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04/10/2008

No Rio de Janeiro, os candidatos das eleições municipais acalentam o sonho de serem prestigiados pelo presidente Lula

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
No Rio de Janeiro
A seguinte cena ocorreu nas dependências do "Jornal do Brasil", um dos grandes diários do país. Os dez principais candidatos a prefeito do Rio de Janeiro estavam reunidos na mesma tribuna, convidados para debaterem tendo em vista as eleições municipais de domingo, 5 de outubro, um pleito cujo segundo turno será realizado em 26 de outubro.

Eram oito homens e duas mulheres. O mais novo tinha 24 anos, e o mais idoso, 67. Todas as tendências políticas estavam representadas, da extrema-direita ao centro, isso porque os políticos raramente reivindicam ser de direita no Brasil. No decorrer das três horas em que trocaram idéias, entre eles e com a platéia, nenhum dos debatedores proferiu qualquer crítica contra o homem que vem dominando a cena política há cerca de seis anos, Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente da República e líder do Partido dos Trabalhadores (PT, de esquerda).

Este silêncio pudico pode ser facilmente explicado: o presidente Lula está surfando sobre a onda de uma popularidade estratosférica (83% de opiniões favoráveis, segundo uma pesquisa recente). Portanto, o simples fato de emitir algum comentário negativo a seu respeito, por mais benigno que seja, no decorrer de uma campanha eleitoral, equivaleria a apresentar um atestado de ignorância, e seria até mesmo uma atitude quase suicida. Todo candidato a um assento de prefeito acalenta o sonho de receber a unção do chefe do Estado, ou de ser filmado ao lado dele.

Este é o caso, obviamente, dos militantes do PT, mas também dos membros dos treze partidos que integram ou apóiam a coalizão governamental. Tudo se resume a uma disputa para ver quem conseguirá "revestir-se" com maior eficiência em seu próprio proveito do prestígio do presidente, que se esforça para permanecer acima dos embates, ainda que ele aceite conceder seu apoio pontual a alguns aliados específicos, movido por um pragmatismo bastante legítimo.

O ex-bispo e o guerrilheiro

No Rio de Janeiro, o candidato do PT, que não consegue desencantar e permanece nos últimos lugares segundo as pesquisas, segue aguardando até hoje que o presidente Lula lhe dê um empurrão salvador. Todos entenderam que o chefe do Estado estava torcendo pela vitória de Eduardo Paes, um protegido do governador - aliado - do Estado do Rio, Sergio Cabral.

Essa predisposição vem a calhar, uma vez que este candidato, ainda novo (38 anos), porém um experiente veterano dos pleitos e um político um tanto oportunista - ele já foi filiado a sete partidos sucessivos -, abriu uma nítida dianteira em relação aos outros competidores, sempre falando mil maravilhas do presidente. E isso, apesar dos seus adversários não se furtarem a lembrar, por meio de imagens de vídeos e recorrendo à Internet para comprovarem suas afirmações, que alguns anos atrás ele havia proferido duras críticas contra o presidente, quando este tivera sua imagem manchada por um caso de corrupção dentro do seu próprio governo.

Favorito para levar este primeiro turno, portanto, Eduardo Paes deverá enfrentar na segunda rodada um dos dois outros pesos pesados desta campanha no Rio. Estes dois personagens são tão diferentes entre si quanto é possível ser. O decano dos candidatos, Fernando Gabeira, 67 anos, teve uma juventude agitada. Após ter se envolvido com a guerrilha para lutar contra a ditadura militar, ele participou, em 1969, do seqüestro do embaixador americano no Brasil. Um deputado federal que vem sendo reeleito desde 1994, ele representa o Partido Verde (PV), do qual ele é um dos co-fundadores. Decididamente à esquerda, ele encontra os seus melhores apoios entre os jovens da classe média.

O seu principal adversário, Marcelo Crivella, 50 anos, é um antigo bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, a principal confissão evangélica no Brasil. Ele convence, sobretudo, os cariocas mais pobres e/ou os mais idosos. Embora a lei proíba misturar a política com a religião, os pastores desta Igreja não se fazem de rogados para indicarem, no final dos ofícios religiosos, qual seria a "escolha mais apropriada" para os seus fiéis.

Uma vez que o voto é obrigatório para todo cidadão a partir da idade de 18 anos, sob pena de ser multado, 130 milhões de eleitores, de um total de 190 milhões de habitantes, deverão comparecer nos centros de votação. Alguns eleitores que não nutrem ilusão alguma, deixarão seu voto na urna contra a sua própria vontade. Alécio, um operário carpinteiro, resume o ceticismo que predomina numa parte dos meios populares: "Eu irei votar porque sou obrigado a isso. Mas, realmente não tenho vontade alguma de escolher entre todos esses canalhas!" Jean-Yves de Neufville

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