UOL Notícias Internacional
 

10/10/2008

No litoral leste dos Estados Unidos, a estação balneária de Sea Island amarga o "sumiço" dos seus veranistas abastados

Le Monde
Nicolas Bourcier
Em Sea Island (EUA)
A grande mesa ainda está no mesmo lugar, com as suas bandeiras engastadas na madeira. Nas paredes, as fotos dos grandes deste mundo não amarelaram. Jacques Chirac parece estar pensativo; ao seu lado está o antigo chanceler alemão Gerhard Schröder. Em outro retrato, George Bush, todo sorrisos, circula pela praia no volante de um veículo motorizado.

Aqueles eram bons tempos. Uma época em que os dirigentes do G8 se reuniam aqui, em Sea Island - a última vez foi em 2004 -, a estação balneária "mais prestigiosa do mundo", conforme diziam então: uma cidade do litoral leste onde o dinheiro circulava aos borbotões, feita de mansões e freqüentada por uma clientela chique; uma aglomeração à qual o grande público não tinha acesso, e onde predominava uma despreocupação a toda prova. Cerca de US$ 350 milhões (um valor equivalente hoje a R$ 770 milhões) haviam sido investidos em obras de renovação. Nos hotéis, o preço médio de uma diária era US$ 5.000 (R$ 11 mil). A clientela desfrutava o luxo das piscinas, dos restaurantes e dos spas. Por todo lado, mais de uma centena de condomínios estava sendo construída, atendendo à demanda de compradores sempre mais numerosos.

Esta época está agora encerrada. Em setembro, a Sea Island Company, que é proprietária da maior parte da cidade, tomou a decisão de demitir 500 assalariados, ou seja, um quarto dos seus funcionários, para tentar compensar as perdas financeiras engendradas pela crise. O número de mansões que foram colocadas à venda, das cerca de 600 residências que conta esta jóia do litoral leste, passou de 35 para 50 no espaço de algumas semanas. Nos hotéis, os seminários empresariais e as reuniões de negócios tornaram-se mais raros. Além de tudo, neste ano, os pagamentos de adiantamentos, que costumavam ser efetuados tradicionalmente em meados de outubro para as reservas relativas à temporada de Natal, estão sendo aguardados com grande preocupação.

"Chegou a nossa vez; também fomos atingidos em cheio por esta crise", observa Paul Cowley, um arquiteto especializado em terrenos de golfe, originário de Nova York, que está instalado há mais de trinta anos na aldeia vizinha de Saint Simons Island. "Todo mundo sabia que Sea Island estava crescendo rápido demais, mas, todos faziam de conta de que a região estava protegida de todo e qualquer sobressalto do mercado. E todos acreditavam que para continuar a salvo, bastava vender sempre mais".

Fundada em 1926 por Howard Coffin, um riquíssimo empreendedor e pioneiro da indústria automobilística, a pequena comunidade de Sea Island sempre se mostrou exímia em atrair uma clientela do mais alto nível financeiro. Uma meia-dúzia de presidentes americanos elegeu o local para temporadas de lazer. Nela, turistas abastados, figuras do mundo do espetáculo, artistas, esportistas, atores de cinema e personalidades do mundo da televisão adquiriram residências.

"Vende-se"

Até então, todas as vezes que a economia chegou a ser devastada por outras crises financeiras, como aquelas que ocorreram no final dos anos 1980 ou por ocasião do estouro da "bolha da Internet", em 2000, Sea Island e seus arredores sempre haviam sido poupados. "Tão logo o mercado começava a se contrair, as pessoas vendiam suas residências secundárias. Isso costumava acontecer nas localidades situadas mais ao norte neste litoral, entre a Geórgia, a Carolina do Sul e a Carolina do Norte, mas nunca ocorreu por aqui", lembra Troy, um antigo freqüentador da cidade. "Atualmente, a crise vem se espalhando por todo lugar nesta região".

Nas bordas da estrada que segue a orla da ilha do norte ao sul, os cartazetes de campanha dedicados principalmente ao candidato republicano John McCain acabaram sendo amplamente suplantados por painéis anunciando "Vende-se", colocados no meio da vegetação luxuriante dos jardins de fino trato. Em alguns lugares, certas obras parecem ter sido interrompidas. "Os preços das casas, aqui, não diminuíram muito, diferentemente do que ocorreu no restante do país", explica James Vivenzio, um agente imobiliário em Saint Simons Island. "A queda foi apenas de 10% em média. Em contrapartida, o volume das vendas diminuiu de cerca de 50%". Uma situação que, segundo este especialista, pode ser explicada pelos critérios sempre mais exigentes que foram impostos ao longo dos últimos meses pelos bancos nos processos de liberação dos créditos.

No bar lanchonete do Palm Coast Coffee de Saint Simons, os fregueses não têm papas na língua quando se trata de fazer comentários a respeito da crise. Nos últimos dias, uma dezena de pessoas que perderam seu emprego em Sea Island já se candidatou a uma vaga para trabalhar atrás do balcão deste estabelecimento. "Eu não creio que o plano de ajuda de emergência, aprovado pelo Congresso para superar esta crise financeira, possa mudar o que quer que seja", dispara Heather, a filha de um empreiteiro da construção civil que atua na região. "Até mesmo o meu pai não encontra mais trabalho. Há uma quantidade excessiva de casas para alugar ou para vender". Por sua vez, alguns comerciantes reconhecem ter registrado desde já perdas de ao menos 20% em seu faturamento, em razão de diminuição da clientela em Sea Island.

"Elas acreditavam que haviam chegado ao topo do mundo", sentencia Nancy Thomason, que dirige um sebo de livros na cidade e que também desembarcou aqui, vinda de Nova York, em meados dos anos 1970. Assim como muitos outros habitantes, ela denuncia "a arrogância" dos dirigentes de Sea Island. "Ao longo de todos esses anos, eles investiram sem contar, e dando mostras de uma real ingenuidade", afirma a comerciante, que acaba concluindo: "Eles fizeram suas apostas. E agora, estão pagando o preço por esta inconsciência. E nós também, acabamos pagando por esse pato". Jean-Yves de Neufville

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