UOL Notícias Internacional
 

11/10/2008

No centro de Johannesburgo, a Copa do Mundo de 2010 já aguça os apetites das máfias locais

Le Monde
Por J.-P. Ry
Enviado especial a Johannesburgo
O drama se desenrolou com a rapidez de um relâmpago. O incêndio teve início dentro de um apartamento, no andar mais alto do Cardiff Arms, um prédio do bairro de Hillbrow, no centro de Johannesburgo. Um homem e uma mulher, que ficaram encurralados pelas chamas, pularam do oitavo andar. Eles jazem agora na calçada, e seus corpos estão agitados por sobressaltos, enquanto desaba em volta deles uma avalanche de destroços de vidro e uma chuva da água suja. Lá no alto, dois bombeiros tentam afogar seu apartamento por meio da agulheta de incêndio.

Mesmo que ela esteja acostumada com a dureza da vida do bairro, a multidão que está assistindo ao espetáculo na rua e das janelas dos prédios vizinhos está transtornada com este drama. Esse tipo de situação ocorre com tanta freqüência e, afinal, poderia acontecer com qualquer um. A culpa é dos pequenos fogareiros a petróleo utilizados nos apartamentos lotados de gente, onde os quartos não raro são compartilhados por vários inquilinos, e onde apenas alguns privilegiados dispõem da eletricidade.

Neste setor de prédios e de torres de arquitetura geométrica, inicialmente reservado aos brancos, a segregação abrandou-se com o fim do apartheid. A partir daquele momento, muitas casas noturnas começaram a surgir na vizinhança, atraindo notívagos de toda laia e de todas as cores. Alguns anos depois desta abolição (1990) que decretou a morte da segregação racial, o bairro inteiro começou a ver a sua atividade desmoronar. Os proprietários brancos fugiram, enquanto foram chegando novos habitantes, ávidos por gozarem do seu direito de viver finalmente no centro da cidade.

Simultaneamente, a África do Sul, cuja economia é a mais importante do continente, foi atraindo um grande número de migrantes vindos de toda a África. Hillbrow tornou-se a "Pequena Lagos", em razão da sua importante população de nigerianos, os quais não demoraram a ser acusados de todas as pragas possíveis: tráfico de drogas, prostituição e tramóias de toda natureza, tudo isso organizado em escala industrial. . . Como se a criminalidade pudesse ter uma nacionalidade.

Quinze anos mais tarde, eis que se aproxima, a passos acelerados, a Copa do Mundo de futebol que será organizada em 2010 pela África do Sul. A algumas centenas de metros do Cardiff Arms em chamas, casas estão sendo destruídas por meio de buldôzeres de modo a permitir a construção de um novo espaço em volta de um dos grandes estádios, no qual serão disputadas algumas das partidas. Um plano geral de renovação foi deslanchado nos bairros centrais, tais como Hillbrow e Berea. No presente momento, o efeito gerado pela Copa do Mundo se traduz não só por uma política de renovação urbana e por um recrudescimento da presença policial, como também por estranhas práticas.

"O cheiro do dinheiro"

Num prédio onde a água que circula nas tubulações furadas escorre pelas paredes das fachadas, esverdeadas pelo musgo, Louis trava no meio da escuridão do seu minúsculo apartamento um combate de vida ou morte para preservar sua propriedade. Dentro do cômodo que ele utiliza alternadamente como quarto, sala de estar e de refeições, e onde predomina um cheiro sufocante de petróleo para lâmpadas, se destacam equipamentos que não podem ser utilizados, entre os quais um aparelho de TV, uma geladeira e um forno de microondas. "Eu comprei este apartamento em 1992, após ter trabalhado durante a minha vida inteira", conta. "Isso é tudo o que eu possuo neste mundo, e estão querendo tirá-lo de mim. Mas, qual será a liberdade que nós conquistamos ao longo de todos esses anos de luta? É uma liberdade de porcos, isso sim!"

Ele abre um armário embutido, de onde extrai um envelope dissimulado debaixo de uma pilha de roupas, e mostra as mais recentes cartas de ameaças de morte e de insultos que ele recebeu, enviadas por "aqueles que querem se apoderar do apartamento". Instintivamente, ele começa a falar em voz baixa, e dirige um olhar tenso que fita aquele do seu interlocutor. As ameaças devem ser levadas a sério: já assassinaram alguns proprietários em Hillbrow.

Este é um dos efeitos perversos da campanha de "limpeza" que vem sendo realizada. Novos "gerentes", dissimulados por trás de obscuras empresas, começaram a aparecer no decorrer dos últimos meses. Eles multiplicaram o valor dos aluguéis por três, quatro ou cinco e estão empenhados em expulsar os raros proprietários que vivem ali. Os novos donos dos prédios andaram embolsando os fundos oferecidos pela prefeitura que se destinam à renovação dos imóveis, sem efetuarem qualquer obra. "Com a chegada da Copa do Mundo, há pessoas que sentem o cheiro do dinheiro e que querem se apoderar deste bairro inteiro", conclui Louis.

Ruídos de sirenas rasgam a noite. A presença da polícia foi reforçada, o que melhorou um pouco a vida dos habitantes do bairro. Mesmo assim, nos cantos mais escuros das ruas, os vendedores de crack e de heroína prosseguem sua atividade, só que os seus procedimentos se tornaram apenas mais furtivos. "Olá, você tem tudo de que precisa?", indagam homens de olhar agudo. A prostituição fugiu das calçadas para trancar-se dentro de lupanares que oferecem música, strip-tease radical, e em certos casos até mesmo um estacionamento vigiado. No decorrer das horas, rostos devastados circulam na madrugada. Alguns dos passantes são brancos. A máquina de triturar da rua ignora a discriminação.

Um deles, Chris, um antigo empregado branco da companhia ferroviária, vive num espaço que é o equivalente de um armário, num dos andares escuros do hospital Florence Nightingale. Nele, há muito tempo que ninguém recebe mais qualquer atendimento médico. Os seus quartos passaram a ser habitados pelos mais pobres dentre os pobres. Por ser deficiente físico, Chris enfrenta dificuldades nas escadas para conseguir subir até este que se tornou o derradeiro baluarte que o protege da rua. No dia a dia, ele se alimenta "de pão e de coca-cola". Ele também, treme só de pensar que pode ser expulso a qualquer momento. Se isso acontecesse, aonde iria ele?

Fortunas inconfessáveis

No Olympic, uma casa noturna nigeriana, muitos consideram o futuro movidos por apetites de animais carniceiros. Competindo com alguns poucos possuidores de fortunas constituídas em Hillbrow por meios inconfessáveis, vários empreendedores nigerianos que desembarcaram na África do Sul com os seus capitais se preparam para aproveitar a todo custo todas as oportunidades que a mais importante economia do continente tem para oferecer. Um deles, que comprou uma marca de água mineral, está tentando imaginar a melhor maneira de vender "um milhão de litros do produto para o governo". Um outro acha o máximo ter vindo para cá: "Quando eu caminho pelas ruas de Hillbrow, quatro comércios em cada seis são de nigerianos".

O presidente da comunidade nigeriana, Johsons Oswapo mostra ter ambições ainda maiores: "Com o dinheiro que estamos investindo aqui, e com as infra-estruturas que este país oferece, nós poderíamos produzir aqui mesmo, na África, tudo aquilo que os chineses nos vendem. Mas, cuidado! Nós somos todos solidários! Se o governo criar problemas em demasia para a comunidade, ele irá descobrir a dureza que pode ser uma retirada maciça de investimentos. Não são apenas os brancos que podem se retirar de um país para irem aplicar seu dinheiro em outro lugar!" Jean-Yves de Neufville

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