UOL Notícias Internacional
 

10/10/2008

Em Mianmar, U Win Tin, o líder da oposição à junta, sai da prisão após 19 anos

Le Monde
Isabelle Tournier
Em Yangun
Após ter passado 19 anos atrás das grades, U Win Tin é finalmente um homem livre. Bem, quase. Ele não consegue circular, nem mesmo até a esquina, sem ser acompanhado por policiais, e todos os seus simpatizantes que o visitam na casa do amigo que o hospedou quando da sua saída de prisão, em 23 de setembro, sabem que o lugar está constantemente vigiado. O seu telefone está sob escuta, mas funciona. Aliás, este é o modo de comunicação que os seus amigos recomendam, ainda que com algumas precauções, aos estrangeiros de passagem em Yangun, a capital de Mianmar (ex-Birmânia), que quiserem conversar com ele, mesmo que seja de maneira clandestina.

Nada de tudo isso consegue abalar o moral de U Win Tin. Por telefone, portanto, ele se refere à sua "escolta" com humor, pede desculpas por se expressar num inglês muito aproximativo, e afirma que a sua saúde está muito boa - "até o ponto em que um homem idoso consegue estar bem". Afinal, ele tem 79 anos, e enfrentou graves problemas de saúde durante a sua detenção. Contudo, aqueles se encontraram com ele desde a sua libertação, há duas semanas, descrevem um homem repleto de entusiasmo e de energia. "Eu não sei se isso se devia à adrenalina provocada pela liberdade recém recobrada, mas ele estava em plena forma", observa um diplomata que participou, em 27 de setembro, da cerimônia do 20º aniversário da Vertente Nacional para a Democracia (VND). Naquela ocasião, quatro dias depois da sua saída de prisão, o mais importante dos opositores da junta birmanesa depois de Aung San Suu Kyi improvisou um discurso de quarenta minutos. U Win Tin é um homem da mesma estirpe que os Sakharov e os Michnik da vida, esses incorrigíveis democratas que o isolamento ou a prisão só conseguem fortalecer.

Quando faltavam poucos dias para a abertura, em Nova York, da Assembléia geral da ONU, a junta birmanesa decidiu fazer um gesto de boa-vontade. Conforme isso já ocorrera anteriormente, uma anistia foi decretada e 9.002 detentos, dos quais dez prisioneiros políticos, foram libertados. Por pouco o seu número não foi de onze, mas um dos primeiros a serem libertados, o ex-capitão Win Htein, que fora o secretário pessoal de Aung San Suu Kyi, foi novamente encarcerado, após 17 horas passadas em liberdade.

A iniciativa da junta militar foi tacanha: os cárceres birmaneses abrigam cerca de 2.100 prisioneiros de consciência, segundo os dados divulgados por diversos grupos humanitários. Contudo, dentre os dez homens que foram libertados figurava U Win Tin, o mais antigo detento político do país. Um poeta, redator chefe de um grande jornal de Mandalay, este solteiro havia se tornado um dos mais próximos conselheiros de Aung San Suu Kyi, que o apelidava de "Saya", "o sábio". Foi ao lado dele que ela fundou a VND, em 1988, da qual ele se tornou um dos dirigentes. Mais tarde, ao ser preso, em 4 de julho de 1989, U Win Tin não pôde participar das eleições de 1990, que se transformaram num triunfo da VND, mas esta viu sua vitória ser "apagada" pela junta.

Acusado de ter sido um membro do Partido Comunista, ele foi condenado a 14 anos de prisão, e depois, em 1996, a sete anos suplementares por ter transmitido para a ONU informações a respeito das condições de detenção. "Na prisão", conta um antigo detento, "ele era o líder efetivo e incontestado dos detentos políticos". Embora ele tivesse sido mantido em regime de isolamento durante a maior parte da sua detenção, ele havia conseguido fazer circular um jornal manuscrito. "Havia diversas maneiras de comunicar dentro da prisão", explica um outro antigo prisioneiro, que permaneceu numa cela vizinha daquela de Win Tin durante dois anos. "Em certos casos, nós contávamos até mesmo com a ajuda dos guardas. Ou ainda, as famílias dos detentos conseguiam 'molhar a mão' de guardas, para que estes nos deixassem falar. Então, as condições da detenção começaram a ser um pouco amainadas, sobretudo quando dignitários estrangeiros visitavam a prisão".

Nos últimos dois ou três anos, U Win Tin passou a ter direito a receber livros, além de alguns jornais locais, enquanto as autoridades lhe ofereciam periodicamente uma libertação condicional. Ele havia recusado, exigindo uma libertação sem condição. Por qual razão ele foi libertado desta vez? "Eu não tenho a menor idéia", diz. "É possível que eles não quisessem me ver morrer na prisão. . ." A explicação que os observadores costumam oferecer é de que o regime quis dar apenas um braço a torcer para a comunidade internacional. Em todo caso, U Win Tin está decidido a tirar proveito da situação: "Eu tenho muito trabalho pela frente", assegura. "É possível que eles resolvam me prender novamente e, se este for caso, por enquanto eu tenho agora uma chance para agir, e não quero desperdiçá-la".

A sua estratégia se resume em duas palavras: unidade e diálogo. Logo depois da sua liberação, ele e um outro ex-detento foram reintegrados no órgão dirigente da VND, a comissão executiva. Dividida, enfraquecida, desacreditada depois de anos de paralisia, a liderança do partido encontra-se numa péssima situação. "Em primeiro lugar, eu quero instaurar novamente a harmonia na VND", afirma U Win Tin, "além de reconstruir a unidade do partido. Depois disso, eu pretendo trabalhar em prol da unidade com os outros grupos políticos e étnicos que lutam pela democracia, pois todos nós precisamos ser solidários".

Fora desta estrutura partidária, alguns militantes da oposição, desiludidos pela VND, estão agora esfregando as mãos. "U Win Tin vai dar um chute no formigueiro", afirma, esperançosa, uma antiga integrante do movimento de 1988. Todos esses macacos velhos devem estar realmente preocupados ao vê-lo retornar!"U Win Tin, explica um outro militante, "sempre foi um político autêntico, um radical, um homem de esquerda, ao passo que muitos outros dirigentes da VND são antigos militares".

Determinado em alcançar seus objetivos, U Win Tin, ainda assim, está partindo para a ofensiva com certa cautela. Ele recusou-se a recuperar seu antigo cargo de secretário-geral do partido. "Já existem um presidente e um secretário; a melhor coisa a fazer é mantê-los lá onde eles estão. O que nós estamos precisando agora é de uma direção muito compacta e unida", insiste. E quando nós lhe perguntamos se existe alguma perspectiva de que a VND participe das eleições que a junta pretende organizar em 2010, para formar uma Assembléia na qual 25% dos assentos desde já foram reservados para os militares, em virtude de uma constituição que a VND não reconhece, ele começa afirmando com cautela: "Eu não creio que isso seja possível". Então, ele acrescenta: "Mas isso não é uma recusa total, não existe nenhuma rejeição total. É preciso haver um diálogo, e nós vamos tentar organizá-lo. É somente depois desta primeira etapa que nós poderemos fazer alguma avaliação, e propor algumas emendas". Portanto, o senhor acha possível haver alguma evolução, de modo a que se possa dar um passo além da atual posição da VND, segundo a qual apenas o pleito de 1990 continua tendo valor? "Tudo é possível, mas nós precisamos desenvolver um diálogo em primeiro lugar".

Por meio de poucas frases, U Win Tin justificou a louca esperança que alguns birmaneses, exaustos com a repressão que não parou de recrudescer desde o movimento de protesto dos monges, que ocorreu um ano atrás, passaram a investir nele desde a sua liberação. "Ele vai ter que dar mostras de muita perspicácia", analisa Win Min, um universitário exilado na Tailândia. "Ele quer fazer com que a situação evolua, mas, é cedo demais para enxergar até onde ele conseguirá avançar. A qualquer momento, ele pode ser preso novamente".

Provavelmente para lembrar-lhe os limites da sua liberdade, a junta prendeu, em 1º de outubro, Ohn Kyaing, o braço-direito de U Win Tin. "Eles retomaram com a mão esquerda aquilo que haviam dado com a mão direita", observa um militante da oposição. "Ele me ajudou de maneira extraordinária a me organizar depois da minha liberação; e foi uma maneira de puni-lo por isso", reconhece U Win Tin. Mas, isso não será suficiente para detê-lo. Ele se diz deslumbrado com as mudanças que ocorreram no mundo desde 1989, "a tecnologia, os telefones celulares". E ele constata também "tudo aquilo que não mudou: a vida das pessoas, a pobreza, as intimidações. Em 1988, o ambiente estava muito ruim, e a situação não melhorou nem um pouco. O medo continua onipresente". Jean-Yves de Neufville

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