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20/09/2008

O processo mundial de dizimação das abelhas já produz seus primeiros efeitos econômicos

Le Monde
Stéphane Foucart
As populações de abelhas domésticas estão diminuindo por todo lugar no mundo. Por quê? As causas possíveis desses desaparecimentos estão no cerne de debates intensos. Contudo, enquanto os cientistas e os apicultores seguem discutindo a respeito, os primeiros efeitos sobre a produção de frutas e legumes desde já se fazem sentir nos Estados Unidos.

Dennis van Engelsdorp, 39 anos, um pesquisador no departamento de agronomia da Universidade de Pensilvânia, foi um dos primeiros cientistas a ter descrito, no outono de 2006, aquilo que os americanos batizaram de Síndrome do Desmoronamento das Colônias (Colony Collapse Disorder, ou CCD). Em entrevista ao "Le Monde", ele explica este fenômeno e descreve suas causas e conseqüências.

Le Monde - Como definir a Síndrome de desmoronamento das colônias de abelhas?

Dennis van Engelsdorp -
Em primeiro lugar, trata-se de um fenômeno caracterizado pelo desaparecimento brutal - no espaço de alguns dias ou de algumas semanas - da quase-totalidade de uma colônia. Quando isso acontece, sobram na colméia apenas a rainha e os indivíduos recém-nascidos. Quanto aos cadáveres dos indivíduos adultos, eles não mais são encontrados, nem na colméia, nem nos arredores.

Le Monde - A dizimação das populações de abelhas em lugares outros que nos Estados Unidos estaria também caracterizada por tais fenômenos?

Dennis van Engelsdorp -
Em vários países europeus, em todo caso, situações similares foram constatadas e relatadas. Contudo, muito além daquilo que nós chamamos de CCD, constatamos um aumento da mortalidade anual superior a 30% em todos os países onde existe uma documentação adequada da mortalidade das abelhas. Este ritmo de dizimação não poderá ser suportado por muito mais tempo.

Le Monde - Quais são, por enquanto, as repercussões econômicas desta situação?

Dennis van Engelsdorp -
Nos Estados Unidos, a problemática é mais peculiar, porque nós temos empresas de apicultura de grandes dimensões, das quais algumas criam até 40 mil colônias. Na Europa, quando muito, um apicultor cuida da exploração de algumas centenas de colônias, não mais.

Acima de tudo, nos Estados Unidos, um apicultor em cada dois não vive do comércio de mel, mas sim da transumância das suas colméias. Diferentemente do que ocorre na Europa, trata-se de uma verdadeira indústria, na qual muitos apicultores transportam várias centenas de colônias em caminhões e percorrem o país inteiro para venderem um serviço de polinização para os grandes centros de produção de frutas e legumes.

Le Monde - Por exemplo?

Dennis van Engelsdorp -
Por exemplo, um apicultor da Pensilvânia começará a temporada dedicando-se às plantações de laranjas na Flórida, e depois retornará para a Pensilvânia onde ele instalará suas colméias nas plantações de maçãs. Então, ele seguirá caminho para atender os produtores de frutas vermelhas do Maine, e concluirá seu percurso na Califórnia, nas grandes plantações de amêndoas. . .

Em cada uma dessas situações, ele aluga para os produtores os serviços de polinização das suas abelhas. Portanto, a questão econômica não se limita apenas à produção de mel, como ela se repercute amplamente sobre os custos de produção das frutas e dos legumes.

Le Monde - O impacto da dizimação já se faz sentir?

Dennis van Engelsdorp -
Até o presente momento, os apicultores conseguiram dar conta globalmente da demanda de polinização. Mas se prosseguirmos nesse ritmo, por mais três ou quatro invernos, registrando como agora índices de mortalidade de abelhas superiores a 30%, começaremos a ver um grande número de apicultores indo à falência e encerrando seu negócio.

Existe um verdadeiro risco. A Califórnia, por exemplo, produz 80% das amêndoas que são consumidas em todo o mundo. Atualmente, é necessária mais da metade dos 2,4 milhões de colônias de abelhas americanas para polinizar essas plantações de amendoeiras. Em 2012, se tudo continuar desse jeito e nesse mesmo ritmo, não haverá mais abelhas em quantidade suficiente nos Estados-Unidos para polinizar apenas essas culturas, e muito menos as outras.

Desde já, os efeitos da redução das populações de abelhas podem ser percebidos: anteriormente, os apicultores alugavam cada colônia de abelhas a preços que variavam entre US$ 45 e US$ 65 [entre R$ 86 e R$ 125]. Agora, em 2008, o preço pago pelos produtores de amêndoas situa-se em torno de US$ 170 [R$ 230] por colônia. Globalmente, o custo da polinização aumentou para todos os tipos de produtores.

Além disso, pela primeira vez, muitos produtores de pepinos da Carolina do Norte reduziram sua produção de até 50%, simplesmente porque eles não encontraram quantidades suficientes de colônias disponíveis para garantirem a polinização.

Le Monde - E os insetos polinizadores selvagens?

Dennis van Engelsdorp -
Nos Estados Unidos, havia três espécies principais de zangões [os quais, da mesma forma que as abelhas domésticas, se incluem entre os insetos polinizadores]: uma dela já está extinta, enquanto as duas outras estão ameaçadas. Na Europa, um estudo recente evidenciou que os insetos polinizadores selvagens também vêm sofrendo um processo de dizimação, o que provoca simultaneamente o desaparecimento de diversas plantas selvagens que deles dependem.

Le Monde - Estaria acontecendo nos Estados Unidos um debate a respeito dos pesticidas e dos efeitos que eles exercem na dizimação das abelhas?

Dennis van Engelsdorp -
Sim. Aliás, uma das nossas prioridades consiste em analisar os resíduos de pesticidas encontrados nas colméias. Contudo, quando nós colhemos as amostragens nas colméias, quer elas tenham sido atingidas ou não pelo CCD, nós não encontramos quantidades relevantes de resíduos químicos. Entretanto, não está excluído que os pesticidas exerçam efeitos semiletais, várias semanas depois da exposição, e que eles estejam provocando, por exemplo, um enfraquecimento do sistema imunológico dos insetos.

Le Monde - E o que dizer das ondas eletromagnéticas emitidas pelas antenas emissoras receptoras, ou ainda das culturas geneticamente modificadas? . .

Dennis van Engelsdorp -
Os autores da única pesquisa que apontou a existência de um vínculo eventual com a telefonia móvel, voltaram atrás e questionaram suas próprias conclusões. Quanto aos lugares nos Estados Unidos onde existe a maior quantidade de culturas de milho Bt [transgênico], eles não correspondem às zonas onde foram registradas as mais fortes mortalidades. . .

Um único estudo europeu sugeriu que abelhas expostas a culturas geneticamente modificadas podiam se revelar mais sensíveis a certas manifestações patogênicas. Mas, existe um fenômeno a respeito do qual já chegamos a uma conclusão: nós encontramos em muitas abelhas que foram atingidas pelo CCD uma espécie de vírus gripal chamado de Israeli Accute Paralysis Virus (IAPV - Vírus israelense de paralisia aguda). Mas, o nosso principal problema é conseguir descobrir por que ele se torna mortal em certas colônias, e não em outras. . . No estado atual dos conhecimentos, nós podemos atribuir a dizimação das abelhas apenas a um conjunto de causas, e não a um fator em particular. Jean-Yves de Neufville

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