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22/09/2008

Colômbia: Memórias de uma tragédia sem fim

Le Monde
Marie Delcas
Em Trujillo (Colômbia)
Artigos de jornais já amarelados estão afixados numa parede da pequena capela de madeira. "O corpo do padre Tibério Fernandez foi encontrado degolado, desmembrado e castrado nas águas do rio Cauca", anuncia a manchete de um deles, com data de 17 de abril de 1990. Ao lado do recorte está afixada a foto de uma jovem mulher. Esta era a sobrinha do padre, que foi estuprada e assassinada diante dele. Num livro para anotações encadernado, os paroquianos de Trujillo consignaram por meio de sua escrita desajeitada as recordações que eles mantiveram do padre e da sangrenta onda de violência que, há vinte anos, desabou sobre a sua região.

Empoleirada numa área verde da cordilheira dos Andes, no oeste da Colômbia, a municipalidade de Trujillo conta atualmente 22 mil habitantes, dos quais mais da metade vive na zona rural. Neste lugar, entre 1988 e 1994, 342 pessoas foram vítimas de torturas e assassinadas, segundo um levantamento efetuado pela associação local das famílias das vítimas. Os corpos de outras dezenas de vítimas nunca mais foram encontrados.

No decorrer desses anos sombrios, a Colômbia inteira conheceu uma explosão de violência. Em várias regiões do país, inclusive em Trujillo, o exército, a polícia e muitos eleitos locais compactuaram com os narcotraficantes para imporem o domínio do terror. Milícias locais foram constituídas, enquanto uma violência multiforme acabou se sobrepondo às rivalidades políticas tradicionais. Atualmente, militares, guerrilheiros, narcotraficantes, paramilitares e delinqüentes ainda seguem disputando entre si o controle de um território fragmentado.

Um modesto Parque da Memória, que foi profanado em inúmeras oportunidades, paira até hoje acima do grande vilarejo de Trujillo, no qual se destaca um campanário branco. Os despojos das vítimas, ou, quando estes não existem, fotos e objetos que lhes pertenceram, foram embutidos e selados dentro do muro que serpenteia ao longo do caminho. Debaixo de cada placa comemorativa, um afresco ingênuo relembra a profissão do falecido. Há camponeses, colhedores de amoras ou de café, carpinteiros, professores de curso primário, enfermeiros... Doña Consuelo, que cuida de decorar o lugar com flores e orienta os visitantes, perdeu o seu marido, que foi torturado pelo exército e morreu em conseqüência disso cinco meses mais tarde. Dois dos seus filhos desapareceram. Eles tinham 14 e 16 anos.

Por sua vez, Gloria Amparo Espinosa, a jovem prefeita da cidade, afirma ter tido mais "sorte", uma vez que o seu pai, que foi abatido com uma bala na cabeça, não chegou a ser torturado e que ele pôde ser enterrado com dignidade. Um privilégio. "Em Trujillo, os carrascos recorreram a técnicas de tortura e deram mostras de uma crueldade sem precedente, desmembrando por meio de serras elétricas suas vítimas ainda vivas", lembra o sociólogo Álvaro Camacho. No decorrer dos anos 1990, a serra elétrica se tornaria o símbolo dos massacres perpetrados pelos paramilitares e das "escolas da morte" que se disseminaram pelo país afora. Nelas, os jovens milicianos aprenderam como esquartejar os corpos humanos.

"Trujillo, uma tragédia que nunca acaba". Este é o título do relatório que deverá ser apresentado oficialmente na terça-feira, 16 de setembro, pela Comissão Nacional de Reparação e Reconciliação (CNRR). Fundada em 2005, no quadro do processo de desmobilização dos paramilitares, esta comissão constituiu um grupo de trabalho cuja meta é de reconstituir a "memória histórica". "Quando a impunidade é a regra, a memória torna-se uma forma de justiça para com as vítimas", explica o historiador Gonzalo Sanchez. Ele dirige a equipe de universitários encarregada de recompor os fatos históricos que marcaram um conflito armado que durou meio-século.

A tarefa é demasiadamente vasta para poder ser concluída com sucesso. Foram recenseados no total 2.505 massacres - que causaram a morte de 14 mil pessoas - entre 1982 e 2007 na Colômbia. Diante disso, Gonzalo Sanchez e seus colegas optaram por concentrar seu trabalho numa série de casos emblemáticos. Entre estes, Trujillo tornou-se destaque, e foi nesta cidade que eles quiseram mostrar em primeira-mão suas pesquisas. No início de setembro, portanto, a equipe de pesquisadores viajou até a cidade para apresentar o resultado dos seus estudos - um relatório de 300 páginas - para os habitantes de Trujillo. Uma breve cerimônia foi organizada no Parque da Memória.

"Nós pensávamos que, vinte anos depois, o drama, as tensões e as paixões estariam apaziguados por aqui", conte a cientista política Maria Emma Wills. Um trabalho de reabilitação da memória já havia sido realizado na cidade - para o qual as mulheres e a Igreja haviam desempenhado um papel determinante. Mas, uma vez que os culpados nunca foram punidos, e que os corpos de dezenas de vítimas nunca puderam ser enterrados, as feridas nunca chegaram a ser cicatrizadas. Pior ainda, as milícias a serviço dos narcotraficantes - cujos integrantes são chamados de "rastrojos" ("ervas daninhas") e de "machos" - seguem atuando em meio à impunidade. Lucila, 79 anos, chora a morte do seu último filho, que fora abatido em julho deste ano, e do seu neto de 28 anos, que foi enterrado alguns dias atrás. Falando em voz baixa, um eleito de Trujillo afirma que, ainda na sexta-feira, 5 de setembro, um morador do vilarejo desapareceu. Assim, por essas e outras, o relatório da CNRR merece mesmo o seu título: a tragédia colombiana nunca acaba.

Fundada no início dos anos 1920 por pioneiros plantadores de café, Trujillo nunca chegou a conhecer verdadeiramente a paz. Por muito tempo, as elites políticas nela disputaram o poder entre si. Primeiro, os conservadores enfrentaram os liberais, e depois, os conservadores lutaram entre si. Revólveres e facões conheceram longos períodos de fartura nesta cidade, e isso desde os anos 1950.

Mas, a partir do final dos anos 1980, a violência evoluiu para uma dimensão superior. O pequeno Exército de Liberação Nacional (ELN), que surgira vinte anos mais cedo na esteira da revolução cubana, instalou-se nos contrafortes da montanha. Os guerrilheiros começaram então a extorquir a população, e, dependendo da oportunidade, a seqüestrar os grandes proprietários contra pagamento de resgate. Pouco depois, chegou a vez dos narcotraficantes, então em plena expansão, praticarem os mesmos crimes. Situada na foz do cânion de Garrapatas, que desemboca no oceano Pacífico, a região de Trujillo oferece uma localização estratégica e um tipo de relevo ideal para todos os tráficos ilícitos.

Da mesma forma que no restante do país, os camponeses e os trabalhadores diaristas tentaram então, na medida do possível, defender seus direitos. Preocupado com a situação crítica dos mais pobres, o padre Tibério Fernandez - que chegara à região em 1984 - organizou cooperativas e atos de protesto. A luta contra "os subversivos" - os guerrilheiros e seus supostos aliados - forneceu o pretexto para uma aliança sombria entre os narcotraficantes e os militares. Em março de 1990, onze soldados morreram numa emboscada armada pelo ELN. Naquele momento, os atos de violência contra os civis e a barbárie alcançaram seu ápice. "Os massacres aniquilaram a capacidade de reação da população", constatam os autores do relatório. O terror destruiu todo esboço ou tentativa de organização social. Mais ainda do que o temor de sofrer represálias, a mutilação dos cadáveres, característica de uma "violência inútil", revelou ser terrivelmente eficiente de um ponto de vista simbólico. "Nós nem sequer ousávamos descrever aquilo que estávamos sofrendo", resume Gloria Amparo Espinosa.

Dois narcotraficantes então desconhecidos do grande público - Diego Montoya e Henry Loaiza, conhecido como o "Escorpião", - organizaram as milícias. Foi dentro das suas propriedades que os civis foram massacrados às dezenas. Mas, os habitantes de Trujillo afirmam de maneira categórica que "o homem da serra elétrica" era mesmo Alirio Urreña, que era um major do exército na época dos fatos. "Os crimes foram perpetrados e planejados conjuntamente pelos militares e pelas estruturas criminosas organizadas pelos narcotraficantes", afirmam os autores do relatório da CNRR. Don Diego e o "Escorpião" foram capturados apenas em função das acusações de tráfico de drogas que pesavam contra eles. E foi apenas recentemente que Alirio Urreña acabou sendo colocado em detenção preventiva, 18 anos depois dos fatos. "A impunidade também constitui uma forma de agressão contra as vítimas", comenta Álvaro Camacho.

Em 1995, diante das pressões exercidas pela Comissão Interamericana dos Direitos Humanos, o Estado colombiano reconheceu, contudo, a sua responsabilidade nos massacres de Trujillo. Era a primeira vez que um governo admitia uma culpa desta natureza em toda a história do país. Uma comissão organizada para esta finalidade foi então nomeada. Depois de um inquérito, ela apontou os culpados potenciais e pediu ao Estado para indenizar as vítimas. Contudo, 34 famílias apenas chegariam a ser indenizadas. Além disso, o plano de desenvolvimento que havia sido proposto a título de reparação coletiva permaneceria letra morta.

Yamileth Vargas, 22 anos, uma jovem mulher de 1,40 m, movida por uma determinação inquebrantável, trabalha atualmente como militante no quadro da Associação Nacional das Vítimas de Crimes de Estado. Ela tinha 4 anos quando o seu pai, um marceneiro, desapareceu. Hoje, ela exige "a verdade, justiça e reparação", ou seja, o lema que também mobiliza as organizações de defesa dos direitos humanos. Por sua vez, Diocelina, 75 anos, mãe de um filho desaparecido, não compreende ao certo essas palavras: ela antes preferiria que o governo lhe oferecesse finalmente "uma pequena moradia".

O diretor de uma rádio comunitária, Alfredo Marin se interroga a respeito das virtudes desse trabalho de memória: "Já que ninguém nunca pagou pelos crimes que foram cometidos, por que então continuar acenando com promessas para iludir as famílias das vítimas?", questiona. "Aliás, tudo o que querem algumas dentre elas é esquecer, de uma vez por todas. É verdade que em Trujillo, ainda há muitos problemas. Mas, não seria melhor pensarmos agora no futuro? Nós precisamos atrair os investimentos e desenvolver o turismo. E não será erigindo monumentos dedicados à preservação da memória dos massacres que alcançaremos esses objetivos".

Para beneficiarem das reduções de pena previstas pela lei, os chefes paramilitares, atualmente desmobilizados, fizeram questão de confessarem seus crimes. As suas confissões - mesmo que elas sejam incompletas - contribuem para alimentar a memória em fase de consolidação do conflito colombiano. "Trata-se de uma memória histórica, da qual certos traços permanecem terrivelmente presentes", precisa o relatório da CNRR.

Após ter confessado seus crimes, um general do exército, Rito Alejo del Rio, acaba de ser preso em Bogotá. Yamileth Vargas se pergunta: "No que nos diz respeito, já faz 18 anos que nós denunciamos, sem resultado, os crimes que foram cometidos pelos militares em Trujillo. Por que, quando é feito pelos paramilitares, o relato dos eventos se torna mais crível do que quando é feito pelas vítimas?" Jean-Yves de Neufville

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