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24/09/2008

Na Dinamarca, os inventores da "flexisegurança" enfrentam dificuldades políticas

Le Monde
Olivier Truc
Em Estocolmo (Suécia)
Os social-democratas dinamarqueses, conhecidos por serem os inventores do modelo da "flexisegurança" (em inglês, "flexicurity") que influenciou profundamente as políticas sociais na Europa, vêm enfrentando sérias dificuldades. No atual contexto político, a luz no fim do túnel ainda está muito distante para estes que haviam inventado este neologismo, que combina as palavras "flexibilidade" e "segurança", e que descreve um sistema social que conjuga uma maior agilidade do processo de demissão para as empresas (flexibilidade) com indenizações extensas e substanciais para os assalariados demitidos (segurança).

A derrocada dos social-democratas teve início logo no final dos anos 1990, quando o governo do social-democrata Poul Nyrup Rasmussen, que é atualmente o presidente do Partido Socialista Europeu, apresentou perante o Parlamento as primeiras leis que endureceram a política de imigração dinamarquesa, as quais foram aprovadas.

Tratava-se de se antecipar às reivindicações de uma extrema-direita que estava ganhando força e que estava atraindo então um grande número de eleitores de esquerda. A estratégia fora um fracasso total. Desde 2001, o governo de coalizão liberal-conservador vem se mantendo no poder por conta da ajuda geralmente tumultuada, porém nunca questionada que lhe é prestada pelo Partido do Povo Dinamarquês (DF), a agremiação de extrema-direita que comanda uma parte importante da agenda política do país.

Quando ele retomou por conta própria os melhores argumentos da social-democracia, ocupando seus terrenos de predileção, o primeiro-ministro liberal Anders Fogh Rasmussen, um antigo adversário implacável do Estado de bem-estar social, renunciou à sua retórica neoliberal, abstendo-se de reivindicar reduções de impostos, a desregulamentação das transações financeiras e a redução da intervenção do Estado. Os partidos que gravitam em volta da esfera governamental "aprenderam a falar a língua social-democrata, o que eles passaram a fazer em certos casos sem sotaque", comentou o jornal "Berlingske Tidende".

Apesar dos seus fracassos sucessivos nas eleições legislativas - em novembro de 2007, eles obtiveram o seu pior resultado desde 1906, atraindo para a sua lista não mais do que 25,5% dos votos - os social-democratas não conseguiram renovar seu elenco de propostas. Eles nada fizeram a não ser aprovarem as iniciativas dos liberais, quer se tratasse do congelamento dos impostos, uma medida muito popular entre os eleitores, mesmo se ela contribui para aumentar ainda mais as desigualdades entre ricos e pobres, quer das questões de imigração.

Ritt Bjerregaard, uma antiga comissária européia e atualmente a prefeita da capital, acaba de celebrar uma aliança com os liberais e os conservadores, o que lhe permitirá obter a aprovação do seu orçamento para administrar Copenhague, um orçamento que se baseia, entre outras medidas, em reduções de impostos.

"Irrealista"

"Ao que tudo indica, é provável que os social-democratas tivessem se mostrado próximos demais do governo em relação às questões de imigração e de integração dos imigrantes, e prudentes demais em relação às maneiras de se desenvolver o Estado de bem-estar social", analisa Ole Sohn, uma dirigente do Partido Socialista Popular. No mapa político da Dinamarca, esta agremiação, que está situada na ala esquerda dos social-democratas, conta atualmente com ventos favoráveis.

O impasse em meio ao qual se encontra a social-democracia dinamarquesa neste momento foi ilustrado recentemente pelo convite que os seus dirigentes receberam da líder da extrema-direita, Pia Kjærsgaard, a presidente do Partido do Povo Dinamarquês. Esta lhes propôs formarem, juntos, uma equipe de governo, declarando-se muito próxima das idéias dos social-democratas em relação ao Estado de bem-estar social.

"É uma proposta irrealista", respondeu Morten Bødskov, um responsável do partido social-democrata. "Existem chances muito maiores de se encontrar o monstro do Loch Ness do que possibilidades de formarmos um governo com eles". Contudo, esse "beijo de Judas", que se destina em parte a exercer pressões sobre o governo, não deixa de ser muito revelador do tamanho da armadilha na qual os social-democratas acabaram ficando presos. Jean-Yves de Neufville

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