não possui a prudência dos homens de religião", acrescenta o antigo bispo, às gargalhadas. Ele também aponta que "independentemente de Chávez, a Venezuela é um país importante para o equilíbrio da região e em razão das suas riquezas energéticas".

O presidente Lugo sublinha que o principal parceiro do Paraguai continua sendo o Brasil, onde ele efetuou sua primeira visita oficial no exterior, na quarta-feira, 17 de setembro. Entretanto, as relações entre Brasília e Assunção vêm sendo submetidas a duras provas no plano da questão energética. A reivindicação da "soberania energética do Paraguai" constituiu um dos temas principais da sua campanha eleitoral. O chefe de Estado reclama uma revisão do tratado que rege a exploração da central hidrelétrica de Itaipu, que o Paraguai compartilha com o Brasil. Os paraguaios consomem apenas 12% da energia nela produzida, mas estão obrigados a venderem seus excedentes para os brasileiros, a um preço bastante inferior àquele do mercado.

"A energia de Itaipu favoreceu o desenvolvimento da indústria brasileira, particularmente a de São Paulo. Já não é sem tempo para os paraguaios de exigirem um preço justo pela sua energia, ou seja, de poderem vendê-la ao preço do mercado", argumenta Fernando Lugo. O presidente Lula afirmou que não haveria qualquer renegociação do tratado assinado em 1973. Mas o presidente Lugo garante que "já ocorreram discussões entre as autoridades de Assunção e Brasília e que o governo de Lula está aberto para o diálogo".

"Está fora de cogitação que nos contentemos com compensações financeiras. Nós não queremos receber presentes, mas sim que seja estipulado um preço justo para a nossa energia", insiste. "Para tanto, nós pretendemos recorrer a todas as instâncias de diálogo. A idéia de apresentarmos um recurso perante tribunais internacionais constitui apenas uma hipótese", esclarece o chefe de Estado. Ele lembra que Assunção defende as mesmas exigências em relação a Buenos Aires a respeito da central de Yacyreta, que o Paraguai compartilha com a Argentina.

Fernando Lugo também prometeu efetuar uma reforma agrária "integral". "O Paraguai precisa reconciliar-se com a legalidade", diz. "As terras que foram adquiridas ilegalmente deverão ser recuperadas e redistribuídas". Ele explica que "esta reforma será realizada mediante um diálogo entre os diferentes setores envolvidos: os camponeses sem-terra, os organismos públicos, os técnicos e os grandes proprietários de terras".

Quando nós lhe perguntamos como ele pretende lidar com as prováveis reticências dos oligarcas e das multinacionais que são proprietários da maior parte das terras cultiváveis, o presidente Lugo rebate que "ninguém pode opor-se a argumentos racionais". "Nós prometemos instaurar uma democracia participativa com a ajuda de todos os cidadãos. Nós conhecemos as experiências de outros países em matéria de reforma agrária, e nós sabemos que este é um processo demorado e difícil. Não existe nenhuma receita milagrosa para concretizar mudanças estruturais. As mudanças terão de ser progressivas", conclui. Jean-Yves de Neufville

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