UOL Notícias Internacional
 

11/10/2008

As peregrinações radioativas de botões de elevadores

Le Monde
Hervé Morin
Na terça-feira, 7 de outubro, mais de duzentos empregados da companhia francesa Mafelec, em Chimilin (Isère, no centro-leste) foram evacuados do recinto desta empresa que fabrica, entre outros, componentes para elevadores. O motivo desta operação foi a descoberta, numa das oficinas, de pacotes que emitiam radiações ionizantes.

Na quarta-feira, uma equipe do Instituto de Proteção contra a Radioatividade e de Segurança Nuclear (cuja sigla em francês é IRSN) confirmou que remessas enviadas em paletas provenientes da Índia, algumas das quais já se encontravam no local desde julho, engendravam efetivamente emissões de doses significativas de radioatividade. Num determinado posto de trabalho, a quantidade emitida que foi medida alcançou valores quinhentas vezes superiores aos do ruído de fundo da radioatividade natural.

As medições apontaram que a radiação tinha como origem, componentes de botões de elevadores, os quais contêm cobalto 60. Trata-se de cobalto* produzido na Índia que foi detectado em meio a componentes e peças montadas na França com destino aos Estados Unidos. Aquilo que não passava de uma viagem banal para a indústria globalizada transformou-se num risco potencial para os assalariados daquela companhia: os resultados de uma medição das doses que foram recebidas pelos empregados, conforme os postos que ocupavam, deveriam ser encaminhados, na sexta-feira, 10 de outubro, para a Autoridade de segurança nuclear. Esta deverá então lavrar um auto de infração por infrações ao código da saúde pública.

Alerta dos serviços da alfândega

Gilles Heinrich, o diretor-geral da Mafelec, está decidido a esclarecer todos os aspectos deste "caso muito importante, em relação ao qual uma empresa como a nossa não tem controle algum sobre o processo como um todo". Ele sublinha que a agência nuclear indiana foi alertada e que três fornecedores poderiam estar envolvidos. Estes últimos têm também entre os seus clientes as filiais indianas de importantes montadoras de sistemas elétricos e ainda fornecem equipamentos para uma companhia belga.

A cronologia deste caso, que foi relatada por Gilles Heinrich, merece ser narrada detalhadamente. Em 17 de setembro, a Mafelec, que está instalada na região de Grenoble, foi alertada para o fato de que no aeroporto de Roissy (região parisiense), remessas acondicionadas em pacotes que lhe eram destinadas apresentavam quantidades de radiação incomuns, que foram detectadas pelos pórticos de medição de radioatividade. Ainda assim, a firma transportadora autorizou e procedeu ao seu encaminhamento.

Em 3 de outubro, a Otis, o seu cliente americano, alertou a Mafelec para o fato de que remessas que lhe eram destinadas foram retidas na alfândega por este mesmo motivo. Finalmente, as remessas acabaram chegando até o seu destinatário, nos Estados Unidos. Mas, em 7 de outubro, a Mafelec tomou a decisão de alertar as autoridades francesas. Os serviços da alfândega americana acabavam de informar-lhe de que os seus homólogos mexicanos haviam bloqueado por sua vez caminhões que transportariam as tais remessas.

Gilles Heinrich, que pediu à Agência Nacional de Gestão dos Resíduos Radioativos (Andra) para se encarregar das peças contaminadas, quer cooperar com os poderes públicos "para compreender de que maneira esse material conseguiu atravessar as nossas fronteiras sem que o alarme fosse disparado mais cedo, pelas mais altas instâncias".

Por enquanto, a origem deste cobalto 60, um metal formado a partir dos materiais provenientes dos reatores nucleares, e que é utilizado também no campo da radioterapia, permanece misteriosa. A Autoridade francesa de segurança nuclear, junto com as suas homólogas americana e indiana, se prepara para uma investigação que deverá abranger este processo industrial como um todo. Da Índia até os Estados Unidos, passando pelo departamento francês da Isère.

* Nota do tradutor: a palavra cobalto é derivada do alemão "kobalt", ou "kobold", do nome de um espírito maléfico que assombrava as minas, conforme uma crença tradicional germânica. O metal teria sido batizado com este nome ainda no século 19 pelos trabalhadores das minas porque ele revelou ser tóxico e provocava problemas de saúde, atingindo principalmente o sistema respiratório. Além de tudo, ele poluía o meio-ambiente e deteriorava os outros elementos extraídos na mineração, tais como o níquel. A sua toxicidade se deve tanto aos seus componentes químicos quanto às suas propriedades radioativas. Jean-Yves de Neufville

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host