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02/10/2008

Obama, a crise e o controle parental

Le Monde
Corine Lesnes
Em Washington (EUA)
Será que já chegamos a Thornton? Ou ainda estaríamos em Broomfield? As cidades de periferia se seguem e são muito parecidas entre si no coração da América, mesmo se o céu azul, nesta última, não deixa espaço para qualquer dúvida. Nós estamos no Colorado. Aqui, são trezentos dias de sol por ano, afirma a propaganda do Estado. Neste ano, este é considerado como um "swing State", ou seja, um Estado republicano tentado por Barack Obama.

Nesta manhã de segunda-feira, uma fila única se estende por várias centenas de metros na frente de um cubo de concreto que poderia ser um supermercado, mas que de fato acabou sendo um colégio. Este é um espetáculo bastante comum nesta campanha eleitoral de 2008. Os americanos, pacientes, disciplinados, aguardam a sua vez para passarem pelos controles de segurança. Na prática, esta campanha já dura cerca de dois anos. Dentro de cinco semanas, a votação vai acontecer. Todo mundo está pronto.

Barack Obama está sendo esperado para um comício nesta escola da região, a Mountain Range High School de Westminster (é fácil ir até lá, pois fica perto de Broomfield). O condado apresenta a taxa mais elevada de penhoras judiciais de bens imobiliários da região (1 casa ou apartamento em cada 44), por obra dos predadores que se deleitaram ao venderem "produtos financeiros" para os imigrantes. Os cidadãos de origem latino-americana são raros no meio da platéia, pois este é um dia útil, mas o presidente da assembléia local, Andrew Romanoff, está dando uma entrevista para o diário "Noticias Colorado", falando no seu melhor espanhol. Para fazer o público pacientar, um assistente está efetuando uma pesquisa. Quem já encaminhou um pedido para votar por correspondência? Praticamente todas as pessoas presentes na platéia levantam a mão. Para elas, está fora de cogitação fazer fila como aconteceu em 2004, quando o último eleitor votou à meia-noite, quatro horas depois do fechamento oficial dos centros de votação.

Barack Obama está atrasado. As pessoas seguem aguardando, e nem mesmo os bebês dentro dos seus carrinhos mostram qualquer irritação. A América na hora da crise está dando mostras de uma paciência infinita. Enquanto o pânico toma conta de Wall Street, a província ainda consegue manter a calma.

Michael Scanlon trabalha num fundo de pensão. Aos 40 anos, ele prefere não se preocupar sobremaneira com a situação das suas ações ("não vou mexer em nada até que a queda se estabilize"). E, de qualquer forma, o que mais poderia ele fazer? "Nós estamos dentro de um buraco. Tenho dívidas, todo mundo tem dívidas. O governo tem dívidas..."

Denise Rutz é enfermeira. Ela nem sequer verifica os extratos do seu plano de aposentadoria, pois, segundo ela, "o que adianta a gente levar sustos?" A decisão de se manter otimista é manifestada até mesmo pelo jovem rapaz que está vendendo (por US$ 5,00! - cerca de R$ 9,50) botons em forma de moeda de ouro com os dizeres "In Obama we trust" ("Em Obama nós confiamos"): "Está certo, o índice Dow Jones perdeu 700 pontos. Mas, até que nível ele havia subido até então? Eu vivo dizendo para as pessoas: vejam todo o dinheiro que vocês produziram anteriormente!"

Barack Obama atrasou-se porque ele está reescrevendo o seu discurso. O plano de salvamento de Wall Street não foi adotado em Washington. Ao chegar, ele pede desculpas. O candidato explica que ele estava no telefone, falando com o secretário do Tesouro, Henry Paulson. Barack Obama busca relativizar, desdramatizar a gravidade da situação. Os americanos precisam "manter a calma". Todos sabem que as coisas no Congresso sempre acontecem aos trancos e barrancos. Um plano de estabilização acabará sendo aprovado, mas até lá, haverá "turbulências", "um pouco como quando se chega a Denver de avião. Você sabe que acabará aterrissando cedo ou tarde, mas nem sempre é divertido passar acima das montanhas".

O candidato sem experiência já está falando com a desenvoltura de um veterano de guerra. É impossível deixar de pensar no caminho que ele percorreu desde as primárias, quando ainda predominavam o exotismo e os discursos estratosféricos sobre a mudança. Em menos de um ano, o "calouro" já ganhou alguns fios de cabelo brancos (foi ele mesmo quem confessou o fato). E, graças a Sarah Palin, ele, por assim dizer, se banalizou. A miss Alaska de John McCain o envelheceu, e dele tirou aquela pecha de star colunável da mídia (mudança essa que deve deixá-lo mais do que satisfeito). Barack Obama perdeu muito da imagem de jovem principiante que o marcou durante as primárias, e ganhou a de um bom pai de família que se preocupa com as atividades das crianças. Após oito anos de irresponsabilidade política, denuncia, "já não é sem tempo instaurar um controle parental" em Washington.

Com a crise, Barack Obama encontrou a sua coerência. A sua inspiração está menos voltada para a sua biografia do que para a pedagogia econômica: "As taxas dos impostos serão menos elevadas do que eram com a administração Reagan". Ele não tem necessariamente uma visão de longo alcance, mesmo se ele sempre se refere ao século 21, mas ele tem um eixo: a revanche da classe média. Se o contribuinte tiver de pagar US$ 700 bilhões, ele está no direito de impor suas decisões. No começo, nem Obama nem qualquer outro integrante da classe política haviam compreendido a dimensão exata da revolta dos seus concidadãos, e havia muito tempo que Obama se cansara de ouvir a esquerda do seu partido, mas, desde que a crise o alcançou, ele passou a surfar sobre a onda. E deixou para trás a dança do ventre que o conduzia a rebolar em volta do centro. Assim, para ele, é "inadmissível" que os americanos sejam forçados a fazerem a faxina do que restou do "esbanjamento" de Wall Street. "Se eu for eleito, eu prometo para vocês que irei rever integralmente o plano, para me certificar de que todo o seu dinheiro lhes será devolvido!"

Barack Obama promete de tudo e mais um pouco. Um plano de reaquecimento econômico, um plano para os professores, um aumento das indenizações de desemprego, uma reforma dos planos de seguro de saúde. Todos aqueles que já tiverem um seguro verão os preços abaixarem. Os outros terão direito ao mesmo tipo de cobertura que os membros do Congresso.

Mas, por enquanto, é preciso escolher o homem para a travessia, aquele "que vai conduzir o barco durante a tempestade". Ele está confiante, e ele mesmo é a encarnação de que tudo é possível. Ele diz que a América vai sair dessa, da mesma forma que ela superou a guerra civil, a Grande Depressão (1929), a segregação. A multidão exulta. "Yes we can!" (Sim, nós podemos). Impelida pelo entusiasmo, Kara Ford tira do carrinho a criancinha que estava dormindo apesar do barulho para erguê-la acima das cabeças e mostrar-lhe o homem que se tornará possivelmente, daqui a 35 dias, o presidente dos Estados Unidos. Ele também está pronto. Jean-Yves de Neufville

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