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10/10/2008

O mais novo romance de Le Clézio, Nobel de literatura, narra um pesadelo de guerra

Le Monde
Patrick Kéchichian
Como epígrafe para o seu novo livro, "Ritournelle de la faim" ("Ladainha da fome"), Jean-Marie Gustave Le Clézio - que recebeu na quinta-feira, 9 de outubro, o prêmio Nobel de literatura de 2008 - cita o poema de Rimbaud (Arthur Rimbaud, 1854-1891) "Fêtes de la faim" ("Festas da fome"), com a sua terrível ladainha: "Si j'ai du goût, ce n'est guères/Que pour la terre et les pierres (...) Mes faims, tournez". ("Se eu tenho gosto, não é por nada/Senão pela terra e as pedras (...) Minhas fomes, girem vocês"). A fome. Uma realidade elementar, quase animal, que cava o corpo, se difunde e ataca a consciência. Então, a realidade amplia-se, a palavra torna-se metáfora. Por exemplo, é de justiça que se tem fome então. Mas, a escavação continua presente, e a carência permanece obsessiva. . .

O romance "Ritournelle de la faim" está imprensado entre dois curtos capítulos autobiográficos. No começo, o escritor recorda-se da Liberação - ele nasceu em 1940 - e da fome vivenciada antes de ser saciada, graças a aquele pão "de miolo tão branco quanto o papel no qual estou escrevendo": "Esta fome está em mim. Dela não posso esquecer-me. Ela emite uma luz violenta que me impede de esquecer-me da minha infância. Sem ela, provavelmente eu não teria conservado a memória daqueles tempos. . ." No final, Le Clézio se refere a uma outra ladainha - não menos terrível que aquela de Rimbaud agora há pouco: o "Bolero" de Ravel. A mãe do escritor assistira, segundo ele mesmo conta, à primeira apresentação do espetáculo, com a dançarina Ida Rubinstein. Ele sublinha: o "Bolero" é uma "profecia. Ele conta a história de uma cólera, de uma fome. Quando ele se conclui em meio à violência, o silêncio que se segue é terrível para os sobreviventes aturdidos". Era em 1928, em Paris, anos antes do seu nascimento.

Entre a introdução em forma de advertência e esta conclusão em que a memória é cavada como um estômago vazio, temos a história, o romance de Ethel. Este talvez seja um dos mais belos retratos já escritos por Le Clézio, estremecido, frágil, nunca encolhido em si mesmo, nunca petrificado num mármore de imitação, nem prisioneiro dentro do torno das pesadas certezas psicológicas. Quanto à parte autobiográfica, ela foi deliberadamente reduzida à sua mais simples expressão. Não há confusão alguma, portanto, nem qualquer confissão, mas sim um simples sinal em direção à intimidade. Uma intimidade que não se trata de calar. E tampouco de expor em excesso. Apenas ao romance e ao romancista incumbe a tarefa de apoderar-se do real, de recompô-lo.

Ethel tem "dez anos apenas" quando, segurando firmemente a mão do seu tio-avô, M. Soliman, ela visita a Exposição colonial, no Bosque de Vincennes (na região parisiense). Nós estamos então em 1931. Não é o autor quem diz isso - aliás, ele oferece poucas indicações cronológicas, o menos possível. M. Soliman morre em 1934. Aqui, a data é precisa. O mundo está prestes a dar uma guinada, e os sonhos do idoso em breve darão lugar ao pesadelo. As conversas de salão, na casa dos pais de Ethel, Alexandre e Justine, na Rua du Cotentin, no 15º distrito de Paris, repercutem os ecos dessa transformação, inicialmente abafada, distante. "É mais ou menos nesta época que Ethel ouve pela primeira vez pronunciar o nome de Hitler. . ."

Os vapores da ilusão

Já se fora o tempo em que se podia rir, mas todos ainda riem, defendem opiniões, lutam em defesa de preconceitos sem medirem ao certo seu alcance. O velho anti-semitismo francês se exibe, de maneira plenamente inocente por assim dizer, até o dia em que ele será atendido pelas leis anti-judaicas de Vichy (1942). Muito perto da Rua du Cotentin, no Vel'd'Hiv' (antigo velódromo), a polícia francesa se prepara para prender em massa os judeus. Então muito rapidamente, o perigo vai crescendo, o horror aproxima-se, torna-se realidade, e os comentários não podem mais ser inocentes. . . "Por ser filha única numa família em guerra, numa casa ameaçada", Ethel "não tinha o senso do humor, é o que Alexandre teria dito. Por um nada ela ficava furiosa". Em meio à inconsciência e à despreocupação generalizadas; em meio aos vapores da ilusão, a jovem mulher acede brutalmente à idade adulta, à consciência dos eventos. A sua nova idade é também a nova idade do mundo.

Um falastrão e um negocista desastrado, Alexandre Brun é oriundo da ilha Maurício. No seu salão burguês costumam se reunir as tias idosas Pauline, Willelmine, Milou. E mais algumas figuras representativas da época, vagas relações do dono da casa. Este é "o clã dos Brun, esses mauricianos que falam em excesso e cujo riso é comunicativo, dotados de humor e de maldade, capazes de enfrentar qualquer um que estiver proferindo um discurso, por mais que ele seja parisiense". Do outro lado, aquele de Justine é o "clã dos Soliman, sempre em situação de inferioridade numérica, e cujos membros são completamente sobrepujados" pelos Brun. Um dia, Ethel completa 18 anos. Le Clézio escreve então: "Ela não vivenciara nada, nada conhecera, e ainda assim, era ela quem sabia tudo, quem compreendia tudo, enquanto Alexandre e Justine mais se pareciam com crianças, mais se pareciam com adolescentes egoístas e birrentos". Quando ela tinha 8 anos, ela também fora assistir ao "Bolero". Aquilo fora como uma premonição, uma "profecia", mas ninguém poderia ter qualquer consciência disso. Então, souberam, e compreenderam. . .

Da mesma forma que ele não transforma suas personagens em estátuas, Le Clézio não elabora aqui nenhuma descrição histórica. Ao lado de Ethel, cujo magnífico perfil domina esta "Ritournelle de la faim", todas as personagens possuem uma grande densidade de verdade. O romance se constrói realmente em torno deles. Assim, Xénia, a amiga de infância que ela reencontra depois da guerra, num mundo por certo libertado, porém antes destruído. Um mundo no qual "a graça da extrema juventude" havia "escapulido".

O escritor tampouco ministra qualquer lição de moral. Sutil e generosa, a sua arte, que ele domina até a perfeição - conforme demonstra a composição da narrativa -, está totalmente imbuída de compaixão e de empatia, de revolta também. É raro penetrar com tanta emoção nos sentimentos de personagens romanescos. E, em primeiro lugar, nos de Ethel, cuja figura não se apaga da memória. Jean-Yves de Neufville

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