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24/09/2008

São Paulo: para Lula, os efeitos da crise serão "quase imperceptíveis" no Brasil

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
No Rio de Janeiro
"A crise? Perguntem a Bush, é a dele, não a minha!" O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, fustiga a um só tempo os Estados Unidos, por causa da "lentidão" da sua reação, os bancos, "essas instituições que adoram dar lições estão indo à falência", e "o cassino do sistema financeiro internacional, onde alguns apostaram na roleta e perderam". Mas, tratando-se do seu país, ele busca mostrar-se tranqüilizador: "Nós não permitiremos que o Brasil seja vítima desses jogos de azar". Entretanto, ele se mostra sem dúvida um pouco otimista demais quando prevê que os efeitos da crise serão "quase imperceptíveis" no Brasil.

De fato, a Bolsa e a moeda foram atingidas em cheio pela tempestade financeira. Em São Paulo, a maior praça financeira de América Latina conheceu as suas piores jornadas desde 11 de setembro de 2001. O seu principal indicador, o índice Ibovespa, sofreu uma dura queda antes de recuperar, cinco dias mais tarde, o seu nível anterior. A moeda, o real, viu acelerar-se a sua tendência à queda em relação ao dólar, que havia sido iniciada algumas semanas atrás. A divisa brasileira perdeu todos os ganhos que haviam sido acumulados desde janeiro.

Por sua vez, o movimento de "io-iô" da Bolsa não chegou a ser tão dramático. Os índices de mercado não paravam de subir desde 2004. Os seus progressos registravam o bom desempenho da economia. O índice Bovespa havia alcançado um nível recorde em maio, mas acabou sofrendo uma queda de 30%. Um grande número de valores, que até então vinham sendo artificialmente valorizados pela euforia do mercado local, estava e continua sendo excessivo. Na opinião de muitos especialistas, a crise atual oferece a oportunidade para se operar uma correção salutar dessas distorções. A Bolsa está procedendo a uma "limpeza" de si mesma. Ao apurar seus valores, ela faz com que os seus atores possam consolidar suas posições. Uma vez que as empresas cotadas, em sua maioria, apresentam uma boa saúde e se mostram resistentes, o mercado deverá recuperar aos poucos um novo vigor.

Em contrapartida, a fragilidade da moeda revela ser mais preocupante. Não faltavam aqueles que a consideravam como excessivamente valorizada, mas hoje, os mesmos lamentam a maneira como ela desmoronou, vitimada por uma fuga dos capitais. Obrigados a retirarem os ganhos obtidos no Brasil para cobrirem suas perdas em outras praças, os investidores provocaram de fato uma forte queda do real.

Este ataque evidenciou a vulnerabilidade do Brasil, que se tornou muito dependente das movimentações dos fundos especulativos no curto prazo. As quantias movimentadas por esses fundos representam o triplo do montante, ainda que muito confortável - de US$ 208 bilhões (R$ 374 bilhões) -, das reservas em divisas do país.

O crescimento do PIB havia alcançado 5,4% em 2007. Com uma projeção de crescimento de 4,6% em 2008, o produto interno bruto deverá alcançar um teto situado entre 3% e 3,5% em 2009. Essa queda deverá ocorrer se, conforme alguns observadores brasileiros estão temendo, a contração do comércio mundial provocar uma diminuição da demanda das matérias-primas e dos produtos agrícolas, e consequentemente dos seus preços.

O Brasil ampliou o leque dos seus clientes. Os Estados Unidos hoje não absorvem mais do que 14% das suas vendas, contra 24% em 2000, isso porque a China aumentou consideravelmente a sua participação (11%). Contudo, os Estados Unidos e a Europa ainda compram cerca da metade das exportações brasileiras. Caso esses dois "clientes" viessem a sofrer uma quase-recessão em seus mercados, isso prejudicaria forçosamente a balança comercial brasileira. Por enquanto, a maior parte dos especialistas segue acreditando na manutenção de uma demanda sustentada dos produtos agrícolas.

O bom comportamento dos indicadores fundamentais da sua economia justifica o prudente otimismo dos brasileiros. A inflação permanece contida por volta de 4,5%. Promovido ao status de "país seguro" pelos investidores, o Brasil tornou-se "credor" desde que as suas reservas superaram o montante da sua dívida externa pública e privada. Por sua vez, o crédito interno deverá sem dúvida sofrer um aperto, mas os bancos brasileiros apresentam uma boa saúde. A sua prosperidade reflete um dinamismo interno que vem sendo alimentado pelos investimentos das empresas e pelo consumo das famílias. Jean-Yves de Neufville

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