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27/09/2008

O frisson do totalitarismo ainda atravessa os países bálticos

Le Monde
Marine Dumeurger
Em Plokstiné (Lituânia)
Cercas de arame-farpado, portão de ferro, guarita com sentinelas... Logo na entrada da cidade, em Karosta, os turistas são forçados à obediência. Trajando botas "rangers", um quepe verde caqui no qual está estampada uma estrela vermelha, um oficial em uniforme soviético se apresenta, segurando uma lista na capa da qual se destaca a sigla KGB, dos antigos serviços secretos soviéticos. Sobre a porta blindada, uma inscrição: "Karosta prison: Excursion. Accomodation. Reality show" (Prisão de Karosta: Excursão. Alojamentos. Reality show).

A cena acontece na região sudoeste da Letônia, na antiga base naval soviética de Karosta. Perdida e isolada num rincão da floresta, chicoteada pelos ventos do mar Báltico, esta cidade militar por muito tempo teve a sua existência mantida em segredo. E isso, até a independência, em 1991. Somente a partir desta data, ela passou a constar dos mapas. Ela concentrava quartéis, alojamentos, um ginásio, um hospital. Mais de dez mil pessoas nela residiam. Atualmente, ainda sobraram imponentes construções de tijolo vermelho nas quais se destacam janelas escancaradas, além de algumas mansões para oficiais superiores, colossais e desbotadas, e pavorosos prédios cinzentos, onde os soldados viviam junto com a sua família. Até hoje, oito mil pessoas ainda moram em Karosta, das quais 80% são russas.

A prisão militar, que foi reformada e adaptada, é uma das atrações para os turistas. Uma vez que a pesada porta é fechada, a visita pode durar apenas quinze minutos, ou até mesmo um dia inteiro, dependendo do roteiro que o visitante escolheu. No programa, um pouco de história e, sobretudo, muita encenação. Por cerca de 15 euros (cerca de R$ 40), os interessados podem até mesmo passar uma noite dentro de uma cela.

Neste dia, a equipe feminina de hóquei sobre gelo de Riga alistou-se como voluntária. As ordens são claras. A voz, autoritária. As participantes devem ficar alinhadas, com as mãos para trás, grudadas nas costas, manterem os pés paralelos e olharem para o chão. Andarem em fileiras próximas umas das outras. As jovens mulheres soltam gargalhadas. Elas devem efetuar uma série de abdominais. O capitão Juris Rakis dirige o grupo com uma autoridade implacável. Ele comanda também a prisão e faz questão de ser chamado de "chefe". Trancadas dentro de um calabouço úmido, as veranistas ouvem a história do homem que desertou em três oportunidades. Executado, ele teria sido enterrado num lugar perto dali. O disparo de uma arma ressoa. Segue-se um silêncio de chumbo. Em meio a um cheiro de mofado, uma bandeira soviética se agita ao sabor do vento. Então, o militar enumera as punições que costumam ser reservadas para os prisioneiros: limpar os toaletes das suas fezes por meio de uma colher; marchar, dando 120 passos exatamente, uma vez a cada hora; privação de descanso, e de alimentos.

"Tudo isso é interessante. A gente descobre certas coisas que não são ensinadas na escola", comenta uma das jovens mulheres na saída. Com o semblante contrariado, uma habitante confessa: "Vocês precisam saber que muitas pessoas sofreram aqui. Elas até morreram por causa disso". A poucos metros da prisão, dezenas de corpos jazem dentro de túmulos, no cemitério militar. Por sua vez, Juris Rakis prefere se referir ao dever de memória. "Nós queremos mostrar a realidade daquela época. Nós não podemos ocultar nenhum período da história, mesmo se este foi doloroso".

Na Lituânia, o país vizinho, Viliumas Malilauska é outro que também explora comercialmente sua pepita soviética. Após ter acumulado sua fortuna no ramo dos cogumelos, este homem de negócios resolveu instalar dezenas de estátuas bolcheviques no meio de um pântano drenado. Em 1º de abril de 2001, o Parque Grutas foi inaugurado. Enquanto passeia em meio a uma paisagem bucólica, o visitante cruza com militares e com revolucionários. No decorrer da caminhada, ele se depara com um Lênin descontraído ou com um Stálin severo, perdidos numa floresta de coníferas.

Por muito tempo, essas figuras desmedidas oprimiram os lituanos. "Quando a independência foi declarada, era grande o risco de vê-las serem destruídas, da mesma forma que em muitos outros países. Mas era necessário utilizá-las para mostrar a ideologia e os crimes", comenta o fundador do Parque Grutas. A uma centena de esculturas acrescentam-se uma enorme quantidade de documentos, além de uma réplica exata de uma repartição pública reservada para as votações, um restaurante soviético e algumas guaritas com sentinelas. Os visitantes mais novos podem brincar num terreno de jogos "made in URSS", que inclui torniquetes de madeira e gangorras rígidas. Quando foi lançada, a iniciativa causou uma forte polêmica. Atualmente, os turistas afluem em grande número, tanto lituanos como estrangeiros.

Situada a menos de duzentos quilômetros dali, ainda na Lituânia, a antiga base militar de Plokstiné pertence a uma categoria à parte, a dos lugares assombrados pelo mistério. Ela transporta o visitante até o coração da guerra fria. Construídas em 1960, as suas quatro rampas de lançamento tinham a capacidade de atirar contra qualquer país da Europa do Oeste foguetes R12 de 23 metros de comprimento, munidos de ogivas nucleares. Dissimulada no meio de uma floresta vasta e profunda - o atual Parque Nacional de Zemaitija -, a zona proibida estava protegida por seis sistemas de segurança diferentes, entre os quais uma barreira eletrificada dotada de uma potência de mais de 1.700 volts.

Atualmente, os quatro domos de concretos permanecem no mesmo lugar. As estruturas estão cobertas de musgo. O metal está enferrujado. Nas paredes, as inscrições em russo estão praticamente apagadas. Mas, ainda é possível aceder à antiga sala de comando. Lá, alguns objetos estão expostos: máscaras de oxigênio, um retrato de Lênin, um manual que explica como manusear uma metralhadora kalachnikov. Na parede, um mapa de época recenseia os países alvejados: a Alemanha do Oeste, a Grã-Bretanha, a Noruega, e até mesmo a Espanha e a Turquia.

O visitante se depara com o lugar mais impressionante desta antiga base, caminhando até o final de uma galeria úmida. Um buraco glacial, de uma profundidade de 27 metros recebia os mísseis. Desde a partida dos militares russos, ele está vazio. Em 1979, os Estados Unidos e a URSS se comprometeram a reduzir seu armamento, ao firmarem o acordo Salt II. A base foi então fechada. Os foguetes nucleares desapareceram. Ninguém sabe para onde foram levados. Em Plokstiné, muitas coisas permaneceram pouco ou mal conhecidas. Os operários eram estrangeiros. O local foi saqueado. Os arquivos russos estão fechados. "É possível aprender esta história a partir de diversas fontes. Recentemente, um grupo de estonianos apareceu por aqui. Um deles havia participado da construção da base. Nós pudemos conversar a respeito", conta Ausra Brazdeikyte, a responsável do turismo no parque.

Todos esses enigmas atraem os curiosos. Aliás, as autoridades locais já estão estudando renovar a antiga aldeia militar situada não longe dali. "O parque pertence ao governo", explica Ausra Brazdeikyte, querendo se defender de toda acusação de mercantilismo. "Nós queremos expor nosso patrimônio histórico. O nosso objetivo não é lucrativo". Jean-Yves de Neufville

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