UOL Notícias Internacional
 

30/09/2008

No Paraguai, muitos "brasiguaios" se sentem ameaçados pela reforma agrária anunciada

Le Monde
Christine Legrand
Em San Pedro de Ycuamandiyu (Paraguai)
"Nós estamos convivendo constantemente com o medo, somos as vítimas de uma perseguição racial", dispara Valídio Eichelbelger, o proprietário de um centro de produção agrícola de 140 hectares. Valídio é brasileiro, mas ele vive no Paraguai há mais de trinta anos, desde que o seu pai se instalou no Alto Paraná, a região sudoeste do país, situada na fronteira com o Brasil. Existem cerca de 300 mil "brasiguaios" no Paraguai, dos quais 80% praticam uma cultura intensiva da soja. Recentemente, na cidade de San Alberto de Mbaracayu (Alto Paraná), onde a maioria dos 23 mil habitantes é de origem brasileira, um "brasiguaio" foi eleito prefeito.

Junto com os seus dois irmãos, Valídio se mudou em 2003 para a região de San Pedro de Ycuamandiyu, ao norte da capital, Assunção, "onde a terra está mais em conta". Eles denunciam o assédio constante do qual eles têm sido vítimas por parte dos camponeses sem-terra que, segundo afirmam, andam armados. "Três semanas atrás, eles puseram fogo numa das minhas lavouras, cujo tamanho é de 19 hectares", lamenta-se Jorge Eichelbelger. Ele está casado com uma paraguaia, Fátima, que é professora de curso primário. Esta última comenta que "a maioria dos filhos dos brasiguaios fala em guarani", a língua oficial, ao mesmo título que o espanhol, que é a língua falada por 90% dos paraguaios. No entanto, ela também acrescenta que "eles estão com medo de comparecer na escola, por se sentirem discriminados".

Durante dez anos, o departamento de San Pedro, o mais pobre do país, também veio a ser a diocese de Fernando Lugo, o antigo bispo que tomou posse na função de presidente do Paraguai em 15 de agosto. A eleição histórica do "bispo vermelho", que havia consolidado durante aquele período a sua imagem de apóstolo dos sem-terra, encerrou um período de hegemonia do Partido Colorado que durou mais de sessenta anos, e fez nascer uma imensa esperança num país corroído pela corrupção. O Paraguai é o segundo país mais pobre da América do Sul, depois da Bolívia.

Nas campanhas paraguaias, a situação tornou-se explosiva. As ocupações de plantações que pertencem a fazendeiros brasileiros são freqüentes, e elas quase sempre resultam em intervenções violentas da polícia. Ao longo dos últimos dez anos, 77 militantes camponeses foram mortos, enquanto centenas deles estão encarceradas, respondendo à acusação de terrorismo. É avaliado em mais de 300 mil o número de camponeses sem-terra, em relação a uma população total de 6 milhões de habitantes.

Com isso, os brasiguaios apresentam o risco de se tornarem um motivo de conflito com o Brasil, o principal parceiro econômico do Paraguai. "Lugo prometeu promover uma reforma agrária integral", lembram os irmãos Eichelbelger. Diante disso, eles temem ser expropriados.

A 25 km de San Pedro, o solo de Colônia Victoria apresenta uma incrível cor vermelha. Uma chuva diluviana transformou em lama o caminho de terra que conduz a uma barraca, confeccionada com sacos de lixo, debaixo da qual cinco camponeses sem-terra montam a guarda. Eles estão acampados na borda de uma propriedade de 800 hectares que pertence a brasiguaios. Segundo dados oficiais, 52 famílias de camponeses reivindicam a propriedade dessas terras, as quais lhes haviam sido atribuídas, em 2007, pelo Instituto Público de Desenvolvimento Rural e da Terra (Indert). "Mas, no último momento, as terras acabaram sendo vendidas para brasiguaios, porque estes estavam oferecendo mais dinheiro", denuncia o dirigente camponês Pedro Caballero. Este último que é um amigo de longa data de Fernando Lugo, se diz reconhecido para com "o bispo dos pobres" por este ter financiado seus estudos.

Pedro Caballero acrescenta que o presidente Lugo "precisa promover uma profunda reforma do poder judiciário, que foi carcomido pela corrupção, além de redistribuir as terras que foram adquiridas ilegalmente, e ainda deter a expansão da cultura mecanizada da soja transgênica, que não cria qualquer emprego e destrói o nosso meio-ambiente". Ele acusa os brasiguaios de utilizarem "produtos químicos tóxicos que são proibidos, violando desta forma as leis do nosso país".

O governador de San Pedro, Jorge Ledesma, defende uma opinião similar. Ele também foi um daqueles que lutaram contra as injustiças ao lado do antigo bispo. Ele denuncia "uma invasão por parte de colonos brasileiros", que foi incentivada pela "burocracia mafiosa" dos governos anteriores. Além do mais, o Paraguai desponta como um paraíso fiscal para as multinacionais da soja. "Elas pagam apenas um imposto de 4% sobre as suas exportações", explica o governador. Ele admite que o problema da propriedade da terra não se limita apenas à presença dos brasiguaios. Neste país, que é essencialmente agrícola, não mais de 1% da população controla 77% das terras cultiváveis.

Recentemente, o governo divulgou uma lista de pessoas - muitas das quais são funcionários públicos - para as quais foram atribuídas terras de maneira irregular. Dessas terras, 7 milhões de hectares foram distribuídos durante a ditadura do general Alfredo Stroessner (1954-1989) e 1 milhão desde o retorno da democracia. O presidente Lugo assegurou que a "Constituição garante o direito da propriedade privada", mas, ao mesmo tempo, ele reivindicou "o direito de todos os paraguaios a poderem aceder à posse da terra".

A 70 km de San Pedro de Ycuamandiyu, uma área está ocupada por gigantescos silos. Eles pertencem a Tranqüilo Favero, um brasileiro que os locais batizaram de "rei da soja". "Ele possui 1 milhão de hectares", garante Wilfrido Garcete, um consultor privado especializado nas questões ambientais. O Paraguai é o quarto maior exportador de soja no mundo, depois dos Estados Unidos, do Brasil e da Argentina. Jean-Yves de Neufville

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