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12/10/2008

O gigante russo Gazprom aguça os apetites dos "protegidos" de Vladimir Putin

Le Monde
Marie Jégo
Em Moscou
Boris Nemtsov, um antigo ministro da energia na época de Boris Ieltsin, é um observador bem informado e preocupado. "O que faz a principal característica da economia russa se resume numa palavra: monopólio", observa o ex-ministro, que é o autor, junto com Vladimir Milov, de um relatório sobre a Gazprom, o gigante russo da energia, (intitulado "Putin e a Gazprom", agosto de 2008). Nesse sentido, Boris Nemtsov, que se posiciona atualmente entre os membros da oposição, denuncia o "esquartejamento" da companhia que vem sendo operado por aliados próximos do primeiro-ministro, os quais conseguiram adquirir recentemente, a "preços de amigo", um bom número de ativos do mastodonte.

Este é o caso de Iouri Kovaltchouk, uma figura bastante conhecida dos meios político-industriais desde a época em que Vladimir Putin trabalhava na prefeitura de São Petersburgo. Foi assim que Kovaltchouk, que foi o fundador do banco Rossia - um estabelecimento possuidor de US$ 15 bilhões (cerca de R$ 34,5 bilhões) em ativos declarados -, adquiriu recentemente a Sibour (petroquímica), o banco Gazprombank, o Gazfond (o fundo de pensão da Gazprom) e a Gazprom Media (comunicações), a qual ele comprou do gigante do gás por "um décimo do seu valor", segundo Vladimir Milov. Além disso, o banco Rossia é proprietário da companhia de seguros Sogaz, cujo vice-presidente não é ninguém mais que Mikhail Putin, um primo do primeiro-ministro.

Em meio aos meandros de um complicado esquema de participações cruzadas, um outro primo do dirigente aparece: Mikhail Chelomov, que é detentor de 3,94% do banco Rossia e de 12% da seguradora Sogaz. Em 2 de setembro, a imprensa russa revelou que Arkadi Rotenberg, o antigo treinador de judô do primeiro-ministro Vladimir Putin (que é faixa preta) havia assumido o controle dos ativos da Gazprom no setor da construção civil. Nos últimos tempos, os apetites dos predadores vêm se mostrando tanto mais aguçados que a Gazprom, a quarta maior companhia mundial (da qual o Estado é proprietário de 50,1% do capital), fornecedora de 26% do gás consumido na Europa, foi duramente atingida pela crise financeira. Foi por esta razão, aliás, que na terça-feira, 7 de outubro, os dirigentes da Gazprom e de outras três companhias do setor energético russo - a Rosneft, a Loukoïl e a TNK-BP - enviaram uma carta ao primeiro-ministro, Vladimir Putin, pedindo-lhe uma ajuda financeira urgente para conseguirem honrar seus vencimentos de crédito.

Das quatro companhias, a Gazprom e a Rosneft, os dois mastodontes públicos, são as mais endividadas, e precisam reembolsar empréstimos concedidos por bancos estrangeiros, de um montante de US$ 20 bilhões (R$ 46 bilhões) e US$ 26 bilhões (R$ 59,8 bilhões), respectivamente. Contudo, conforme especificaram na carta, a ajuda solicitada servirá também para comprar ativos no exterior. O mastodonte do gás, que é detentor de participações em seis países da Europa, procura atualmente dinheiro vivo para adquirir, entre outros, 16,5% da jazida da Elephant, na Líbia, e comprar (por US$ 400 milhões - R$ 920 milhões) a companhia petroleira sérvia NIS.

Monopólio dos gasodutos

Um verdadeiro Estado dentro do Estado, a Gazprom tornou-se ao longo dos últimos anos a vitrine da Rússia. Os seus sonhos de conquistas andaram incomodando os europeus, sobretudo desde que a companhia passou a disputar das concorrências visando a aquisição de participações no mercado da distribuição do gás na Europa ocidental, com o objetivo de dominar a cadeira da energia como um todo, da extração à distribuição. Aliás, os dirigentes russos e europeus se reuniram para discutir essa questão, na quarta-feira, 8 de outubro em Bruxelas, por ocasião de uma cúpula dedicada à energia.

Contudo, apesar de ser proprietário de 27% das reservas mundiais, o monopólio russo poderia muito em breve deparar-se com uma falta de gás, já em 2009, segundo anunciam os especialistas. No momento em que a atividade da extração se encontra estagnada (556 bilhões de m3 em 2006, 548 bilhões de m3 em 2007) e que a renovação das suas ferramentas industriais permanece negligenciada, o gigante vai precisar atender a um crescimento da demanda interna e externa. Ora, a maior parte da sua produção é garantida por cinco ou seis jazidas. Destas, as três mais importantes (Medvejie, Iambourg, Ourengoi) conseguem garantir 80% da produção, mas a sua capacidade está praticamente esgotada. Elas deverão ser substituídas pelas jazidas de Sakhalin (no Extremo Oriente), Iamal (Grande Norte) e Shtokman (a segunda maior do mundo, situada no mar de Barents). Ainda assim, elas não entrarão em operação antes de 2011, e até mesmo antes de 2014.

Além do mais, a Gazprom tem lá seus concorrentes na própria Rússia, entre os quais se inclui a Rosneft que, por intermédio da Purneftegaz, a sua unidade de produção de gás, prevê produzir 45 bilhões de m3 a partir de 2013. Contudo, nenhuma companhia fora da Gazprom tem acesso aos gasodutos. Este monopólio sobre as canalizações (que somam 153.000 km de extensão) garante a sua dominação sobre os produtores independentes, que com isso se vêem obrigados a vender-lhe o gás a um preço irrisório (US$ 49,50 os 1.000 m3 contra US$ 71 os 1.000 m3 no mercado interno, e US$ 420 no mercado externo), na falta de dutos próprios para escoarem sua produção.

Mais recentemente, este monopólio dos gasodutos começou a ser questionado. Em julho de 2008, o vice-primeiro-ministro e presidente da Rosneft, Igor Setchin, exigiu uma revisão da lei que instituiu o monopólio.

Os judocas Putin e Sarkozy se preparam para treinarem juntos

No momento em que um pequeno grupo de manifestantes reunidos no centro de Moscou estava exigindo, na terça-feira, 7 de outubro, um processo público dos assassinos da jornalista Anna Politkovskaia, o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, por sua vez, anunciou o lançamento de um DVD destinado aos praticantes de judô. Intitulado "Aprenda o judô com Vladimir Putin", o vídeo estará disponível em breve em todas as lojas.

A televisão russa já está fazendo a promoção desta novidade. Nele, o "líder nacional", que é faixa preta, é visto derrubando por vezes repetidas seu adversário, que fica estatelado no tatame. "Num combate, todos os tipos de golpes são permitidos, a serviço de uma única causa: a vitória", explica o primeiro-ministro russo, enquanto a sua fala tem como trilha sonora uma música asiática.

Sempre muito animado quando se trata de vangloriar os benefícios do judô, Vladimir Putin faz questão de argumentar em favor deste esporte por ocasião dos grandes compromissos internacionais. Segundo ele, o presidente francês Nicolas Sarkozy está disposto a seguir seus ensinamentos. "Eles está interessado nas artes marciais e nós tomamos a decisão: vamos treinar juntos", comentou Putin numa entrevista ao "Le Figaro". Jean-Yves de Neufville

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