UOL Notícias Internacional
 

04/10/2008

Em Shijiazhuang, a confusão existente entre os interesses públicos e privados agravou o escândalo do leite contaminado

Le Monde
Brice Pedroletti
Em Shijiazhuang (China)
Na sede da companhia de laticínios Sanlu, em Shijiazhuang, a capital de Hebei, alguns funcionários instalados do lado de fora do prédio, na calçada, protegidos por alpendres, acolhem os raros clientes que comparecem para recuperar o dinheiro que gastaram, neste período de festa nacional, na compra de uma lata ou de um pacote de leite em pó. Sobre o teto de uma construção, um cartaz com letras gigantes proclama, em chinês e em inglês, "manufacturing quality dairy serve the people" ("fabricando laticínios de qualidade para servir o povo").

Uma empresa que gozava de um imenso prestígio entre todas as indústrias instaladas nesta cidade de 2,2 milhões de habitantes que espalha seus quarteirões de prédios por uma planície cinzenta, a Sanlu, que esteve na origem do escândalo do leite contaminado, decepcionou: "A gente só tomava leite da Sanlu. Nós tínhamos orgulho dela, por ser a única marca conhecida em nossa região. É claro que agora, nós estamos revoltados, e com toda a razão", diz um motorista de táxi que levou seu filho de nove meses para ser examinado por um médico. Este, finalmente, está com boa saúde.

Dois funcionários encarregados da comunicação do grupo Sanlu apressam-se a nos indicarem um hotel no qual a municipalidade instalou um centro de atendimento para os jornalistas estrangeiros, uma prática que está se tornando mais e mais freqüente na China pós-olímpica. O jovem executivo que dirige o centro contata uma meia-dúzia de responsáveis, os quais se recusam, entretanto, a nos conceder qualquer entrevista. Em contrapartida, ele se mostra extremamente generoso em fornecer estatísticas. Uma delas aponta que das 256.153 crianças que foram testadas na cidade, 3.653 estavam contaminadas. O governo local está decidido a demonstrar que ele não ficou de braços cruzados. Sem dúvida por temer mais uma avalanche de "cabeças degoladas", uma vez que vários altos dirigentes da cidade já foram demitidos.

Contudo, enquanto a corrida aos hospitais já está encerrada - cerca de cinqüenta recém-nascidos apenas permanecem hospitalizados em Shijiazhuang -, a mobilização dos poderes públicos, que é exemplar na teoria, acaba sendo reveladora de uma mentalidade que faz pouco caso das realidades humanas, no que vem a ser uma atitude bastante freqüente na China. Originários de Handan, uma outra cidade de Hebei, o pai e a mãe de uma criança saem perplexos de um dos hospitais de Shijiazhuang e não encontram ninguém com quem falar. Eles descobriram há vários meses que o seu filho, com idade de 3 anos, sofria de cálculos renais. Eles o conduziram para consultas até Zhengzhou, na província do Henan, num hospital mais bem equipado que o de Shijiazhuang, e depois foram até Pequim, onde ele foi submetido a quatro cirurgias.

"Nós não sabíamos de onde provinham aqueles cálculos renais. Então, todo mundo começou a falar da Sanlu e tudo ficou claro", diz o pai, Fu Guangqiang. A criança enfrentou complicações, e com isso eles tiveram de gastar dezenas de milhares de iuans em despesas médicas. Neste contexto, a questão das compensações na escala do país ainda permanece em suspenso. Isso porque a Sanlu desponta como um caso emblemático do entrelaçamento dos interesses públicos e privados na China de hoje.

A cidade é detentora de participações no capital desta grande companhia. Além disso, a Sanlu não é apenas uma importante contribuinte em impostos, como também em empregos. A indústria de laticínios local como um todo depende dela. Nos centros de produção agrícolas distribuídos nos arredores da cidade, nenhuma coleta de leite chegou a ser efetuada desde o dia 13 de setembro. A cólera alastrou-se até o momento em que o governo tomou a decisão de fornecer uma ajuda financeira de 200 iuans (cerca de R$ 60) para cada vaca, em 29 de setembro.

A presidente da Sanlu, Tian Wenhua, que está atualmente encarcerada, era uma dirigente executiva do Partido Comunista chinês que cultivava laços estreitos com a cidade. Ela havia transformado esta companhia municipal, fundada há 52 anos, na terceira maior empresa de laticínios do país, que movimentava anualmente cerca de 1 bilhão de euros (cerca de R$ 2,7 bilhões).

Este sucesso devia-se em grande parte à imagem de excelência tecnológica e sanitária que a Sanlu havia conseguido consolidar em torno das suas marcas, graças à cumplicidade dos meios de comunicação e das autoridades que supostamente deveriam regulamentar o setor. Numa reportagem publicada recentemente, David Dandurski, um dos editores do China Media Project, o site da faculdade de jornalismo da universidade de Hong-Kong, fez um levantamento de todos os artigos a respeito da Sanlu que foram publicados em 2008, quer nos principais veículos da mídia chinesa, quer no site da agência de controle sanitário. Em quase todos os casos, essas matérias revelaram ser da autoria de apenas dois "enviados especiais" que não são ninguém mais do que os dirigentes da comunicação do próprio grupo Sanlu.

No caso da Sanlu, trata-se de uma "cumplicidade duplamente perturbadora", explica este especialista da mídia chinesa. Segundo ele, as primeiras investigações conduzidas pela imprensa em julho foram abafadas, ao passo que atualmente, todos os veículos de comunicação chineses estão obrigados a reproduzirem a versão oficial, distribuída pela agência Xinhua. Nós estamos assistindo, comenta Dandurski, a uma "amplificação das mentiras a serviço dos interesses comerciais mais envolvidos com o escândalo. A grande responsável por esta operação é a censura de Estado, que manipula as informações de maneira a suprimir tudo aquilo que, contudo, reveste uma importância crítica para o bem-estar dos chineses ordinários". Jean-Yves de Neufville

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